Paladar

O Cachacier

Tudo sobre cachaça, por Mauricio Maia

A certificação orgânica e a garantia de uma boa cachaça

Há muito mais por trás de uma cachaça orgânica do que somente um selo. Entenda como o conceito vai muito além do que uma boa bebida

14 de junho de 2019 | 14h03 por Mauricio Maia

Já falei sobre cachaça orgânica e sustentabilidade no setor aqui, mas existe um conceito muito mais profundo e antigo que orienta tudo isso que se chama biodinâmica, e que seu idealizador – ou principal difusor – foi Rudolf Steiner.

Calma! Não vou dizer aqui que Rudolf Steiner era apreciador de uma boa branquinha, mas em tempos de aquecimento global, nada como ser sustentável e apreciar uma boa cachaça orgânica – que segue, em parte, os preceitos da agricultura biodinâmica propostos pelo filósofo austríaco, fundador da antroposofia.

Cada vez mais valorizados, os produtos orgânicos já são presença obrigatória nas prateleiras de grandes redes de supermercados, e nas mesas dos brasileiros. Na Europa, os produtos orgânicos apresentam uma vantagem competitiva considerável e uma certificação pode abrir muitas portas e facilitar a entrada em alguns mercados.

De norte a sul do país já temos dezenas de marcas de cachaça certificadas que ostentam com orgulho o selo em sua embalagem ou rótulo.

 

Cachaça Serra das Almas - BA

As duas versões da Cachaça Orgânica Serra das Almas – Branca e Armazenada em tonéis de Garapeira. FOTO: Marcus Vaccaro/Divulgação

 

Do açúcar do cafezinho à camiseta que você usa, tudo hoje pode ser certificado como produto orgânico, recebendo selos que atestam internacionalmente essa qualidade. Com a cachaça não é diferente. Inclusive até sua festa de casamento ou viagem internacional podem ser sustentáveis.

Recentemente fui visitar a destilaria da Cachaça Novo Fogo em Morretes com um grupo de norte-americanos e a marca neutralizou a pegada de carbono da viagem de todos, inclusive com a emissão de um certificado internacional. Se isso não é ser sustentável, eu não sei dizer o que mais pode ser.

Deixando há tempos de ser uma questão de modismo ou coisa de bicho-grilo, a agricultura orgânica conquistou um grande mercado. Aderir a suas normas de produção e possuir um selo de certificação é questão de sobrevivência econômica e estratégia empresarial. Principalmente para empresas que pretendem exportar para Europa e Estados Unidos.

O caráter artesanal da produção da cachaça se adéqua perfeitamente às regras da agricultura orgânica, com pequenas adaptações. Porém engana-se quem pensa que possuir um selo de certificação é simples. Não basta simplesmente banir fertilizantes químicos e agrotóxicos: é necessário que toda a operação agrícola, industrial e comercial obedeça a rígidos critérios e padrões de sustentabilidade.

Segundo o Sr. Antonio Inácio, produtor da Cachaça Serra Limpa, de Duas Estradas – PB – que possui a certificação orgânica pelo IBD (Instituto Biodinâmico), os cuidados com a fertilidade do solo, o controle biológico da pragas, e o transporte em carro-de-boi da cana colhida manualmente, contribui para a qualidade do produto final, tanto quanto os processos de fermentação natural e destilação em alambiques de cobre.

Diversas marcas já possuem o selo de certificação e ganham novos mercados exportando para países como Alemanha, Portugal e Inglaterra.

Segundo me disse uma vez o alemão Herbert Rugel, um dos criadores da cachaça Serra das Almas, de Rio das Contas/BA, na Chapada Diamantina, a primeira cachaça com certificação orgânica do país, “por ser uma bebida alcoólica muito forte, a cachaça não é bem o perfil do tipo de produto que os adeptos da agricultura orgânica costuma consumir. O vinho, por exemplo, tem muito mais procura. Mas apesar disso o selo de certificação do IDB é uma garantia de qualidade para o consumidor europeu.”

O IBD certifica hoje, obedecendo as regulamentações de mais de seis países diferentes e seu trabalho é reconhecido globalmente.

Existem também certificadores internacionais e ter um certificado reconhecido no exterior como o EcoCert, representa uma vantagem competitiva em um mercado cada vez mais acirrado como o dos destilados artesanais, como o da cachaça Weber Haus que possui o selo de certificação da EcoCert, hoje um dos principais certificadores, presente em mais de 20 países, e além da produção orgânica tem toda a destilaria funcionando com energia solar.

Diversos já são os produtores de cachaças orgânicas. De grandes marcas como a Ypióca – que destila no Ceará uma versão orgânica de sua aguardente – ao Assentamento Santa Maria em Paranacity/PR, ligado ao MST, e que faz uma cachaça que tem 100% de sua produção exportada para a Europa.

Vários empresários começam a ver na agricultura orgânica um bom potencial de mercado, sem falar na qualidade do produto final, que nos proporciona uma cachaça limpa, perfumada, saborosa e com a garantia de um dia seguinte sem dor de cabeça.

Saúde!

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