Paladar

Luiz Horta

Vinhos em Berlim, olhando a rua

05 junho 2013 | 23:00 por Luiz Horta

A palavra mágica é Riesling, casta amada pelos críticos (e enófilos do mundo). Aparece em versões imponentes na Áustria, Alsácia, e regiões mais privilegiadas do Novo Mundo, como o Chile. Mas reina na Alemanha. Os vinhos alemães mais nobres são Rieslings, capazes de evolução e longevidade surpreendentes. Riesling, além de tudo, é um grande companheiro para comida, por sua acidez salivadora e pela frequente harmonia contrapontística com um pouco de açúcar residual. São a versão líquida da música de Bach.

Como estou em Berlim, tenho à mão todas suas versões, das várias regiões produtoras, começando pelos trocken (secos) que estão entre os 4 e os 16 euros, até os botritizados e raros TBA (trockenbeerenauslese, os doces feitos com uvas passificadas pela botritis), que nunca custam menos de 200 euros a garrafa de 325 ml.

Catálogo. É escolher o vinho, pegar, pagar e pôr na sacola para beber em casa – ou lá mesmo, sem frufru. FOTOS: Luiz Horta/Estadão

Começo aqui uma pequena série de colunas sobre a uva. Pela primeira vez, dada a dificuldade de entender a classificação dos vinhos alemães, não vou abordá-los por regiões produtoras (embora haja grande diferença entre o Mosel e Franken, por exemplo), mas por seus estilos. Antes, decidi falar do que as pessoas bebem na rua, com a comida informal, no bar por taça, no dia a dia.

Fiz uma ronda de vinhos baratinhos, para tomar frios e na confusão do mercado. O local ideal para começar foi o Markethalle Neun, o mercado de bairro número 9, que fica em Kreuzberg, reocupado recentemente por lojistas gourmets, o melhor lugar de comida de rua da cidade. Seu convescote gastronômico abre de quinta a sábado. Há bancas fixas e expositores visitantes. Na semana passada, tinha até coxinha de frango e feijoada. As fixas têm chocolates especiais, tortas deliciosas, um famoso BBQ de porco que gera filas, duas lojas de vinhos, chás refinados, café do ótimo Five Elephant e o defumador de peixes da moda, Glut & Späne, com seu gravlax curtido no gim ou no single malt escocês e a disputada truta. Foi nele que comecei minha degustação, com três dos vinhos que vende: um Sylvaner, um Riesling e um (aparentemente) horror típico da cidade: Acht Grad, metade água com gás e metade vinho branco. Desse 8 graus (teor que a bebida tem e lhe dá nome), diga-se que é bom, mata a sede e é tomado de canudinho. Talvez seja inadequado chamá-lo de vinho, mas é um spritzer refrescante e próprio para consumo em volume.

Carta de vinhos. Na própria garrafa, está escrito o preço por 100 ml. É pedir e beber, o sommelier é você. O Riesling e o Sylvaner eram bons

Nos bares perto de casa, vou de vinho, dividido em weiss ou rot, branco ou tinto, sem nome nem sobrenome. São os que abriram no dia, sempre decentes, se pede pela cor. O branco parece ser um Sauvignon Blanc, embora não tenha me dado o trabalho de perguntar. Dá para beber olhando a rua, custa quase nada e é um alívio para o excesso de classificação que a profissão e a enomania me pedem.

Degustação. Truta defumada, molho de raiz-forte, pão de centeio, potinho de ceviche à moda alemã com salmão do Báltico; e três taças

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