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Heloisa Lupinacci

A cerveja luta contra o racismo

Criado em junho, Núcleo de Diversidade da Associação Brasileira da Cerveja Artesanal é fundamental para combater o preconceito no meio cervejeiro

21 de agosto de 2020 | 05:00 por Heloisa Lupinaci, O Estado de S.Paulo

"Tem bastante coisa para fazer, na real." De forma direta e com voz calma, é assim que Nadhine França resume a situação. Ela é coordenadora do Núcleo de Diversidade da Associação Brasileira da Cerveja Artesanal, criado em junho e já fundamental, como demonstra mais um ataque direcionado aos profissionais negros do mercado cervejeiro.

Desde sexta (14), o único assunto no meio é o vazamento de imagens de trechos de conversas com teor racista em um grupo de WhatsApp que reunia figuras do mercado (donos de cervejarias e bares, juízes de concursos cervejeiros, sommeliers…).

A criação do núcleo coordenado por Nadhine na Abracerva é um avanço: "Estamos focados em acelerar mudanças institucionais para que esse tipo de infração tenha punição." Alguns dos membros do grupo onde as mensagens circularam se posicionaram publicamente, justificando suas mensagens ou fazendo pedidos de desculpas – entre eles, inclusive, Carlo Lapolli, presidente da Abracerva, que afirma em publicação em seu perfil no Facebook ter saído antes das mensagens vazadas, incomodado pelo tom das conversas. 

Mas mais do que expor este ou aquele racista, o que as conversas revelam é a urgência do tema. E o que você pode fazer? Escolhas. Pode beber cerveja de cervejarias que apoiam ativamente a diversidade do mercado, compradas em bares que se posicionam contra o racismo e fazer cursos em escolas que promovam a inclusão no mercado.

Wit da Graja Beer, cervejaria do Grajaú que é um símbolo paulistano da inclusão cervejeira 

Wit da Graja Beer, cervejaria do Grajaú que é um símbolo paulistano da inclusão cervejeira  Foto: GrajaBeer

Para ajudar, fiz uma lista. Sei que ela é maior e quero falar de todos. Se você conhece cervejarias, bares e escolas cervejeiras que promovam a diversidade, divulgue e compartilhe com seus amigos.

Quem promove a diversidade no mercado cervejeiro

Escola

A Science of a Beer oferece bolsas de estudo para negros, indígenas, portadores de deficiência e pessoas em situação de vulnerabilidade social. Com isso, promove de forma ativa a inserção desses grupos no mercado. As regras estão em materiais.scienceofbeer.com.br/bolsas-de-estudo

Cervejarias

Além da Implicantes, (que você já conhece e que foi novamente vítima de ataques), outras cervejarias antirracistas são: Mito (@cervejariamito), DutraBeer.com, CervejaBenedita.com e GrajaBeer (@grajabeeroficial) – a cervejaria do Grajaú é um símbolo paulistano da inclusão cervejeira e tema da coluna da semana que vem. Até lá, dá para pedir em casa a wit colaborativa que eles fizeram com a Caravan,  Grajamaica (R$ 30, o litro, caravanemcasa.com.br).

Das grandes, a Dádiva recentemente lançou, em parceria com o Empório Alto dos Pinheiros, o rótulo Black is Beautiful, parte de iniciativa internacional que tem renda revertida para o Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades. 

Mais um rótulo racista sai de circulação

"Nossa American Coffee Stout (...) mostrou pra nós mesmos que não temos razão sobre tudo. Alguns apontamentos sobre o rótulo nos fizeram entender que ciclos começam, mas também terminam." Esse é um trecho do anúncio da cervejaria Seasons sobre o fim da Cirilo. Em julho, durante pesquisa sobre rótulos que retratam pessoas negras, pedi à sommelière Sara Araújo, que incansavelmente luta por um mercado cervejeiro mais diverso, que fizesse uma leitura do rótulo.

Rótulo Cerveja Cirilo 

Rótulo Cerveja Cirilo  Foto: Seasons

Nome

"Cirilo era um personagem que sofria racismo na novela Carrossel. Sempre era alvo de violências diretas e indiretas e era silenciado. O nome traz lembranças dolorosas e odiosas. Não tem nada de empoderador." 

Gesto + lema + animal

"O rótulo traz uma vaca com indumentária humana de punho cerrado (símbolo da luta contra o racismo) com a frase Fight of Power (referência ao movimento negro). Negros e negras sequestrados do continente africano foram trazidos para o Brasil e tratados como animais de tração. A associação desses símbolos (somada ao nome) não homenageia o movimento negro, mas sim o sistema racista."

 

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