Paladar

Só queijo

Aventuras lácteas entre o Brasil e a França

Queijo Olividia trouxe alívio para paladares no World Cheese Awards

A 33ª edição do campeonato queijeiro foi maior e mais internacional do que nunca, apresentando, pela primeira vez, mais de 4 mil queijos

09 de novembro de 2021 | 16h28 por Débora Pereira

Ele é um queijinho quadrado de cabra, massa mole de casca florida, interior bem branco, cortado por uma linha fina de pó de caroço de azeitona. Leve e suave, Olividia foi eleito o melhor do World Cheese Awards-WCA. É feito pela Quesos y Besos, queijaria familiar de Silvia Peláez, que conta com uma equipe de apenas seis pessoas da região de Andaluzia. O concurso, em sua 33ª edição, avaliou 4.079 queijos de 45 países e seis continentes. 

Queijo Olividia, vencedor do concurso WCA. FOTO: Débora Pereira/Profession Fromager

 

Maratona para o paladar

O WCA é feito em duas etapas, em um único dia, e conduz a experiência de degustação queijeira ao extremo. Na primeira fase, em três horas, três jurados provam em torno de 50 queijos, julgando os quesitos aparência, textura, aroma e sabor.

Escalada para o time de 250 jurados de 38 países, tomei café da manhã cedinho para bem proteger o estômago e fui com uma maçã para aliviar os sabores entre um queijo e outro. Fui capitã da mesa, cheia de quesos manchegos, parmesões, queijos intensos, queijos picantes espanhóis e italianos.

Ao centro, Vanessa Alcolea, da Pardinho Artesanal-SP, sente o queijo. FOTO: Débora Pereira/Profession Fromager

 

No meio da manhã, demos uma pausa para respirar, relaxar e ver as outras mesas.  No final, ainda tínhamos ao menos cinco quesos cabrales para degustar, uma pérola do Parque Picos da Europa nas Astúrias que vou contar em breve neste blog, mas superforte e intenso. É preciso tomar um copo de cidra local para conseguir limpar o paladar..!

 

Foram 88 mesas de queijo! FOTO: Débora Pereira/Profession Fromager

Não dá para descrever a sensação de ter provado em uma manhã mais de 50 queijos. Mas garanto que dá um grau de expansão da consciência, ativa a produção de serotonina, todo mundo fica mais feliz. Um entusiasmo forte.

Apenas 3 horas para avaliar mais de 50 queijos! FOTO: Débora Pereira/Profession Fromager

 

Na segunda parte do concurso, um grupo de 16 jurados selecionados defendeu, cada um, seu queijo escolhidos entre as 88 medalhas super-ouro. O mais interessante de tudo é que o Olividia foi o mais sutil e suave entre os 16 queijos finalistas. Ele foi o último queijo a ser servido, depois de époisses, cheddars, goudas e parmesões… E encantou todos os paladares dos jurados justamente porque deu o alívio final, como o bálsamo de uma brisa fresca depois de uma tempestade de sabores intensos… O queijeiro inglês Jason Hinds, da Neal’s Yard Dairy, no Reino Unido, confessou de joelhos: “este queijo me encantou, roubou o meu coração, é completamente diferente de tudo que vi, a aparência é tão original e não me enganou: por dentro é untuoso, sedutor, macio, aconchegante e reconfortante”.

Massas duras foram maioria. FOTO: Débora Pereira/Profession Fromager

 

O 2º colocado foi o queijo époisses francês Berthaut, uma casca lavada de sabor superintenso da Savencia. Os top 16 foram queijos da Áustria, Hungria, Itália, Japão, Suécia e Reino Unido. Participaram pela primeira vez do concurso Índia, Japão e Colômbia, bem como nações queijeiras estabelecidas, tais como a França, Itália, Espanha, Suíça e o Reino Unido.  O World Cheese Awards aconteceu no Palacio de Exposiciones y Congressos, como parte integrante do Asturias Paraíso Natural International Cheese Festival 2021. 

Queijos de todas as famílias tecnológicas. FOTO: Débora Pereira/Profession Fromager

 

John Farrand, diretor-geral da Guild of Fine Food, a organizadora do World Cheese Awards, disse ter ficado muito feliz de ver uma pequena empresa familiar produtora de queijos conseguir o primeiro lugar. “É uma merecida celebração na sequência de um período de tantos desafios, incertezas, resiliência e inovação,” disse ele. 

Segunda etapa do concurso. FOTO: Débora Pereira/Profession Fromager

 

Silvia, produtora do Olividia, criou o queijo há menos de cinco anos. “Nunca imaginamos  ganhar o maior prêmio mundial de queijos. Foi fantástico testemunhar a avaliação em pessoa e estar presente para receber o prêmio. Ainda não consigo acreditar no que aconteceu e vai demorar muito tempo para digerir! Tudo o que fazemos é inspirado pelo amor pela nossa família, incluindo o próprio nome da empresa Quesos y Besos (Queijos e Beijos). Este é um momento muito especial para nós. Foi a nossa missão encarnar a essência da nossa família em todos os nossos queijos. O reconhecimento do World Cheese Awards é um feito incrível e realmente impressionante,” disse ela. 

Diversidade de parmesões. FOTO: Débora Pereira/Profession Fromager

 

Esqueceram de combinar com os russos

Por problemas burocráticos inexplicáveis, os queijos brasileiros foram julgados somente após o concurso ter acontecido, no sábado, em uma sessão especial de julgamento. Isso porque ficaram dias esperando ser liberados pela agência sanitária espanhola, mesmo tendo toda a documentação necessária. Mesmo assim ganharam 14 medalhas, viva!

A boa notícia é que, pela primeira, os queijos saíram do Brasil legalmente. O Ministério da Agricultura, mobilizado pela Associação Comer Queijo, autorizou a saída de 58 queijos do Brasil. Mas a Espanha resolveu não receber. Os queijos ficaram parados na fiscalização em Oviedo, que não se considerou apta a dizer se eles poderiam entrar ou não no país. Foram então levados para serem analisados em Madrid e alguns retornaram a Oviedo. Somente 21 queijos foram julgados. “Parece que os queijos de leite cru foram descartados, mesmo estando com a documentação completamente legalizada”, conta Falco, presidente da Associação Comer Queijo.

Falco Bonfadini no telão, pois estava entre os 16 jurados da 2ª etapa. FOTO: Débora Pereira/Profession Fromager

 

O triste foi o ar de decepção dos brasileiros por terem perdido seus queijos na festa, a angústia de acompanhar à distância.”É muito bom ter ganhado uma medalha. Mas você não imagina o estresse que foi essa historia. A tristeza de tantos terem sido jogados fora, até os oficialmente autorizados para leite cru. Tudo isso deu uma brochada geral,” disse Heloisa Collins, duas medalhas de prata para o Dolce Bosco e o Serra do Lopo.

Do Brasil, ganharam medalhas cinco queijarias brasileiras: as industriais Pomerode (Vermont Cheese), Ultra-Cheese (Cruzília e Laticínios São João) e Serra das Antas, e as artesanais Atalaia e Capril do Bosque (lista completa)

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