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‘A história da viticultura é a história da diversidade’

Jean-Claude Berrouet foi enólogo do icônico Château Petrus por 44 anos e agora dá consultoria para a nova Quinta da Boavista em Portugal que lança seus vinhos este ano

11 maio 2016 | 18:50 por José Orenstein

“O que me interessa nos vinhos é a história humana.” Com frases como essa, dita no lançamento da nova safra da Quinta da Boavista no Porto, Jean-Claude Berrouet dá cores poéticas ao seu trabalho como enólogo, quase que a esconder o intenso apuro técnico envolvido em seu trabalho. 

Entre 1964 e 2008, ele foi enólogo do Château Pétrus, no Pomerol, em Bordeaux. O vinho é um dos mais famosos e valorizados do mundo e Monsieur Berrouet foi um dos responsáveis por guardar essa tradição e até mesmo refiná-la – especialistas dizem que, sob sua orientação, o Pétrus ganhou em equilíbrio e elegância. 

 

  Foto: Divulgação

O enólogo se aposentou do Pétrus, mas aceitou o convite para ser consultor da Quinta da Boavista, com seu filho Jeff. 

Durante o jantar que seguiu à apresentação dos novos vinhos da Quinta da Boavista, Berrouet conversou com o Paladar. Leia abaixo a entrevista.

Por que o sr. resolveu ajudar a fazer vinhos em Portugal?

Já conhecia, é claro, os vinhos do Porto e o Douro. Mas quando me chamaram para trabalhar aqui vim pelas pessoas. E logo descobri um potencial extraordinário. As história da viticultura é a história da diversidade. Aqui encontrei uma história riquíssima na gente que trabalha, na variedade das uvas, no solo. Trago um olhar de fora que pode ajudar a revelar a identidade deste terroir. 

E esse seu trabalho envolve um balanço de análise objetiva e percepções subjetivas sobre um vinho para melhorá-lo. O que pesa mais?

Em qualquer trabalho, há princípios fundamentais. Pegue um Monet, um Chopin, um Miró, um Mozart. Eles buscam equilíbrio e harmonia. É isso o que busco num vinho. Há meios técnicos, análises quantitativas que fazemos para equilibrar o corpo e a expressão aromática de um vinho. Mas, no fim, a percepção subjetiva, que desenvolvemos com o tempo, é o que permite tomar as decisões.

E o que acha do biodinamismo?

Por sete anos participei de um projeto biodinâmico na França, mas deu errado. É muito difícil, complicado. Não tenho certeza se os métodos biodinâmicos se refletem em vinhos melhores. São técnicas e, como qualquer técnica, têm limitações. <MC0>Não se pode acreditar cegamente nelas. Mas são ótimas ferramentas, fundamentais para a reflexão sobre como fazer vinho. E, claro, fazem pensar sobre a necessária preocupação com o ambiente.

As mudanças climáticas afetam a produção de vinhos?

Sem dúvida. A partir de 1988 comecei a notar a elevação do teor alcoólico e uma acidez fraca nos vinhos, vindimas mais precoces, vinhos mais pobres. Mas são ciclos. No tempo de uma vida não se pode ter a real dimensão do aquecimento global. E as vinhas, a história prova, se adaptam. Vamos lidar com isso.

Ficou com água na boca?