Paladar

Só queijo

Aventuras lácteas entre o Brasil e a França

Franceses se organizam para ajudar pequenos produtores na pandemia

Para combater a queda de venda de queijos artesanais é feito um apelo a redes de supermercados e consumidores

13 de abril de 2021 | 10h09 por Débora Pereira

O Centro Nacional Interprofissional da Economia Leiteira – Cniel da França lançou a campanha Fromagissons. A palavra é a junção dos termos fromage (queijo) e agissons (agiremos) e significa algo como “queijagiremos”, ou seja, agir para fortalecer a cadeia do queijo em tempos de pandemia. 

Campanha Fromagissons. FOTO: Cniel/Acervo Público

Além de uma campanha de marketing para motivar os consumidores a comerem mais queijos tradicionais franceses de pequenos produtores (os principais atingidos pela pandemia), o projeto contempla ações como encontrar pontos de venda para queijos DOP e IGP que correm o risco de perder vendas. E também encontrar laticínios para comprar leite, temporariamente, de produtores que estão com estoques muito altos de queijos nas salas de cura, porque não estão conseguindo transformar e vender toda sua produção.

Com essa iniciativa, muitos supermercados começaram a abrir mais espaço em suas prateleiras para vender queijos de pequenos produtores  e assim perenizar um setor da da cadeia do queijo que estava em risco, tendo em vista que no início da pandemia muitos supermercados deram preferência para queijos industriais mais baratos. Carrefour, Intermaché, Casino, Super U e outros aderiram e lançaram uma campanha publicitária motivando seus consumidores a comprarem mais queijo artesanal e de leite cru.

Propaganda da rede Super U. FOTO: Super U/Catálogo

O mais lindo dessas campanhas de publicidade é que elas trazem, como na foto acima, o rosto dos produtores de queijo que o consumidor está “salvando”. Em épocas de desinformação e pandemia, comprar e comer viraram atos ativistas. “Com tanto pequeno produtor passando dificuldades, se você escolhe comprar produtos industriais para abastecer sua geladeira, você também é culpado da desgraça alheia” ressaltou um produtor de queijo francês.

Produção de queijo de leite cru na França

Na Europa, considera-se um queijo de leite cru aquele que o leite não foi aquecido em temperatura superior a 40 ºC, mesmo se a massa for cozida. Na França, um país pouco menor que Minas Gerais, os queijos de leite cru representam 10,5% da produção nacional total de queijos. Segundo o infográfico abaixo, publicado pelo Cnaol no final de 2020, percebe-se que a produção é concentrada nos queijos de denominação de origem: 3⁄4 dos queijos de leite cru da França são DOP ou IGP. E também concentrada nos laticínios, e não nas pequenas queijaria da fazenda.

Gráfico do Cnaol, tradução Débora Pereira.

No Brasil, não temos dados tão precisos. No entanto, as poucas iniciativas dão notícias alarmantes da queda do número de fazendas produzindo queijo artesanal de leite cru.

Para o consumidor francês, queijos de leite cru têm uma ótima imagem e esse é um critério para escolher um queijo. Os motivos são que as bactérias nativas do leite cru propiciam o desenvolvimento de aromas e sabores mais intensos e complexos e colaboram para fortalecer a flora microbiana do intestino e nossa imunidade, argumento muito convincente em tempos de pandemia.

 

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