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Aventuras lácteas entre o Brasil e a França

Coletivo Leite Cru, na França, se prepara para os desafios pós-coronavírus

Grupo, que teme excesso de sanitarismo após a pandemia, planeja criar a fundação para financiar pesquisas sobre os benefícios do leite cru

10 de maio de 2020 | 18h31 por Débora Pereira

Uma das preocupações dos produtores engajados na luta pela defesa dos queijos de leite cru na França tem sido o excesso de sanitarismo, que eles temem que venha a se instalar no mundo após a crise do novo coronavírus.

Último evento do Coletivo Leite Cru, em Paris, em fevereiro. FOTO: Arnaud Sperat Czar/Profession Fromager

 

Queijos de leite cru são alimentos probióticos, que garantem a conexão do sabor com o terroir, são mais típicos e têm mais personalidade. São símbolo da nossa cultura queijeira, agora, mais do que nunca, ficou evidente que precisamos proteger esse patrimônio”, disse Arnaud Sperat Czar, jornalista, autor de vários livros sobre queijos e criador do Coletivo Leite Cru, em 2019. A criação foi motivada após a restrição do leite cru nas escolas para crianças menores de cinco anos na França, em maio de 2019. Menos de 15% da produção total de queijo na França, atualmente, é de leite cru.

O coletivo conseguiu 200.000 euros de doações de empresas privadas e vai criar a Fundação pela Biodiversidade Queijeira. Eles querem financiar pesquisas para comprovar os benefícios dos queijos de leite cru, através de ferramentas como a metagenômica e estudos sociais.

Mesa só de queijos de leite cru, obra do concurso Lyre d’Or, do Salão do Queijo de Paris. FOTO: Arnaud Sperat Czar/Profession Fromager

 

A data prevista para a criação da fundação seria em junho, em Paris, mas, em razão das novas regras de desconfinamento na França, deve ficar para setembro. Os grupos de trabalho por enquanto fazem reuniões à distância. Arnaud publicou recentemente uma carta aos membros pedindo a reflexão sobre esse novo paradigma sanitário que está por vir. Abaixo, a tradução livre da carta do jornalista.

 

“Queridas e queridos colaboradores,

Vocês se lembram de algumas palavras que evocamos na nossa última reunião no Salão do Queijo de Paris em janeiro: ‘Em 30 anos, o mundo vai ser tão hostil que vamos poder passear somente dentro de bolhas para não misturarmos nossas bactérias’. Chegamos lá. A crise do coronavírus nos mostra brutalmente os impasses e as fragilidades do modelo de desenvolvimento atual e nos convida a refletir sobre um novo paradigma.

Essa crise reforça os problemas familiares da cadeia do queijo de leite cru: perda da biodiversidade que nos fragiliza, a desinfecção como única estratégia sanitária, a resistência à adoção de políticas de desenvolvimento rurais duráveis, a falta de uma visão holística. Nós continuamos a dividir a cadeia de produção leiteira em segmentos desconectados e a melhorar e otimizar um conjunto de ferramentas (seleção genética, agrotóxicos, complementos alimentares, desinfetantes…). Todo um sistema que parece impossível de mudar, tamanha a força da inércia.

Nós publicaremos em breve um dossiê na revista Profession Fromager, que conta muito bem a dificuldade de mudar o sistema: uma pequena equipe de pesquisadores do CNRS Travaille trabalha há mais de duas décadas a agroecologia junto a 450 agricultores familiares. Eles constataram que diminuir de 30% a 40% o uso de defensivos agrícolas (herbicidas e pesticidas) não muda nada no rendimento e permite desenvolver a biodiversidade… e aumenta a margem bruta da fazenda em 15%. Mesmo assim, somente 10% de agricultores na França aceitam evoluir suas práticas. As razões são múltiplas: aversão ao risco, resistência de todo um ecossistema socioeconômico, (bancos, fornecedores de complementos, cooperativas, instituições de extensão rural…).

É preciso refletir sobre outros paradigmas, trabalhar de forma a deslizar progressivamente de um sistema a outro, se conectar pouco a pouco com os princípios ancestrais da agroecologia e das ecologias microbianas dirigidas, de maneira realista e pragmática.”

Brasileiros interessados em participar do Coletivo Leite Cru devem escrever para contact@collectiflaitcru.com

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