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Aventuras lácteas entre o Brasil e a França

Paternidade do queijo mineiro no fogo cruzado entre legislativo e executivo

Deputados mineiros promovem vídeo em que se vangloriam de uma vã glória... 99% do queijo minas artesanal continua ilegal

18 dezembro 2017 | 16:41 por Débora Pereira

Na semana passada a assembléia de Minas Gerais publicou o vídeo “Assembléia Legislativa trabalha para valorizar o queijo mineiro” em que mostra a fazenda Roça da Cidade na Serra da Canastra. A estrela principal é o produtor João Leite, presidente da Associação de Produtores de Queijo Canastra (APROCAN), que faz uma retrospectiva do processo de legalização do queijo desde 2000 e se vangloria de poder vender seu queijo dentro e fora de Minas Gerais, o que é uma “meia-verdade”. É citada a Lei 20549* como exemplo de que a assembleia “trabalha” pelo queijo. A peça publicitária está sendo divulgada em redes de televisão, rádio e jornal impresso.

A mensagem é linda, romântica, garante 100% de inocuidade do queijo e passa a sensação que o problema foi resolvido. “– Recebemos muitos elogios e a repercussão foi grande no cenário nacional, as vendas aumentaram bastante, está faltando queijo na Canastra” comemora João Leite. Mas, por outro lado, causou uma grande polêmica e revolta entre produtores de diferentes regiões e pesquisadores do queijo porque o “causo” da Lei 20.549 é MUITO mais longo do que os 2’40” do vídeo.

De fato, a Assembleia de Minas Gerais aprovou a Lei 20549 em 2012, de autoria do deputado Antônio Arantes (PSDB). O texto foi escrito pela comissão técnica da assembleia com a participação de João Leite, Leôncio Diamante (veterinário e colaborador da SerTãoBras) e outros produtores. Se a lei estivesse sendo aplicada pelo IMA, poderia ser considerada um avanço: determina que queijo artesanal é só de leite cru, sem tratamento térmico; que as culturas lácteas são “naturais” como o pingo (repicagem de soro do queijo); legaliza o “meia-cura” (se o queijo parou de dessorar já pode ser vendido) e principalmente reconhece a figura do “queijeiro comerciante”, o atravessador que coleta os queijos nas fazendas para vender nas cidades.

Fiscais do IMA não reconhecem a lei 

Na época da sua aprovação, a lei causou a revolta dos fiscais do IMA que se recusaram a regulamentá-la, alegando que não existiam pesquisas que garantissem a inocuidade do queijo feito segundo o rezado pela lei. Eles convocaram vários pesquisadores para realizarem essas pesquisas. “– Nós fomos convidados a participar de um grupo de estudos que durou mais de um ano com membros de diversas instituições, mas os projetos de pesquisa não tiveram financiamento“, relembra Leonardo Dupin, extensionista rural que esteve nas reuniões convocadas pelo IMA. “– O IMA nunca nem nunca publicou no seu site essa lei e simplesmente ignora que ela existe” denuncia Leôncio Diamante, que é técnico da Codevasf e natural de Bambuí, na serra da Canastra.

Leôncio Diamante em viagem de campo da SerTãoBras em 2013, para identificar produtores e assentamentos que fabricam queijo de leite cru na divisa de Minas Gerais e Goiás. Esses produtores seriam beneficiados se o IMA não tivesse boicotado a Lei 20.549. FOTO: Leôncio Diamante/SerTãoBras

Em julho deste ano, durante o Festival do Queijo Minas Artesanal em Belo Horizonte, o IMA e a Emater apresentaram uma proposta** de revisão da Lei 20.549: 15 páginas de alteração redigidas sem convidar nenhum produtor ou associação de queijeiros. De forte caráter punitivo, a proposta de alteração exige exames trimestrais da qualidade do leite, cloração da água mesmo se for potável, elimina a figura do queijeiro, proíbe a entrada das crianças na queijaria… entre outros delírios sanitaristas que terminam por empurrar ainda mais os produtores para a clandestinidade.

Depois que o texto da alteração foi apresentado, as associações foram “convidadas” a darem suas sugestões e foi prometida uma audiência pública. Todos enviaram sugestões, mas ainda não houve resposta nem convite para audiência. Soubemos que o projeto de alteração da lei já transita na assembléia sem incorporar as sugestões dos produtores. Por isso a indignação da produtora do queijo Catauá Mariana Resende (foto abaixo), presidente da Associação dos Produtores de Queijo Minas Artesanal da região do Campos das Vertentes: “– todo mundo quer ser padrinho do queijo e passam uma mensagem como se a situação estivesse resolvida… e definitivamente não está”.

Mariana Resende (segunda à esquerda) do queijo Catauá foi a única produtora “mulher” a receber homenagem da Guilde Internationale de Fromagers no Salão de Tours na França. Da direita para esquerda: João Leite, Mariana, Débora Pereira, Roberto de Castro, Altino Rodrigues e o presidente da Guilde, Roland Barthélemy. FOTO: Arnaud Sperat Czar/SerTãoBras

Questionado sobre o que acha da postura “rebelde” do IMA, o deputado Antonio Arantes disse “-É, o IMA é complicado, vamos tentar realizar uma audiência pública em fevereiro para escutar os produtores”.

Queijos meia cura e fresco continuam proibidos em Minas

João Leite, embora tenha afirmado no video que pode vender seu queijo dentro e fora de Minas Gerais, reconhece que pelo fato do IMA não obedecer a

Documento

ele não tem direito de vender queijo com menos de 22 dias.”-Eu não estou 100% de acordo com nenhuma lei até hoje, precisamos adequá-las às nossas realidades, por isso a luta continua e mais do que nunca precisamos do apoio de todos!!“. Ele pondera: “mas existe uma disputa pela paternidade política do queijo artesanal e isso acaba abrindo espaço pra nós produtores exigirmos mais avanços, eu não iria recusar de participar de um vídeo que valoriza a cultura queijeira e ajuda a colocar nosso assunto em discussão! ” justifica João Leite.

Outro motivo de revolta dos produtores em relação ao vídeo é que somente a região da Canastra recebeu destaque. Roberto de Castro, presidente do Sindicato dos Produtores Rurais do Serro e conhecido como Maravilha reclama: “– A cooperativa do Serro possui 1/3 dos produtores de queijo cadastrados no IMA e não fomos lembrados no vídeo, mas talvez melhor assim, porque todas as vezes que somos lembrados pelo IMA é para atrapalhar, eles querem mudar o gosto do mineiro obrigando todo mundo a só vender queijo curado, e essa não é a realidade do mercado, o mineiro quer queijo fresco” protesta ele .

À esquerda Roberto “Maravilha” do Serro e ao centro, de boné, Altino Rodrigues da Faemg: ambos assombrados pela explicação do queijeiro francês Pierre Gay que usa aranhas em sua sala de cura para afastar as moscas. Auto controle é isso, interessam os resultados e não os meios. FOTO: Débora Pereira/SerTãoBras

Autocontrole pode ser a solução

Osvaldo Filho, comerciante e curador do queijo d’Alagoa é um defensor do queijo fresco. “– Levei pro debate #ArtesanaisLegais realizado pelo Paladar em São Paulo um exame feito com meu queijo fresco, verde, com 5 dias de vida. Apto pra consumo humano! Realmente temos que partir pra este caminho: mostrar que nosso queijo é inócuo mesmo fresco” contou ele.

Osvaldo Filho na sua sala de cura em Alagoa. FOTO: Débora Pereira/SerTãoBras

João Leite concorda que os produtores devem provar a sanidade do queijo, através do auto controle, simplificando as burocracias. “– A Aprocan acaba de assinar um convênio para fazer análises de nossos queijos e provar que podemos vender queijos frescos, bem antes de 22 dias. Os exames serão feitos pelo laboratório da Fiemg (Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais), por intermédio da Faemg (Federação dos Agricultores do Estado de Minas Gerais), e eu aconselho aos produtores do Serro e de outras regiões a seguirem este caminho também!” convida ele.

O presidente do sindicato dos Produtores Rurais do Serro não é tão otimista. “– Estudos do Professor José Manoel Martins*** já comprovaram a saúde do nosso queijo, mas o IMA não aceita. Este problema do queijo vai ser resolvido no dia de São Nunca de Tarde, toda vez que muda o governo, muda tudo, tem 30 anos que eu acompanho isso. É burocracia demais, recursos e boa vontade de menos” resume Roberto.

Lei 20549 *

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Link para entrevista com Professor José Manoel Martins***

 

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