Paladar

‘Vadio’ é novo nome na Bairrada

10 novembro 2014 | 19:14 por Marcel Miwa

Por Guilherme Velloso

Os dicionários definem “vadio” como alguém que não tem ocupação ou trabalho, que não faz nada. Luís Patrão certamente não se enquadra nessa definição. Um dos enólogos da poderosa Herdade do Esporão, no Alentejo, em 2005 ele decidiu fazer seu próprio vinho na casa dos pais, na vizinha Bairrada, onde nasceu.

Até então, o meio hectare de vinhas velhas plantado na propriedade fornecia uvas apenas para o vinho consumido pela família e pelos amigos. Investir num projeto comercial, inclusive comprando terras (hoje são 4,5 hectares) e uvas de terceiros para viabilizar a produção, significou freqüentes deslocamentos entre as duas regiões (num país pequeno como Portugal a distância não chega a ser um problema); e trabalho dobrado para conciliar duas agendas vinícolas às vezes conflitantes.

Assim, dar o nome “Vadio” aos vinhos que produz na Bairrada (o primeiro, da safra 2005, foi lançado em 2009) soa quase irônico. Mas a razão foi outra, como explicou a pernambucana Eduarda Dias, mulher de Patrão, em recente visita ao Brasil para promover os vinhos do casal. Por ser um enólogo jovem e por se tratar de um projeto que começou praticamente nos finais de semana, ele queria um nome menos formal. Por isso, não quis usar “Herdade” ou “Quinta” no rótulo, nomes em geral associados a produtores mais tradicionais.


A família de vinhos Vadio

Outra decisão de Patrão foi trabalhar apenas com castas autóctones de Portugal e da Bairrada: Bical e Cercial, para os brancos; Baga para os tintos. Dos rótulos já a venda no Brasil (importados pela Épice, empresa da qual a família de Eduarda é sócia), o Vadio Branco 2013, um corte de Cercial e Bical (20%) surpreende pela ótima acidez e frescor e pela deliciosa palheta aromática (pera/damasco e uma suave nota que lembra musgo, sobre um fundo mineral).

Na “minivertical” do Vadio tinto (100% Baga, cerca de R$ 130), o 2009 se mostrou mais potente, o 2011, mais elegante. Mas todos (também foram provados o 2005 e o 2007) confirmaram o potencial dessa casta difícil (se não for bem trabalhada produz vinhos com alta acidez e taninos rústicos), que, nos melhores exemplares, costuma ser comparada a Nebbiolo, matriz dos grandes tintos do Piemonte.

A vinícola produz ainda um ótimo espumante (corte de Bical, Cercial e Baga) e o Grande Vadio (um Baga de pequena produção), que em breve devem estar disponíveis no mercado brasileiro. Também está nos planos fazer um Vadio rosé a base de Baga.

Para tocar o projeto, Patrão conta com a ajuda do pai e de Eduarda, já que a maior parte de seu tempo é dedicada ao Esporão. Foi lá, aliás, que ele conheceu a futura mulher. Ela acompanhava o pai numa visita a vinícola, cujos vinhos são distribuídos pela Épice na região nordeste. Na época, Eduarda pretendia estudar Política (“queria ser Presidente”, diz ela), o que acabou fazendo, só que em Portugal. Hoje, além de trabalhar com o marido, sobretudo na promoção dos vinhos que produzem, ela também participa com ele do The Young Winemakers of Portugal, como o nome indica um grupo de jovens produtores, inspirado talvez no sucesso dos Douro Boys. Eduarda brinca que é a babysitter do grupo.

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