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A arte de ter um diário cervejeiro

Em seis anos de atividade, posso me gabar de já ter avaliado cervejas junto com o Charlie Brown, a turma do desenho (nada infantil) South Park e até com um mosqueteiro corintiano. Calma lá: não se trata de uma sucessão de delirium tremens, mas apenas dos companheiros de papel dos meus blocos de anotação sobre fermentadas, rotina fundamental para degustações “a sério”.

07 novembro 2012 | 22:52 por robertofonseca

Por que é importante tomar notas das cervejas? O primeiro motivo é descrito pelo austríaco Conrad Seidl, autodenominado “papa” da bebida, em seu livro Catecismo da Cerveja. Ele conta que, após ser servido em um bar inglês e sacar o bloquinho do bolso, o garçom imediatamente retirou sua pint dizendo: “Desculpe, isso deveria estar melhor”, e repetiu o serviço. O cuidado demonstrado pelo degustador é capaz, sim, de influenciar o meio em que ele está.

Dilema. Ter um moleskine ou comprar mais cervejas? FOTO: Felipe Rau/Estadão

Em segundo lugar, porque a melhor parte de aprender sobre cervejas está justamente nas “aulas práticas”. Vale se informar sobre o estilo a ser provado com antecedência, para saber que elementos dominarão aroma e sabor. Ou até fazer o contrário, tentando instintivamente identificar notas de malte, lúpulo e levedura e, depois, comparar com o padrão do estilo.

Há diferentes métodos de avaliação, desde os profissionais, como a ficha do Beer Judge Certification Program (BJCP), que dá notas e pesos a aparência, aroma, sabor, sensação de boca e nota geral, a métodos mais simples, que podem ser até o “gostei” ou “não gostei” e por quê.

Eu tenho um método intermediário, dividido em aroma, sabor, cor, espuma e uma nota que vai de um a cinco. Depois de ter avaliado mais de mil cervejas, não uso mais fichas, e sim cadernos em branco – alguns antigos, com as estampas citadas anteriormente, para evitar o desperdício. Às vezes, porém, há tantas fermentadas a serem avaliadas e tantos comentários de produtores a serem anexados que o caderno é insuficiente, e folhas avulsas e até canhotos de notas fiscais são de valiosa ajuda para não interromper os trabalhos.

Adepto dessa “informalidade”, me chamou a atenção o Diário da Cerveja da Moleskine. Apesar do preço consideravelmente elevado (R$ 99,90, ou o equivalente a algumas boas cervejas), ele tem uma divisão interessante. A primeira seção é a de avaliação – onde os pontos altos são a possibilidade de marcar o copo adequado e uma curiosa “teia” de atributos (como “amargo”, “maltado” e “tostado”) a ser preenchida.

Na sequência, há espaço para o catálogo da “adega” do cervejeiro, receitas harmonizadas com cerveja, lista de endereços de bares com espaço para listar as cervejas disponíveis e suas favoritas e até uma área para anotação de receitas de produções caseiras, com rol de ingredientes, tempo de fervura e outros itens.

Independente da plataforma, porém, uma terceira razão para manter um diário cervejeiro é a “memória fermentada”. Seja para comparar a bebida do dia com outras do mesmo estilo ou, mesmo, para rir das próprias avaliações de iniciante. Faço, porém, uma advertência: resenhe com moderação. Afinal, cerveja também envolve diversão.

>> Veja todos os textos publicados na edição de 8/11/12 do Paladar

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