Paladar

Só queijo

Aventuras lácteas entre o Brasil e a França

Festa folclórica na Suíça celebra o fim da estação dos queijos de montanha

Confira o depoimento da queijeira brasileira que participou da festa como pastora das vacas coroadas com flores e sinos

08 de outubro de 2019 | 21h59 por Débora Pereira

O Désalpe é a mais conhecida festa queijeira tradicional das montanhas da Suíça. Em Charmey, uma pequena vila no Cantão de Friburgo com exatamente 1.646 habitantes, o festejo consiste em celebrar a descida dos rebanhos para os estábulos na planícies.

As vacas descem pelas estradas, que são interditadas para sua passagem. FOTO: André Manso Bittencort/Queijaria Belafazenda

Após mais de quatro meses pastando no alto da montanha, durante o verão, as vacas se recolhem para ficarem protegidas no inverno. Os queijos produzidos nessa época descem no lombo dos burros para serem curados pelo menos até o Natal, quando já terão o sabor desejado para começarem a ser vendidos. Eles têm entre 25 e 40 quilos, de massa prensada cozida em tachos de cobre esquentados a lenha.

A entrada dos rebanhos na cidade é precedida da banda folclórica. FOTO: André Manso Bittencort/Queijaria Belafazenda

Principal evento de Charmey, o Désalpe adquiriu ao longo dos anos uma reputação internacional. É realizado todo último sábado de setembro. Shows folclóricos, desfiles com bandeiras e orquestras campestres dão brilho ao evento, que termina com um mercado artesanal de 40 produtores de queijo na cidade.

Banda dos instrumentos de sopro. FOTO: André Manso Bittencort/Queijaria Belafazenda

 

Uma brasileira pastoreando vacas suíças

Veja abaixo o depoimento da queijeira brasileira Carolina Vilhena Bittencourt, que participou do último Désalpe:

Carolina ao lado das vacas Jersey, mesma raça que ela cria no Brasil. FOTO: André Manso Bittencort/Queijaria Belafazenda

“Chegamos à cidade de Charmey na quinta feira (25 de setembro), início da tarde. Recebemos a indicação de ir comer o melhor fondue da região na fazenda Buvette des Invuettes. Algumas horas depois, estávamos lá conversando com o fazendeiro e queijeiro Gerard, falando do nosso trabalho com vacas Jerseys e queijos de leite cru no Brasil.

Em Charmey há rebanhos de cabras e vacas. FOTO: André Manso Bittencort/Queijaria Belafazenda

Conversa vai e conversa vem, acabamos confessando que adoraríamos ajudar na grande celebração do Désalpe que aconteceria dali dois dias. Para a nossa felicidade, ele concordou e ficou combinado que eu ajudaria com as vacas e André, meu marido, faria a cobertura fotográfica da celebração.

Vaca-deusa coroada. FOTO: André Manso Bittencort/Queijaria Belafazenda

Os dois dias se passaram e pontualmente às 7 da manhã estávamos lá. Eram muitas vacas para enfeitar, dar banho, cortar e acertar a cauda, esfregar as manchas de barro, colocar sinos, chapéus e, por fim, as coroas de flores nas vacas mais velhas e mansas.

Multidão aguardando a passagem dos rebanhos. FOTO: André Manso Bittencort/Queijaria Belafazenda

Cada vaca recebe seu adereço, os sinos são de todos os tipos e tamanho. São instrumentos dos quais os fazendeiros se orgulham, são guardados e passados de pai para filhos. Tem os que foram presente de casamento, de aniversário… Cada sino tem uma história e faz parte da história da família, assim como cada animal é tratado como um membro da família.

Os sinos são passados de geração a geração. FOTO: André Manso Bittencort/Queijaria Belafazenda

Depois de quatro horas todas as vacas estavam prontas. Os sinos tilintando. É encantador o barulho que fazem, é o som da celebração – no dia a dia apenas algumas vacas usam, para que o rebanho possa ser encontrado nos pastos das montanhas. Mas, nesse dia de fest,a cada uma tem o seu. Eles enchem o momento de alegria.

Os queijos são transportados por burros e cavalos. FOTO: André Manso Bittencort/Queijaria Belafazenda

Todos os camponeses se vestiram a caráter, com roupas típicas suíças: mulheres de saia, homens de calças e flores no chapéu. Tudo muito lindo, vacas e vaqueiros prontos, vamos caminhando em direção à estrada.

No caminho, passamos por montanhas e riachos. Os carros param para as vacas desfilarem com seus úberes enormes balançando. Algumas ficam agitadas, mas não as Jerseys, elas se mantêm com uma calma invejável.

A banda de trompa alpina, instrumento usado pelos pastores para se comunicar. Elas têm mais de três metros de comprimento. FOTO: André Manso Bittencort/Queijaria Belafazenda

Chegando à cidade, inesperadamente aparece a primeira moça com uma bandeja na mão, oferecendo o vinho branco local. Com um sorriso de orelha a orelha, ela nos recebe com olhar de gratidão. É o reconhecimento do trabalho feito nos Alpes. O queijo é o grande motor econômico das fazendas locais.

Os produtores de queijo se vestem tipicamente para a ocasião. FOTO: André Manso Bittencort/Queijaria Belafazenda

Esse dia vai ficar guardado pra sempre na minha memória. Eu tocando as vacas Jersey pelas ruas de uma cidadela na Suíça, as lágrimas descendo, sendo recebida com sorriso e vinho branco, celebrando o queijo, fruto do trabalho duro do fazendeiro. Um belo exemplo que me motiva ainda mais a lutar pela valorização do queijo artesanal brasileiro, fruto da nossa terra, do nosso esforço, do nosso Brasil.”

Vacas limpas, penteadas e enfeitadas. FOTO: André Manso Bittencort/Queijaria Belafazenda

 

Tags:

Ficou com água na boca?