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Aventuras lácteas entre o Brasil e a França

Queijo do Marajó agora tem indicação geográfica protegida

Foram mais de 3 anos desde o primeiro pedido de reconhecimento da tradicional receita da Ilha de Marajó

25 de março de 2021 | 09h00 por Débora Pereira

Na última terça-feira, 23 de março, o queijo da Ilha de Marajó foi reconhecido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) como um produto tradicional. O registro de Indicação Geográfica-IG delimitou que o queijo deve ser feito nos municípios de Cachoeira do Arari, Chaves, Muaná, Ponta de Pedras, Santa Cruz do Arari e Soure.

A detentora dos direitos do uso do nome “Marajó ” pertence agora à Associação dos Produtores de Queijo e Leite do Marajó (APQL), que se mobilizou para avançar o dossiê.

“É a realização de um sonho” resume Gabriela Gouveia, 38 anos, presidente da associação. “Nasci em Soure, no Marajó, minha família sempre teve como principal função a pecuária dos búfalos e a fabricação deste queijo, este reconhecimento vem coroar o trabalho de muitas gerações” disse ela.

Luis Leal, responsável da fabricação do queijo do Marajó da fazenda São Victor. FOTO: Fernando Sette/Acervo Pessoal

O processo de reconhecimento começou em 2018. Foi formada uma equipe multidisciplinar para atender as exigências do INPI e construir o dossiê que terminou com mais 200 páginas de documentação. Foram reunidas informações climáticas, geológicas, sócio-econômicas e culturais.

“Fizemos uma extensa pesquisa histórica. Todos os produtores fizeram uma busca entre familiares para recuperar registros da existência do queijo do Marajó. O mais antigo que encontrei foi um diário do meu bisavó datado de 1923, com uma lista de compra de materiais para queijaria e venda de queijos. Outros produtores acharam livros antigos de contabilidade citando o queijo de Marajó” contou Cecília Pinheiro, produtora da fazenda São Victor, que era a presidente da associação na abertura do processo.

Receita única no mundo

A receita parece simples. Primeiro o leite é desnatado (guarda-se o creme para acrescentar de novo no final) e acidificado por 24 horas, sem fermentos do comércio. Quem acidifica o leite são as próprias bactérias selvagens do leite cru. Em seguida, ele é dessorado, a massa é moída e levada ao fogo com o acréscimo do creme, até atingir o ponto ideal. Essa tecnologia de fabricação queijeira, que pode ser chamada de “queijo láctico cozido”, só é feita no Brasil.

Processo de cozimento da massa. FOTO: Fernando Sette/Acervo Pessoal

O resultado é uma massa firme, mas macia, aromas lácticos e amanteigados e notas florais.

Queijo pronto para resfriar. FOTO: Fernando Sette/Acervo Pessoal

“Os sabores mudam também com as estações do ano, que são basicamente duas: seca e chuvas” explica Cecília. Ela vê a necessidade de transmissão do conhecimento para a receita perdurar. “Nosso responsável de fabricação, Luis Leal (foto), aprendeu com seus pais e está ensinando para 3 ajudantes. Mas por enquanto achar o ponto em cada etapa da fabricação é bem delicado, principalmente porque o leite muda, por ser uma matéria prima crua e não homogeneizada!”.

Cecília e seu marido Marcus Pinheiro já ganharam medalha de prata na 4a Edição do Mondial du Fromage et des Produits Laitiers de Tours, na França em 2019 (vídeo abaixo). O queijo do Marajó tradicional não é curado, é vendido refrigerado e fresco.

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