Paladar

O Cachacier

Tudo sobre cachaça, por Mauricio Maia

Cachaça é sustentável? Em sua essência, sim. Mas precisa de mais empenho

Em tempos de discursos ecologicamente corretos, é necessário que produtores e consumidores se questionem sobre a sustentabilidade da bebida que põem no copo

26 outubro 2016 | 14:51 por Mauricio Maia

Você sabia que existem cachaças orgânicas, cachaças com certificação kosher e cachaças biodinâmicas? Existem. Mais do que isso, o processo de produção da cachaça de alambique é sustentável em sua essência. Nada se desperdiça. Muito se reaproveita e a geração de resíduos é muito pequena.

Tudo isso faz com que a certificação de produtos orgânicos para uma marca da bebida seja relativamente simples. Não é necessário muito esforço por parte dos produtores para se adequarem às normas de uma produção sustentável – porém, poucos o fazem.

Garrafas retornáveis

O processo de cadeia reversa garante o retorno de 95% dos vasilhames. FOTO: Divulgação

Ficou com água na boca?

O mercado nos oferece exemplos, como a Cachaça Sanhaçu, de Chã Grande em Pernambuco, que além de ser a primeira cachaça com certificação orgânica no estado, é um primeiro alambique no país operado através de energia solar.

Outro bom exemplo é a Cachaça Serra Limpa, de Duas Estradas na Paraíba, que além da certificação de produção orgânica, possui projetos de reflorestamento através de uma reserva particular e chega ao extremo de utilizar somente carros de boi para o transporte da cana da lavoura até o alambique.

As grandes empresas do setor, como a Ypióca e a 51, trabalham dentro do sistema de logística reversa, que garante o retorno das embalagens de vidro para reaproveitamento, resultando em mais de 300 toneladas de resíduos sólidos que deixam de ser descartados no meio ambiente, além de contarem com sistemas de reuso de água para garantir um uso racional do recurso e redução considerável de seu consumo.

Porém, existe um fator que ainda é pouco explorado na cadeia: a origem da madeira dos tonéis onde a cachaça é envelhecida. Pouquíssimos produtores se preocupam com isso. Um deles é a Agroecológica Marumbi, de Morretes no Paraná, que faz as Cachaças Porto Morretes e Novo Fogo (esta comercializada somente nos Estados Unidos). Além de também ter certificação orgânica, o alambique trabalha com uma taxa zero de resíduos, onde tudo o que é gerado durante o processo produtivo é reaproveitado ou reciclado dentro da própria fazenda.

Segundo Humberto Candeias, mestre cachacier da cachaça Zeca de Matos, “no país do desmatamento, está na hora de os produtores se preocuparem com algo que os consumidores de todo o mundo já se preocupam: sustentabilidade. Começando pela madeira dos tonéis”.

Um dos diferenciais da cachaça em relação a outros destilados é a utilização de madeiras nativas do Brasil para a confecção dos barris para o envelhecimento da bebida. Espécies como o jequitibá e o amendoim já são consideradas pelo Ibama como espécies ameaçadas e têm seu corte proibido. Outras espécies mais tradicionais como a amburana e a castanheira já são consideradas espécies vulneráveis.

Foi preocupado com esse alerta, que o Sr. Arnaldo Ribeiro, produtor da cachaça Taverna de Minas e proprietário da escola Cana Brasil – principal formadora de mão-de-obra para o setor da cachaça, de Itaverava em Minas Gerais –, iniciou um projeto que incentiva todos os alunos, de cada curso ministrado, a plantarem uma muda de uma destas espécies (amburana, bálsamo e jequitibá). Por menor que seja a área, o ato gera a reflexão e a conscientização do aluno e, se esse ato for repetido em suas fazendas, nos alambiques em que trabalham, o primeiro passo para a preservação estará dado.

Ah, prometo falar mais sobre a certificação orgânica para cachaça nos próximos posts!

Saúde!

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