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A conversa sobre os preços dos drinques continua

Por Ana Cândida Ferraz e Andre Mifano

18 setembro 2015 | 20:36 por redacaopaladar

O caderno Paladar publicou na edição do dia 17 de setembro uma matéria sobre preços de drinks em restaurantes, com o título “Quem precisa de lei seca”. A matéria faz uma crítica acirrada aos preços dos drinks em restaurantes, estabelecendo três diferentes comparações principais: (1) custos de drinks em casa contra preços em estabelecimentos, (2) valores de pratos e bebidas de um mesmo estabelecimento e (3) preços de drinks em diferentes estabelecimentos.

FOTO: Felipe Rau/Estadão

Com todo respeito ao Caderno, do qual somos assíduos leitores, e aos jornalistas que lá trabalham, pretendemos ampliar a discussão que nos pareceu um recorte precário de um tema que ainda é tabu: preços. Em tempos de crise, de restaurantes que fecham as portas toda semana e de movimento e gastos reduzidos, pareceram perigosas algumas afirmações feitas na matéria. Além do que, sentimos de mais espaço para os donos de restaurante consultados pela matéria.

A primeira comparação descrita nos lembrou de uma discussão que tomou conta de blogues e jornais há alguns anos sobre os preços cobrados em restaurantes. Assim como faz a matéria, a discussão tinha foco na comparação de preços entre coisas feitas em casa e coisas feitas em restaurantes. Na época, donos de estabelecimentos abriram seus custos para mostrar a diferença entre comer em casa ou fora dela.

Como profissionais da área há muitos anos e já tendo acompanhado bastante essa discussão, não pretendemos retoma-la. Entrar novamente no mérito do quanto se paga para manter uma casa aberta é “chover no molhado”. Imaginamos ser evidente a diferença do custo de comer em casa e o de sair para um restaurante, café ou bar. Vale dizer apenas, que em diversos tipos de comércio há mais coisas entre o preço de manufatura e o valor final que é pago pelos clientes do que sonha nossa vã filosofia.

Sobre a segunda comparação, convém dizer que existem muitas bebidas alcóolicas que são mais caras que os insumos usados para se confeccionar os pratos, sejam elas importadas ou nacionais. Sendo assim, é lógico para os estabelecimentos que alguns preços finais sejam equivalentes.

A terceira comparação é, de novo, completamente compreensível. Os clientes e, mesmo nós da área, sempre colocamos na balança os preços de diferentes estabelecimentos, assim como o preço de tudo aquilo que compramos. Porém, destacar apenas os valores em uma imagem na capa de um caderno especializado, mantém a descontextualização dos diferentes ambientes, mãos de obras, custos e escolhas que há entre as casas citadas.

Quando apontamos ser potencialmente perigosa a matéria, estamos preocupados com a forma como os clientes vão receber este conteúdo e como será a reação destes com as casas. Sair ou ficar em casa é uma escolha de cada um. Gastar dinheiro ou não com qualquer tipo de serviço ou produto depende daquilo que se prioriza. Mas acreditamos que a falta de contexto em matérias de bons jornais e revistas, costumam inflamar discursos raivosos, nivelam por baixo o trabalho dos profissionais da área, impedem muitas vezes o diálogo e criam rancor e desconfiança no público que atendemos todos os dias.

Mais uma vez, o objetivo desse texto é ampliar o diálogo. Clientes, funcionários, donos de restaurantes e a sociedade em geral tem tido dificuldades financeiras devido à crise. A responsabilidade que nos cabe é de ser honestos e com isso aumentar a confiança entre as partes. É hora de unir em vez de separar, de ter ideias, ser criativo. Qual melhor lugar para isso do que ao redor de uma mesa?

RESPOSTA À CARTA DE ANA CÂNDIDA FERRAZ E ANDRÉ MIFANO, DO RESTAURANTE VITO:

A matéria “Quem precisa de lei seca?” surgiu de uma constatação da equipe (que adora drinques, mas tem conseguido beber cada vez menos): coquetéis em restaurantes têm forte impacto na conta. O que começou com uma conversa, acabou virando pauta. Fizemos jornalismo: pesquisamos os preços, ouvimos donos de restaurantes e bartenders, representantes de marcas de bebidas e relatamos o que foi apurado, com transparência e honestidade.

Não fizemos “um recorte precário de um tema tabu”. O que fizemos foi um amplo levantamento, mostramos os fatos e os diferentes aspectos envolvidos na composição de preços. Preço não é tabu: é fato. E tem de ser abordado, sim, em nome do interesse dos leitores.

Sobre os três aspectos levantados na carta:

1. A reportagem não comparou os preços dos drinques feitos em casa com os de estabelecimentos. Foram abordagens distintas, em páginas separadas.

2. Não fizemos juízo de valor sobre o preço do prato em relação ao do drinque. O que afirmamos foi que, nos casos em que prato e coquetel custam o mesmo, o drinque tem forte impacto na conta.

3. Para o Paladar, o que vale é o que está no copo e no prato. Não é o luxo, o entorno, as toalhas… E nesse caso, apesar de tratarmos de lugares de perfil bem distinto, fizemos questão de comparar os mesmos coquetéis, preparados com os mesmos ingredientes nas diferentes casas. Tradicionalmente, no Paladar, falamos de lugares de alta gastronomia e de casas simples, sem preconceitos.

Agradeço a carta. Estamos sempre abertos ao diálogo e acho que, no fundo, todos nós queremos a mesma coisa: comer e beber cada vez melhor (e gastando menos!),

Abraço,

Patrícia Ferraz (editora do Paladar)

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