Paladar

Os Vinhos do Madrid Fusión

16 março 2009 | 18:55 por Jamil Chade

No Madrid Fusión, um mega-evento de gastronomia que aconteceu em janeiro, a seleção das conferências e degustações para comparecer era sempre a parte mais difícil. Seria impossível participar dos principais eventos. Na verdade, era angustiante ter de escolher algumas atividades deixando outras de grande interesse de lado. Nem na melhor de minha forma, que estava longe de ser o caso, eu conseguiria estar presente a três ou quatro eventos por dia.

Assim, depois de examinar os programas, decidi ficar com os vinhos, participando das degustações mais do que interessantes de brancos feitos com a uva Albariño, de tintos de Ribera Del Duero, de produtos de “grandes pagos” da Espanha, de Riojas não muito caros e de produtos inovativos de regiões mais do que tradicionais.

Essas degustações e palestras foram muito bem organizadas pelo Instituto de Comércio Externo (ICEX).

VINHOS – A NOVA ESPANHA

O vinho da Espanha está tão irriquieto quanto a sua cozinha, hoje a mais ousada e comentada do mundo. É impressionante constatar como o velho convive com o novo nos tintos, brancos, rosados do país. Até pouco tempo, o que tínhamos era o marasmo, a produção em alta escala e a elaboração de vinhos como faziam os pais, os avôs bisavôs dos vinhateiros. Hoje, “pipocam” novas regiões e mesmo nas denominações mais tradicionais, como Rioja, são muitos os vinhos “modernos”, que aproveitam a tradição no bom sentido e procuram novos caminhos”. A cada dia aparecem produtores com idéias novas, dispostos a sacudir as teias de aranha

Esse mundo em constante transição ficou patente numa das melhores degustações do Madrid Fusión: “La Espana Innovadora: viñas viejas, vinos nuevos”, que colocou na roda tintos e brancos muito bem feitos, alguns de regiões e denominações tradicionais, como Rias Baixas, Ribera del Duero, Rioja, Jerez, Priorato, Bierzo e Toro. Entre esses, os dois grandes destaques,na minha opinião, foram um Jerez Pedro Ximenez (La Bota de Pedro Jimenez) e um Rioja (Maria Remírez de Ganuza Reserva 2003).

La Bota de Pedro Ximenes 1/12 nº 11 Jerez

São muitos os tipos de vinhos feitos na região quente de Jerez, na Andaluzia Os do tipo Fino ou Manzanilla, são os mais conhecidos, secos, um dos melhores aperitivos do mundo. Os derivados da uva Pedro Ximenez, ou simplesmente PX, são os mais doces. Vinhos dulcíssimos, alguns até meio enjoativos.

Este La Bota de Pedro Ximenes 1/12 nº 11 foi um dos melhores, talvez o melhor desse tipo que provei. Ele foi “selecionado” por um grupo de conhecedores que “mariscam” a região em busca de preciosidades. Foram feitas apenas 1400 garrafas, que ficaram principalmente entre os membros da Equipo Navajas, que faz as pesquisas. Cor de iodo, amarronzado, equilibradíssimo, com pouco álcool (10,5% de álcool).

Aroma e gosto lembrando impressionantemente uma rapadura. Para tomar em pequenas quantidades, pois é mesmo doce. O tipo de vinho longo, que se recusava a deixar a boca e que foi, muito sabiamente, servido no final da degustação. Difícil avaliar, mas me pareceu um vinho para 94 pontos sobre 100 possíveis.

Maria Remírez de Ganuza 2003

Um Rioja Reserva espetacular, um dos melhores exemplos dos vinhos modernos da região. Tradicionalmente, os grandes Riojas repousavam durante muito tempo em barricas de carvalho americano, que marcavam bastante os vinhos, muitas vezes exageradamente. Os modernos não passam tanto tempo nas barricas, não têm tanto gosto de baunilha como os tradicionais. Eles costumam ser mais concentrados. A propósito, adoro também um bom Rioja tradicional.

Este Maria Remirez de Ganuza se mostrou potente com um toque de madeira na medida certa. Encorpado e longo. Ficou na boca uma sensação deliciosa. Na elite da elite da região (93/100 pontos). Preço aproximado: 120 euros.

A vinícola Fernando Remirez Remirez de Ganuza é uma das melhores que tenho encontrado. Ainda nesta viagem, provei no Rubaiyat Madrid o Trasnocho do mesmo produtor, que achei uma delícia e que marcou a viagem.

Louro do Bolo 2007

Foi o grande branco da prova (91/100 pontos possíveis, na minha avaliação). Da denominação Valdeorras, na Galícia. Feito por Rafael Palácios exclusivamente com a uva Godello, bastante difundida na região, mas pouco conhecida entre nós. Um branco que demorou para demonstrar seu ótimo aroma e se revelou mesmo na boca. Fermentado em barricas de carvalho, cujo toque aparece na medida certa, não domina demais. Refrescante, com evocações cítricas. Álcool muito bem equilibrado (13,5%) e longo. Preço aproximado: 12 euros. 13,5% de álcool.

Agradaram muito ainda, são grandes vinhos (90 / 100 pontos):

Ferrer Bobet Selecció Especial 2006
Do Priorato, região que vem evoluindo muito, uma das melhores da Espanha. Infelizmente, seus vinhos são mesmo caros. Concentrado, potente e longo. Preço aproximado: 45 euros. 14,5% de álcool.

Viña Pedrosa La Navilla 2005
Ribera del Duero do produtor Pérez Pascua. Um Tempranillo (Tinta Del País), com 24 meses de estágio em tonéis de carvalho. Potente, com muito aroma, elegância e longo. Vinhos do produtor acessíveis no Brasil (Mistral, tel. 3372-3400).Preço aproximado: 29 euros. 14% de álcool.

Alto de Losada 2006
Um tinto de Bierzo, feito com a uva Mencia, que tem suas semelhanças com a Cabernet Franc. Atenção parta a uva e a denominação, que poderão ganhar evidência. A Mencia dá vinhos gostosos, fáceis de beber, aromáticos e elegantes. Este passou 12 meses nas barricas de carvalho, cujo toque pode-se sentir no aroma e na boca. Um vinho redondo, gostoso e longo. Preço aproximado: 20 euros. 14% de álcool.

Pago de los Capellanes Parcela El Nogal 2005
Um Ribera Del Duero feito exclusivamente com a Tempranillo (Tinta Del País). 22 meses em barricas de carvalho. Potente, um pouco tânico. Deve melhorar com o tempo. Madeira e fruta em equilíbrio. Preço aproximado: 35 euros. 14% de álcool.

Raventós i Blanc Gran Reserva de La Finca 2004
Um espumante feito com uvas tradicionais da Catalunha: Xarel-lo (50%); Macabeo (15%) e Perellada (15%) com adição das francesas Chardonnay (10%) e Pinot Noir (5%). Ótima perlage, bem seco e concentrado. A vinícola é relativamente nova (fundada em 1986) e vem se destacando. Há vinhos desse produtor no Brasil. Recentemente me impressionou muito um de seus exemplares, L´Hereo, provado para a coluna Tintos e Brancos, do Paladar. Preço aproximado na Espanha: 14 euros. 12% de álcool.

La Val Crianza sobre Lias 2003
Um Albariño, que continua sendo o branco da moda na Espanha. Alguns alcançam altos níveis, como este. Há exceções, mas não passam pelo carvalho. Muitos estacionam por longos períodos em contato com as borras (lias, restos da fermentação), para aumentar o aroma. Já meio velhinho, mas em plena forma. Com certeza foi estocado com todo capricho, de acordo com as regras. Preço aproximado: 18 euros. 12,4% de álcool.

Condes de Albarei em Rama 2005
Um Albariño de Rias Baixas, na Galícia. 20 meses em contato com as borras. Muito perfumado, redondo, macio. Preço aproximado: 40 euros.

Ficou com água na boca?