Paladar

Ancellotta

22 fevereiro 2007 | 00:55 por Jamil Chade

O otimismo é lindo, mesmo quando desafia a lógica. É difícil acreditar que uma uva pouco conhecida e sem prestígio em sua origem possa se revelar excelente quando transplantada para outro local.

Talvez alguns esperem a repetição do caso da Malbec, que não é lá essas coisas em sua origem, Sudoeste da França e que se revelou soberba na Argentina. Além disso, a Malbec tem também suas qualidades na origem. Há ainda o caso da Alicante Bouchet, que é fraca na França e brilha no Alentejo.

Milagres existem, mas são raros. Vários produtores brasileiros parecem acreditar neles e estão apostando na Ancellotta, que desempenha papel secundário na elaboração do Lambrusco na Emilia-Romagna.

Quatro tintos feitos com essa uva entraram numa degustação informal de um grupo de amigos e não entusiasmaram. As observações de Amarante, Clóvis e Bebel, conhecedores dos vinhos, coincidiram com as minhas.

Em alguns casos, aromas agradáveis, mas fracos, duros e rústicos na boca. Apenas bons o Casa Perini Ancellotta 2005 (83/100 pontos, com bom aroma, porém rústico e duro na boca) e Marson Ancellotta 2003 (pouco aroma, igualmente duro e ressecante na boca, 82/100 pontos). O Dal Pizzol Ancellotta 2004 e o Dom Laurindo Ancellotta 2004 ficaram abaixo.

A Ancellotta pode não entusiasmar como solista, mas poderá desempenhar um bom papel em cortes no Rio Grande do Sul. Como ressaltam autores europeus, ela é prezada sobretudo pela cor intensa que dá aos vinhos. E a intensidade de cor não está entre as principais virtudes do vinho da Serra Gaúcha.

Na mesma degustação de tintos nacionais feitos com uvas italianas pouco conhecidas, o melhorzinho foi um Teroldego da linha Séries, da Salton (85/100 pontos). Essa uva é do Norte da Itália, onde entra nos tintos da zona do Trentino, sobretudo na planície de Rotagliano.

Depois da degustação, para acompanhar o almoço na muito boa churrascaria North Grill, no Shopping Frei Caneca, pedimos o argentino Terrazas Syrah 2004 (R$ 37), que estava ótimo (89/100 pontos).

Aroma complexo, misturando cacau com menta e muito macio na boca. Um vinho de Mendoza, Argentina, feito com uvas de um vinhedo que fica a 800 metros acima do nível do mar, segundo o rótulo.

Ficou com água na boca?