Paladar

Só queijo

Aventuras lácteas entre o Brasil e a França

Mais de 3 mil queijos e muitos galardões no maior concurso de queijos do mundo

O grande vencedor deste ano do World Cheese Awards foi um norueguês. O brasileiro Azul de Minas, um tipo gorgonzola cremoso, está entre os premiados

08 novembro 2018 | 19:14 por Débora Pereira

Fanaost, um gouda envelhecido produzido pelo norueguês Jørn Hafslund de Ostegården, ganhou o título de Campeão Mundial de Queijo no 31º World Cheese Awards em Bergen, Noruega.

Feito a partir do leite de um rebanho de 12 vacas em uma fazenda a menos de 20 km de Bergen, o Fanaost deixou para trás todos os 3.472 queijos (um recorde) que foram avaliados em um único dia, 2 de novembro.

Fanaost, gouda envelhecido feito por Jørn Hafslund de Ostegården, Noruega. FOTO: Débora Pereira/Profession Fromager

“Eu não consigo encontrar as palavras. O nosso pequeno rebanho dá um excelente leite para o nosso Fanaost, inspirado nos queijos holandeses, que produzimos há 12 anos. O produtores de queijo em nosso país são gentis uns com os outros e tentam se ajudar, este é um prêmio de todos nós da Noruega!”, disse o campeão Jørn Hafslund.

“Acho que é justo dizer que o Fanaost é o nosso menor vencedor do mundo até hoje e espero que esse resultado possa motivar os vendedores de queijos a darem uma olhada mais de perto no que é produzido localmente, perto de suas lojas, essa é a tendência mundial, de comer local”, disse John Farrand, diretor do Guild of Fine Food, associação que organiza o concurso.

O queijo marron Geitost Tinntradisjon, também norueguês, ficou em segundo lugar. FOTO: Débora Pereira/Profession Fromager

Dois queijos empataram em segundo lugar: um Ossau Iraty francês, de leite de ovelha, da Queijaria Agur, e o queijo marron Geitost Tinntradisjon, de cabra, feito por Stordalen Gardsbruk. Esse último é considerado o ícone dos alimentos tradicionais na Noruega. A sua tecnologia de fabricação parte de um leite coagulado que pode ser cozido durante muitas horas em fogo lento para dar notas de caramelo e doce de leite, antes de ser enformado.

O brasileirinho azul de Minas

O queijo azul do Laticínios Cruzília, dos irmão Luiz e Carlos Almeida, ganhou medalha de prata no concurso. É um queijo de leite pasteurizado cremoso, equilibrado, com azul acentuado, mas suave. “Estamos muito felizes, esse reconhecimento nos motiva a investir ainda mais em queijos finos”, diz Luiz.

Luiz na sala de cura do Azul de Minas. FOTO: Luiz Almeida/Acervo Pessoal

O Azul tem um ateliê de fabricação e sala de cura exclusivos para ele na fábrica no sul de Minas. “O objetivo é que o mofo seja preservado, não contamine outros queijos e não seja contaminado por outras culturas lácteas”, explica Adelino, responsável pela fabricação. Ele é curado por 45 dias. A receita foi criada pelo dinamarquês Lief Kai Godtfredsen, pioneiro de laticínios no Brasil no início do século passado.

Três outros queijos brasileiros já foram premiados no concurso, dois da indústria Vigor e o artesanal Tulha, da fazenda Atalaia, que ganhou medalha de ouro em 2016.

De Bergen a Bergamo

O Concurso foi parte de um festival de comida, Matnasjonen Norge, que se aliou ao World Cheese Awards. Tradicionalmente, o concurso é realizado em Nantwich, na Inglaterra, mas nos últimos anos têm se movido para outras cidades, geralmente onde já tenha havido queijos vencedores.

O queijo sueco Almnäs Tegel, meu preferido, ficou em quarto lugar. FOTO: Débora Pereira/Profession Fromager

Como na edição de 2016 em San Sebastian, na Espanha, quem ganhou foi o queijo norueguês Kraftkar, ficou decidido que em 2018 o concurso seria em Bergen. Para o próximo ano, para não repetir a Noruega, foi anunciado que o concurso será realizado na cidade italiana de Bergamo, a 50 km de Milão.

Como é ser jurada em um concurso de queijos

Cada uma das 78 mesas tinha em torno de 4o queijos para serem avaliados por três jurados. Nós fomos orientados a avaliar em uma grade de 25 pontos, sendo cinco para aparência e casca, cinco para massa e textura, e 15 para o sabor. Para ganhar uma medalha de ouro foi preciso entre 20 e 25 pontos; de prata, de 17 a 19; e de bronze, de 14 a 16.

O queijo melhor avaliado na mesa ganhou o “super ouro” e o direito de passar para a segunda etapa, onde somente 16 são escolhidos, para em uma terceira etapa ser escolhido o campeão. Ao todo, foram 599 medalhas de bronze, 486 de prata e 339 de ouro e 78 “super ouro”.

Antes do julgamento, eu só comi uma maçã no café da manhã para melhor apreciar os queijos, que começamos a provar as 9h30 por 3 horas e meia! O que acontece quando você passa todo esse tempo degustando queijos? O efeito claro é que brota uma alegria que contagia as pessoas, uma motivação, o brilho no olhar! É uma experiência incrível provar cada queijo, imaginar como foi feito, discutir suas sensações na boca, provar de novo, descobrir novas notas e sabores… Foi muito especial estar ao lado de outros sul-americanos jurados, como os brasileiros Falco Bonfadini e Bruno Cabral, e o peruano Lee Salas, que tem uma boutique em Lima.

Panorama do salão de julgamento e o sorriso do queijeiro mexicano Carlos Yescas, defensor do leite cru no seu país. FOTO: Débora Pereira/Profession Fromager

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