Paladar

Madame Bize-Leroy – Domaine Leroy

Madame Bize-Leroy – Domaine Leroy

14 março 2007 | 20:11 por Jamil Chade

Saul - vinhos Domaine Leroy

Lalou Bize-Leroy, uma das figuras mais importantes do mundo do vinho, esteve em São Paulo para comandar degustações de alguns de seus tintos e brancos e também expor as suas idéias sobre o vinho. Ela foi diretora do célebre Domaine de La Romanée-Conti, do qual se afastou em 1989 para fundar o Domaine Leroy, célebre pela qualidade e preços de seus produtos de várias zonas da Bourgogne-9 grands crus, oito premiers crus e oito de denominações comunais (village).

A Bourgogne é dividida em muitas comunas (Pommard, Volnay, Gevrey-Chambertin, etc) onde ficam os vinhedos, alguns classificados oficialmente como premiers crus (a elite) e grands crus (a elite da elite). Há ainda a firma de negociante Leroy S/A, que compra vinhos, que trabalha e depois vende com sua etiqueta. Há uma considerável diferença de qualidade (e de preço) entre as duas linhas (Domaine Leroy e Leroy S/A).

Madame Bize-Leroy é uma figura lendária, cuja figura aparentemente frágil contrasta com o vigor e a obstinação com que expõe suas idéias e opiniões firmes, algumas polêmicas, que segue na prática. Ela faz o que prega. Em 1988 aderiu totalmente à agricultura biodinâmica, que dispensa adubos químicos, inseticidas, pesticidas e segue as influências dos astros.

Uma escola baseada nos ensinamentos de Rudolph Steiner, que tem muito a ver com a homeopática. As intervenções nos vinhedos são feitas de acordo com um calendário que leva em conta as conjunções dos astros, como as fases da lua, a posição das estrelas e assim por diante.

É muito difícil afirmar que tais técnicas funcionam, mas costumam ser mais caprichosos os vinhateiros que deixam de lado os sistemas mais fáceis e adotam técnicas muito mais trabalhosas. A adesão de alguns pesos pesados à biodinâmica funciona como um aval à essa tendência.

Entre outros, são “biodinâmicos, além da Madame Bize-Leroy, o produtor do Coulée de Serrants, no Vale do Loire, Nicolas Joly, o grande apóstolo dessa idéia, Marcel Deiss, Zind-Humbrecht, Domaine Faiveley, Domaine de Villaine, Domaine Trapet e Michel Lafarge.

Quem aceita essas técnicas renuncia também às colheitas fartas. Madame Bize-Leroy diz que os rendimentos dos vinhedos do Domaine ficam em torno ou muito abaixo dos 19 hectolitros por hectare. Para se ter uma idéia, o mínimo legal da região de Bordeaux é de 55 hectolitros por hectare. Segundo ela, em alguns vinhedos um pé de uva gera apenas uma garrafa de vinho, o que ajuda a justificar os preços altíssimos.

Na Bourgogne, todos os tintos são feitos com a Pinot Noir e os brancos com a Chardonnay, mas ela sequer gosta de falar de cepas. Para ela, o vinho é a continuação da terra, das uvas que lhe deu Ela diz que não faz e vende um Chardonnay, mas sim um Meursault, um Puligny-Montrachet e assim por diante.

São as vinhas e não as técnicas na adega (winemaking), que merecem toda a sua atenção. Ela conhece muito bem suas vinhas e diz que elas são caprichosas. ‘Mais você as mima, mais elas demandam’.

A Grand Vin (Rua do Bananal, 1301, tel. 3672- 7133 e Av. Faria Lima, 4433, tel 3045-9888), que representa esses vinhos no Brasil, organizou uma degustação memorável no Grand Hyatt com vinhos especiais, poucos dos quais disponíveis atualmente.

Corton Charlemagne Grand Cru 2003 (um portento, floral, longo, macio e com longa vida pela frente); Bourgogne Leroy 1997 (um genérico, que foi a grande surpresa pois ainda está em grande forma com quase dez anos); Chassagne Montrachet Morgeot Premier Cru 1997 e Domaine d´Auvenay Puligny-Montrachet em La Richard Premier Cru 2004 (ainda novo, com todo vigor da juventude), foram os brancos.

Entre os tintos, só destoou o Bourgogne genérico 1999. Ótimos: o Savigny Lês Beune Les Guettes Premier Cru 1998; Pommard Les Vignots 1987, Corton Renardes Grand Cru1967 e Gevrey Charbertin Lês Casetiers 1957. Magníficos o Pommard Premier Cru Les Vignots 1997, o Corton Renardes Grand Cru 1997 e Gevrey Chambertin Les Combottes Premier Cru 1997.

Amanhã contarei neste blog o almoço que tive com Madame Bize-Leroy, domingo passado, na Grand Vin.