Paladar

Angelo Gaja

15 janeiro 2008 | 23:50 por Jamil Chade

Angelo Gaja é um fenômeno. Ele consegue fazer vinhos extraordinários no Piemonte e ainda consegue vendê-los, sem grandes problemas, a preços igualmente extraordinários (o Sori Tildin 2001 custa 589 dólares na importadora Mistral). Um produtor caprichoso, atento aos detalhes, que não faz concessões e que, ainda por cima é um astro nas relações públicas.

Ele esteve recentemente em São Paulo, repetindo seu discurso inteligente, no qual faz paralelos entre os seus vinhos e os do Novo Mundo. Segundo ele, seus produtos fazem lembrar Marcelo Mastroianni, civilizados, cheio de sutilezas, enquanto os do Novo Mundo evocam John Wayne. Um jeito inteligente de puxar a sardinha para sua brasa, sem ofender a concorrência. Afinal John Wayne pode passar uma imagem mais rude, até truculenta, mas é sempre John Wayne, um ídolo.

Recentemente bebi três grandes vinhos de Gaja, que mostraram que a imagem do produtor é inteligente, mas muito relativa. De fato o Barolo Dagromis 2003 tinha a sutileza de um Marcello Mastroainni. Já o Darmagi 1999 evocou mais um western de John Wayne, enquanto o maravilhoso Sori Tildin 1991, um dos melhores tintos que provei nos últimos tempos, ficou entre os dois.

O Barolo Dagromis 2003 deve ser um novo produto de Gaja e foi provado no restaurante Piselli com Elaine e Reinaldo Hossepian, que o trouxeram da Itália.

Um vinho espetacular, que consegue ser potente, encorpado, concentrado e elegante. Não é um arrasa quarteirão, apesar de seus 14% de álcool. Aliás, o álcool aparece muito pouco, bem equilibrado com os demais elementos. Cor não muito concentrada, o que é normal nos originários da uva Nebbiolo. Aroma potente, com notas florais (violeta). Equilibrado, potente e com ótima acidez. Nada enjoativo. Chega a ser elegante. Um vinho Marcello Mastroianni, potente mas elegante.

O Gaja Sori Tildin 2001 foi provado no restaurante D.O.M. e mostrou um aroma excelente, complexo, com os toques florais típicos dos Nebbiolos. A madeira aparece ao fundo. Equilibrado, potente, sem ser alcoólico ou agressivo a ponto de sacar um Colt 45. John Wayne com um pouco de Marcello Mastroianni (ou o contrário, uma maravilha, 94/100 pontos). Gaja deixou de chamá-lo de Barbaresco. Hoje, embora seja feito na zona e com a uva do Barbaresco, ele se chama “Sori Tildin Langhe Nebbbiolo”.

O Gaja Darmagi 1999 é um tinto de exceção, feito basicamente com a Cabernet Sauvignon, o que está longe da tradição do Piemonte. Quanto Angelo Gaja plantou essa uva, seu pai, mais tradicionalista, exclamou: “darmagi”, o que vale dizer “que pecado”. Para ele, a zona do Barbaresco deveria ser reservada apenas à Nebbiolo. O tempo deu razão aos dois.

A Nebbiolo é mesmo espetacular na região, mas este Cabernet Sauvignon também é excelente e solapa um pouco o discurso de Angelo Gaja. Um tinto potente, tânico, concentrado, marcado pela madeira, evocando um John Wayne sensível, dos melhores tempos, que podia ser, ao mesmo tempo, duro e sensível, como o seu personagem no clássico “Rastros de ódio”, que no final acolhe carinhosamente a sua sobrinha, Natalie Wood, que havia sido seqüestrada em menina pelos apaches e que ele havia raivosamente perseguido durante todo o filme (92/100 pontos).