Paladar

Merlot Nacional

30 março 2008 | 17:18 por Jamil Chade

* Matéria escrita na coluna Tintos e Brancos publicada na coluna Paladar, em fevereiro de 2008.

Voltamos à Merlot, que está se revelando a melhor uva tinta da Serra Gaúcha. Esse negócio de eleger um vinho ou uma uva como “melhor” é muito perigoso, mas se pode dizer tranqüilamente que a Merlot está dando ótimos tintos, alguns dos quais com preços realmente atraentes, competitivos. Desta vez, deixamos de lado os que considero os dois melhores tintos do pais, o Terroir Merlot da Miolo e o Salton Desejo Merlot, que são mesmo ótimos. Desta vez, provamos tintos muito bons, prazerosos. Além dos quatro selecionados para a coluna, é de justiça destacar também o Lovara 2005, um tinto redondo, com toques justos de carvalho e fácil de beber.

A Merlot teoricamente é mais macia e bem comportada que a Cabernet Sauvignon, ainda a tinta fina mais plantada no Brasil (34.242.635 quilos segundo dados de 2006). A Merlot produziu bem menos, 12.242.635 quilos, mas vem conquistando conhecedores e enólogos. O francês Michel Rolland, um dos mais conhecidos enólogos do mundo e que dá assistência técnica à Miolo, não tem dúvidas de que a Merlot é o grande destaque da Serra Gaúcha. O argentino Angel Mendoza, que presta assessoria à Salton e Lucindo Copat, enólogo chefe da empresa, também estão entusiasmados com essa uva.

A Merlot costuma dar vinhos que não demandam muito tempo para chegar ao auge. Todos os vinhos que agradaram são da ótima safra de 2005, quando choveu pouco e tudo favoreceu a maturação das uvas. E eles estão mais do que no ponto para beber. Tive ainda a impressão que evoluíram em relação à provas anteriores.

Os Merlots nacionais além de gostosos são também versáteis à mesa. Vão muito bem carnes vermelhas e brancas (porco e vitela), aves em geral, terrinas, etc. Entre os tintos, o que complica um pouco a combinação são os taninos, uma substância que dá a impressão de amarrar a boca, como algumas frutas verdes. A Cabernet Sauvignon é consideravelmente mais tânica. Os feitos com a Merlot têm pouco tanino, são mais macios e se acomodam com mais pratos à mesa. Gosto particularmente com um lombo de porco, que tem algo de doce e se acomoda otimamente com a maciez da Melot.

Salton Classic Merlot 2005
Onde encontrar: Empório Frei Caneca, Shopping Frei Caneca, 3472-2082.
Preço: R$ 9,90 (OFERTA ESPECIAL)
Cotação: 87/100.

Provado para a coluna Tintos e Brancos do suplemento Paladar e publicada em fevereiro de 2008.

Um tinto de maravilhosa relação custo-benefício. A linha básica da Salton, que está fazendo bons vinhos em vários níveis. Esta é uma ótima opção para o dia-a-dia. Aroma não dos mais potentes, mas agradável. Evocações de frutas vermelhas e também algo animal. Dominam as frutas. Um vinho amável, equilibrado. Leve, mas não aguado. Também na boca, as frutas prevalecem. Aparecem sugestões de madeira na boca. Está no auge, pode e deve ser provado já. A safra de 2005 foi ótima na Serra Gaúcha. Não é encorpado e nem concentrado, mas elegante, nada tânico e bom também para bebericar. Acidez gostosa, que convida para o próximo gole. Equilibrado, com álcool muito bom comportado. Um tinto simples, macio, Final de boca agradável. Retrogosto não é longo e nem potente, mas deixa a boca gostosa. 12 % de álcool.

Reserva Miolo Merlot 2005
Onde encontrar: Televendas Miolo: 0800-970-4165.
Preço: R$ 114 (caixa com seis, o que dá R$% 19 por garrafa).
Cotação; 89/100

Provado para a coluna Tintos e Brancos do suplemento Paladar e publicada em fevereiro de 2008.

Confirmou a classe. O exemplar da ótima safra de 2005 está muito bom mesmo, no ponto para ser provado com muita satisfação, principalmente dos que gostam de vinhos marcados pelo carvalho, provavelmente norte-americano. Evocações de baunilha e de coco, típicos dessa madeira são bem sensíveis. Mas ela não domina demais, deixa espaço para as frutas. Um vinho que melhorou nos últimos meses. Muito gostoso, redondo e com boa concentração na boca. Potente, mas não alcoólico. O tipo de vinho que enche a boca. Algo de especiarias (canela). Muito equilibrado e elegante. Ele é do Vale dos Vinhedos, a primeira zona de Indicação Geográfica típica, que poderá ser o embrião de um sistema de denominação controlada. Redondo e com um final bem gostoso, onde se notam, mais uma vez, baunilha e coco. Ótima relação qualidade-preço.13,5% de álcool.

Salton Volpi 2005
Onde encontrar: Empório Frei Caneca, Shopping Frei Caneca, 3472-2082.
Preço: R$ 21,50.
Cotação: 89/100.

Provado para a coluna Tintos e Brancos do suplemento Paladar e publicada em fevereiro de 2008.

Outro vinho de muito bom nível e com preço atraente. Também da excelente safra de 2005 e mais do que pronto para o copo. Não deve ganhar com mais tempo na garrafa.
Uma linha de elite da Salton, com mais estágio em barricas de carvalho, que aparece nitidamente no aroma e na boca. Toques de chocolate e também de frutas vermelhas (framboesa, cereja). Aroma muito gostoso mesmo, mas não dos mais intensos. Continua no mesmo diapasão na boca. Primeira impressão na boca agradável, “doce”. Continuam aparecendo as frutas e os toques tostados e de chocolate. O carvalho aparece na medida certa, sem dominar as frutas. Um tinto elegante, versátil, sedoso e com pouco tanino. Eclético, fácil de combinar com muitos pratos. Corpo médio e álcool muito bem comportado, equilibrado. Um tinto longo, que deixa gosto de fruta na boca 12,2% de álcool.

Luiz Argenta Merlot Gran Reserva 2005
Onde encontrar: Casa Flora, Rua Santa Rosa, 207, Brás, 3327-5199.
Preço: R$ 62,54
Cotação: 90/100.

Provado para a coluna Tintos e Brancos do suplemento Paladar e publicada em fevereiro de 2008.

Um belo vinho, encorpado e com personalidade. Só destoa um pouco no preço. Ele deve ser feito com uvas do antigo vinhedo plantado em Flores da Cunha pela Granja União. Pelo que me lembro, a Granja União tinha um bom Merlot. A família de Luiz Argenta comprou o vinhedo e passou recentemente a fazer bons vinhos com seu nome. Este está na elite dos gerados pela Merlot. Um vinho com muita cor, escurão. Dificilmente deixa passar a luz. Aroma potente e complexo, toques de madeira e de coisas queimadas. A sugestão de ameixa preta em calda é potente. Na boca, redondo, macio. Toques de cacau, de caramelo e de coisas tostadas. Concentrado, encorpado e elegante. Potente, mas o álcool não aparece demais. Macio e nada enjoativo. Acidez muito gostosa. Final de boca muito bom e duradouro. Evocações de cacau e de ameixa preta. 13,8% de álcool.