Paladar

Os vinhos de Gaja

31 março 2014 | 16:57 por Marcel Miwa



FOTO: Marcel Miwa/Estadão

Não é novidade que a personalidade de Angelo Gaja é magnética. Como um bom maestro, assim que sentamos, emendou: “Provem! Provem enquanto eu falo. Não será difícil me ouvir e tomar as notas de degustação”. Algum desavisado poderia encarar a recomendação como certa arrogância, no entanto, após uns minutos de conversa é fácil perceber que aquilo é apenas retrato da segurança alguém que sabe fazer grandes vinhos, que falam por si só. Angelo não se preocupou em discorrer minuciosamente sobre as peculiaridades de cada rótulo e as condições de cada safra, afinal, fica subentendido que entender e descrever o vinho é o papel do degustador.

Assim, enquanto conversávamos, começamos com o branco Rossj-Bass 2010 (R$ 395,94). O rótulo em homenagem à filha Rossana tem como base a Chardonnay (com seis meses de barricas) e tem pequena participação de Sauvignon Blanc. Na prática, há o cítrico e a acidez da Sauvignon Blanc, com as notas de pêra e mel, mais a untuosidade e estrutura da Chardonnay. A barrica aporta mais aroma de amêndoa que de baunilha. Em poucas palavras: fácil, preciso e já se mostra muito bem, ao contrário do vinho seguinte, o Ca’Marcanda Camarcanda 2008 (R$ 651,50). O principal vinho da propriedade de Bolgheri segue a receita típica dos vinhos da margem direita de Bordeaux (50% Merlot, 40% Cabernet Sauvignon e 10% Cabernet Franc) e pede alguns anos de garrafa para equacionar sua alta frequência. Há intensidade no aroma (frutas negras maduras, baunilha, tosta e tomilho), nos taninos finíssimos, acidez e estrutura. Basta apenas o tempo cumprir seu papel. Com mais um contraponto, a degustação prosseguiu com o Pieve Santa Restituta Brunello di Montalcino Sugarille 2000 (R$ 754,55). A expressão mais austera de um único vinhedo da propriedade está entrando na sua maturidade. O típico aroma de cereja da Sangiovese ganha companhia do couro, alcaçuz, tostados e baunilha. Os taninos começaram a amaciar e a acidez deve garantir mais alguns anos de evolução. Para fechar o painel provamos o Barbaresco 2008 (R$ 1.096,90). Esta é a carta de apresentação de Gaja, a principal referência do extenso portfólio de vinhos. Neste Barbaresco fica evidente o encontro entre força e elegância. A cor delicada da Nebbiolo, com aromas sutis de flores e folhas secas, fruta vermelha fresca e musgo se fundem com os taninos muito finos e intensos e a estrutura dada pelos 14,5% de álcool (perfeitamente integrado). A escolha do Barbaresco como último vinho foi útil para resumir o estilo dos vinhos de Gaja. São vinhos que se destacam pela pureza e definição. Em vez de buscar força e potência, preferem a precisão e o equilíbrio.

*Todos os vinhos de Gaja são importados pela Mistral.

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