Paladar

Bodega Chacra – Patagônia, Argentina

24 março 2009 | 12:31 por Jamil Chade

Os vinhos da Argentina Bodega Chacra, da Patagônia, são os melhores feitos com a Pinot Noir na América do Sul que já provei, especialmente o Chacra Cincuenta y Cinco 2007. Vinhos elegantes, que remetem à Bourgogne, ou melhor a bons tintos de produtores e vinhedos de primeira dessa região.

Provei os vinhos na carona de uma boa entrevista com seu produtor, o italiano Piero Incisa della Rochetta feita pelo estimado amigo Luiz Horta. A entrevista e as minhas anotações foram publicadas na edição de 19 de março do Paladar, do Estadão. Piero vem de famílias ilustres no mundo do vinho. A de seu pai criou nada menos que o Sassicaia, um “Bordeaux” made in Italy (Cabernet Sauvignon e Merlot), que é um dos melhores tintos da Itália e do mundo. Por parte da mãe, vinhedos na Úmbria.

Piero conheceu o Pinot Noir argentino por intermédio de sua prima, a condessa Noemia Cinzano, que tem vinhedos na zona de Rio Negro, na Patagônia, Argentina, onde faz excelentes tintos basicamente com a Malbec (Noemia e J.Alberto). Piero pensou que fosse um Bourgogne. Sua surpresa foi total quando a prima lhe disse que ele vinha da Patagônia, de um vinhedo perto do seu, na tradicional zona de Rio Negro. Piero conseguiu comprar o vinhedo plantado com a caprichosa e mais do que difícil uva Pinot Noir, que cultiva usando métodos biodinâmicos. Não usa adubos e inseticidas químicos e pauta as atividades do vinhedo e da adega (colheita, engarrafamento, etc) pelas posições dos astros.

Conseqüentemente, colheitas baixíssimas que favorecem qualidade final. Pouca intervenção da técnica e o mínimo de produtos químicos na adega. Nada de clarificação ou filtração, por exemplo.

Os vinhos são importados pela Expand (3847-4747).

O Bodega Chacra Barda 2007 é o mais simples, que pode ser provado já, mas ainda está um pouco rústico. Bonito, rubi claro, típico da Pinot Noir. Pode e deve evoluir um pouco na garrafa. Feito com uvas de vinhedos mais novos e com vinhos de barricas que não chegaram ao nível para entrar nos mais caros e caprichados. O aroma impressionou muito. Intenso, com muitas frutas, lembrando a Bourgone (89/100 pontos). Percebia-se um pouco do álcool no aroma e na boca. Um vinho potente, com 14 graus. Melhorou com o tempo no copo, indicando que ficaria melhor se fosse decantado, passado para uma jarra, com bastante antecedência. Primeira impressão na boca excelente, com muita fruta, redondo. Mas depois foi ficando um pouco rústico, alcoólico e meio tânico. Sem dúvida, um ótimo vinho. Ligeiríssimo amargor ao final, mas ficou na boca sensação gostosa. Preço: R$ 130.

Bodega Chacra Cincuenta y Cinco 2007
Vinhas velhas dão um vinho redondo, gostoso e com muito charme (93 pontos sobre 100 e 13 graus de álcool). O nome remete ao ano de plantação das vinhas. Também bonito, com cor típica da Pinot. O que eu escolheria para um belo jantar no mesmo dia. Aroma potente, espetacular, com muita fruta e complexo. As nuances iam mudando conforme ele evoluía no copo. O tipo do vinho elegante, macio, sedoso e longo. Ao mesmo tempo, elegante e encorpado, o que não é fácil. Preço: R$ 180.

Bodega Chacra Trinta y Dos 2007
Um tinto bonito, rubi claro, com aroma mais do que espetacular, mas ainda pedindo tempo na garrafa (12,5 graus de álcool). As videiras foram plantadas em 1932. Aroma mais do que complexo e potente. Evocações de frutas convivem com lembranças florais. Sugestões longínquas de alguma coisa de tostado, talvez carvalho das barricas nas quais repousou. Na boca, ótimo, mas austero, não tão alegre e evidente como o Chacra 55. Começou maravilhosamente na boca, mas depois caiu um pouco. Meio ressecante e tânico (92/100 pontos). O tempo deve cuidar disso. Preço: R$ 420.

PINOT NOIR DO CHILE

Ventisquero Queulat 2007
Mais recentemente, num jantar no novo restaurante de Sérgio Arno, o Franciacorta, provei um outro Pinot Noir da América do Sul de alto nível, o Ventisquero Queulat 2007, do Valle de Casablanca, Chile. Quase no mesmo nível dos melhores argentinos da Patagônia com aroma potente, equilibrando madeira e frutas. Macio, redondo e muito longo (90/100 pontos). Feito à moda tradicional da Bourgogne, com “pigeage” (pisa com o pé) e estágio de 12 meses em barricas de carvalho francês. Potente (14,9 graus), mas o álcool não apareceu tanto. Importado pela Cantu (Televendas: 0300-210-10-10).

Ficou com água na boca?