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Aventuras lácteas entre o Brasil e a França

Queijo da Canastra ganha etiqueta de caseína para garantir origem e evitar falsificação

Associação de produtores adota selo comestível que vai permitir a rastreabilidade de 246 mil queijos de leite cru certificados já este ano

19 de fevereiro de 2019 | 18h32 por Débora Pereira

Será lançado nesta segunda (19) em São Roque de Minas, na Serra da Canastra, o uso oficial das etiquetas de caseína para identificação dos produtos da Aprocan, Associação dos Produtores de Queijo Canastra.

A ideia é garantir a origem do queijo de leite cru e combater o uso indevido da indicação de procedência “Canastra”. As etiquetas, feitas a partir da proteína do leite (caseína) e tinta alimentar, trazem um número único que permite ao consumidor identificar cada queijo, seu produtor e a data de produção.

A Canastra é a primeira região brasileira a utilizar esse tipo de ferramenta de rastreabilidade. “Nós tentamos até chip de identificação, mas eles não suportam a acidez do queijo, a caseína é naturalmente a melhor solução”, conta João Leite, que nos concedeu essa entrevista por Skype da varanda da sua queijaria Roça da Cidade, em São Roque de Minas.

Já em 2019 a previsão é que 246 mil queijos da Canastra, de 23 produtores, sejam etiquetados – ou seja, tenham sua origem e qualidade garantida.

As etiquetas comestíveis são feitas pelas empresa francesa Matec e importadas e comercializadas no Brasil pela Globalfood. Na Europa, a maioria dos queijos de origem protegida já usam essa tecnologia. O queijo comté é identificado assim há 80 anos. A marca é “colada” no momento de prensar o queijo, antes da salga, e resiste bem ao tempo e ao processo de cura.

 

João Carlos Leite, presidente da Aprocan. FOTO: Hugo Leite/Acervo Pessoal

Como surgiu a ideia de usar as etiquetas de caseína e qual a finalidade?
João Leite: Surgiu da necessidade de proteger a origem do nosso queijo e combater o uso indevido da indicação de procedência “Canastra” diante da grande falsificação. Sempre encontramos no comércio queijos com nome “região da Canastra” que são feitos em outros lugares. Com a etiqueta, vamos dar identidade aos queijos produzidos por nossos associados, rastrear os produtos através da sequência numérica, pois cada queijo tem um número exclusivo. Isso possibilita que o consumidor identifique quem produziu um determinado queijo e saiba quando ele foi produzido. Analisamos várias tecnologias de rastreabilidade no Brasil, mas não encontramos uma que atendesse a necessidade. Recebemos as primeiras etiquetas para teste e percebemos que nos atenderia.

Quantos produtores vão a usar a etiqueta e quantos queijos serão identificados já em 2019 ?
Contamos com 56 associados. Mas, por enquanto, 23 produtores vão usar. O prevista é a comercialização de 246 mil queijos etiquetados até o fim de 2019.

Queijo canastra da Roça da Cidade, queijaria de João Leite. FOTO: Hugo Leite/Acervo Pessoal

Quanto custa a etiqueta por queijo para o produtor associado? Como funciona? Eles compram da associação?
Cada etiqueta custa R$ 1. A Aprocan investiu na compra e vai revender para os associados com uma margem de lucro definida em assembleia geral, pois todos sabem da importância desse retorno financeiro para manter a associação em bom funcionamento e desenvolvendo projetos como este.

A etiqueta deve ser colada no momento de prensar o queijo, antes da salga. FOTO: Hugo Leite/Acervo Pessoal

Como o consumidor vai entender o código numérico do queijo e do produtor?
A sequência tem oito números. Os três primeiros identificam o produtor e os cinco últimos identificam o queijo em si.

Antes a etiqueta tinha uma vaca, agora não tem mais. Como foi a evolução do modelo?
A etiqueta tem o visual pela marca coletiva, que tem uma vaca no meio, mas ela saiu para dar espaço para a indicação de procedência e o código para rastreabilidade. A menção “Região do Queijo” também precisou ser eliminada para dar lugar à expressão “Indicação de Procedência”. Foram três anos de testes, incluindo a adaptação dos produtores para colar a etiqueta no queijo.

A etiqueta de caseína cola no queijo e resiste ao processo de maturação. FOTO: Hugo Leite/Acervo Pessoal

 

Aprocan se inspirou na associação do queijo francês comté

“A Aprocan existe desde que uma comitiva de franceses, incluindo o presidente da Sindicato do Comté, veio aqui na Canastra em 2000. Eles vieram a pedido do ex-secretário de agricultura de Minas Gerais Alysson Paolinelli, com intuito de organizar socialmente os produtores”, conta João Leite. Oficialmente, a Aprocan foi fundada em 2005. A mensalidade para associação custa, hoje, R$ 100 e as reuniões são mensais.

Além da etiqueta de caseína, a associação ajuda os membros na criação do projeto para a queijaria, acompanhando desde a regularização sanitária até a aprovação do rótulo. “Fazemos controle da qualidade dos queijos e estudos de viabilidade de frete e custo do produto final para economizar tempo do associado”, justifica João, “além de promovermos eventos de divulgação do queijo em todo Brasil”.

Através do Sebrae, a associação produziu vídeos dos associados para divulgar a história pessoal e fortalecer o vínculo do terroir com o queijo canastra. “Preferimos divulgar o produtor para que o consumidor estabeleça uma relação de venda direta com ele, assim como também promovemos visitas de grupos às fazendas”, conta ele.

O produtor associado também é acompanhado por um veterinário, o que inclui os exames do rebanho. Como a situação do selo Arte para regularização do queijo artesanal ainda está indefinida, a associação ainda não se decidiu se vai abrir as portas para produtores que não tem a certificação do IMA. Por enquanto, produtores apenas com registro municipal não são aceitos. “Isso está em discussão a cargo da diretoria”, diz João.

O lançamento das etiquetas de caseína será nesta terça, 19 de fevereiro, às 19h, no anfiteatro do Sicoob Saromcredi. O evento faz parte do Projeto do Queijo Artesanal do Sebrae Minas e é aberto ao público.

* Atualizado às 9h de 20/2/18.

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