Paladar

Oi nóis aqui outra veiz (d´aprés Demônios da Garoa)

Oi nóis aqui outra veiz (d´aprés Demônios da Garoa)

04 outubro 2007 | 17:37 por Jamil Chade

Parte I

O ruim das férias e que elas acabam muito rapidamente. E o processo de retorno à realidade sempre é difícil. Em todo caso, quase sempre ficam boas lembranças, como as da visita à Joseph Drouhin, em Beaune a linda capital da Bourgogne vinícola, que culminou com a degustação de um Le Montrachet Marquis de Laguiche 2000, talvez o melhor branco seco do mundo, no vinhedo que lhe deu origem, olhando para a cidadezinha de Puligny.

Provar vinhos nas adegas com os enólogos e outros especialistas é mesmo muito gostoso. Normalmente ajuda a compreender melhor os vinhos. Mas, muitas vezes, visitas às instalações podem ser maçantes. Sobe e desce de escadas, passeios entre fileiras de tanques de aço inoxidáveis, explicações sobre sistemas de controle de temperatura da fermentação e outros aspectos técnicos que se repetem e pouco acrescentam para entender o produto final.

Não foi, nem de longe, o caso dessa deliciosa viagem à Bourgogne, mais do que valorizada pelo nosso “guia”, Geraldo Uhlen, diretor da empresa, grande conhecedor entusiasta dos vinhos e simpaticíssimo.

Mariana e eu fomos recebidos na estação do TGV em Dijon pelo Gerald, que nos fez percorrer alguns dos melhores e mais famosos vinhedos do mundo, como Chambertin, Morey Saint Denis, Clos de Vougeot (com sua magnífica e célebre abadia) e La Romanée-Conti, que gera um dos tintos mais caros do mundo. No começo do outono, os vinhedos começavam a assumir aquela cor mais avermelhada, que também justificaria o nome da região – Côte d´Or.

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Abadia de Clos de Vougeot

A Joseph Drouhin é uma grande empresa, carregada de tradição, que faz vinhos com uvas de seus vinhedos em Chablis, Cote de Nuits e Côte de Beaune e ainda compra uvas e vinhos de alguns agricultores para elaborar os seus produtos mais simples, os genéricos.

vinhedo
Joseph Drouhin

As suas caves, no centro histório de Beaune tem mais de mil anos e ainda conservam alguns vestígios da era gaulesa e romana. Uma cave histórica, mas ainda abriga muitas barricas para maturação dos vinhos. Venerandas garrafas, esbranquiçadas pela pátina do tempo, reforçam as imagens de tradição e antiguidade.

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Instalações históricas

As instalações que fazem os vinhos atualmente, mais modernas, ficam fora da cidade, onde provamos alguns vinhos ainda em processo de fermentação com o enólogo-chefe Jérôme Faure-Brac e alguns tintos e brancos já “prontos e engarrafados”.

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Detalhe do vinho com minhas anotações

Brancos

Chablis Joseph Drouhin 2006
O chablis de base da empresa, que só leva o nome da região (villages). Não é um grand cru ou premier cru. Um belo vinho com aroma potente, gostoso, bem mineral. De acordo com a definição. Bem seco, com ótima acidez, sem estágio em barricas de madeira; (87/100 pontos, 12,5% de álcool).

Pouilly-Fuissé Joseph Drouhin 2006
Outro vinho comunal (villages). Também feito com a uva Chardonnay na região de Mâcon. Aroma gostoso, mas relativamente pouca concentração de sabor. “Amanteigado”. Também não passou pela madeira. Sem o frescor do Chablis (86/100 pontos, 13% de álcool). Segundo Gerald Uhlen 2006 foi um grande ano para os brancos.

Puligny-Montrachet Joseph Drouhin 2006
Mais um village, mais um vinho comunal. A comuna de Puligny-Montrachet é mesmo muito especial (Puligny é o nome da cidadezinha e Montrachet o seu principal vinhedo,) Mas já mudamos de categoria, equilibrado, concentrado, potente. Aparece a madeira sem exagero, muito bem casada com a fruta. Segundo Gerald, dificilmente a Drouhin usa mais do que 30% de madeira nova. Em todo caso, coco apareceu no aroma e, principalmente, no final (89 pontos).

Clos des Mouches Joseph Drouhin branco 2006
Um grande branco, em todos os sentidos. Um premier cru das Côtes de Beaune. O melhor branco provado em todas as férias (sem contaro Montrachet). Evidentes toques de queimado, que achei que vinha da madeira tostada das barricas, mas que Gerald disse ser característica do terroir. Seja como for, um vinho espetacular, equilibrado, com esse agradável toque de queimado, mas fresco e excitante (93/100 pontos, 13,5% de álcool). Retrogosto espetacular.

Amanhã contarei aos amigos do Blog os vinhos tintos que provei e sobre o almoço no Le Bistrot du Bord de l´Eau.