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A vez dos vinhos sem-barrica

Vinhos são cíclicos. Os potentes, alcoólicos, fortemente amadeirados dominaram por décadas. Agora é a hora de tintos e brancos com pouca ou nenhuma passagem pelo carvalho – vinhos mais leves, frutados, fáceis de beber

05 novembro 2014 | 17:25 por marcelmiwa

Vinhos muito potentes, concentrados, alcoólicos e com forte marca da barrica de carvalho andam em baixa. E não é apenas impressão. As tendências são cíclicas, e agora é a vez de tintos e brancos com pouca passagem pela madeira – ou mesmo sem madeira. Na boca, isso quer dizer vinhos mais leves, florais, frutados, mais fáceis de se beber. O conceito de drinkability (facilidade de se beber) é cada vez mais valorizado. Atualmente, apenas 3% dos vinhos produzidos passam por barricas de carvalho, de acordo com um grande especialista no assunto, o francês Nicolas Vivas.

A história da ascensão e queda do vinho potente e intenso – atributos conferidos pela madeira – começa com o Julgamento de Paris (célebre degustação às cegas realizada em 1976 que colocou vinhos norte-americanos em pé de igualdade com franceses). Foi então que tintos e brancos americanos – amadeiradíssimos – entraram para valer no radar dos consumidores. Produtores perceberam que a intensidade, maciez e sensação de doçura encantavam o público. E esses vinhos, apelidados de blockbusters, se disseminaram por diversas regiões do Novo Mundo. Vinhos californianos, australianos, sul-africanos, argentinos e chilenos entregavam muita intensidade na taça e isso impressionava os neófitos.

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No entanto, a partir do momento em que os consumidores passavam a conhecer mais sobre vinhos, notavam que nos extremos – de maturação da uva, de extração e de uso de barricas novas – todos os vinhos acabavam ficando parecidos.  

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A reação à proliferação dos vinhos potentes foi pesada. Chardonnays e Cabernets californianos, referências desse estilo, em poucos anos viraram alvo de desprezo e, em alguns casos, até de chacota pelos consumidores. E a reação acabou até desencadeando uma piada resumida na sigla ABC – anything but Chardonnay ou anything but Cabernet (dê-me qualquer vinho, menos Cabernet ou Chardonnay). A brincadeira ficou famosa no fim dos anos 1990. A prova final de que a era dos vinhos “bombados” havia passado foi o filme Sideways (2004), que levantou a bandeira da Pinot Noir nas vinícolas americanas, uma uva delicada, de coloração clara e álcool moderado que não tolera muita interferência do carvalho.

A partir daí as vinícolas do Novo Mundo passaram a se preocupar em fazer vinhos mais frescos e menos amadeirados. Tintos e brancos começaram a perder a maquiagem da madeira e a mostrar sua personalidade, aquela que expressa o lugar em que a uva foi cultivada. E o termo terroir entrou em alta. A atual valorização dos vinhos com menor passagem de tempo em barricas tem também um aspecto econômico: custo. Uma barrica de carvalho nova de 225 litros custa cerca de A 700 (mais de R$ 2 mil), preço que pode dobrar na importação por uma vinícola brasileira, por exemplo. Some-se a isso a perda anual de 3% a 4% do volume de vinho dentro da barrica por evaporação. E ainda tem o custo de manter o vinho ocupando a barrica por mais tempo.

Não é de estranhar, portanto, que os vinhos passem cada vez menos tempo em contato com a madeira. A vinícola chilena De Martino, por exemplo, reduziu o uso de madeira. Nos últimos anos, a empresa deixou de comprar barricas novas e substituiu as de 225 litros por barris de 3 mil e 6 mil litros, os chamados foudres. O enólogo Marcelo Retamal conta que está buscando uvas com maior frescor e menos açúcar e a passagem intensa por barrica ofuscaria essas qualidades, além de deixar o vinho mais pesado. Até a gigante chilena Viña Santa Carolina aderiu aos foudres em vez das barricas de 225 litros. A linha T.H. de Undurraga (Chile) e Zorzal (Argentina) caminham na mesma direção; e até mesmo o americano Paul Hobbs e o dinamarquês Peter Sisseck (produz seu vinho em Ribera del Duero, Espanha), que já foram conhecidos pelo generoso uso de barricas novas, hoje em dia, praticamente não as usam.

O dinamarquês chegou a usar “200%” de barricas novas nas primeiras safras de Pingus – a técnica consiste em amadurecer o vinho por 12 meses em uma barrica nova e em seguida transferi-lo para outra barrica nova por mais 12 meses. Barricas novas transferem mais aromas e taninos da madeira para o vinho. Hoje, Sisseck trabalha apenas com barricas já usadas em seu vinho principal, o Pingus. E há dezenas de outros produtores com a mesma visão.

Sem Madeira: comece por esses

Garzón Albarino 2013

Garzón, Uruguai

Quanto: R$ 55 (na World Wine)

Pêssego, cítricos e flores brancas marcam a tipicidade da Albariño, mas nada disso valeria se não houvesse o suporte da ótima acidez, que deixa o vinho vivaz.

Domaine Bott-Geyl Gentil D’Alsace 2012

Alsácia, França

Quanto: R$ 58 (na De la Croix)

A mescla das uvas brancas da Alsácia resulta em um vinho leve, fresco e mineral, ótimo como aperitivo. Em vez de exuberância, o lema aqui é elegância.

Quinta de La Rosa Dou Branco 2010

Douro, Portugal

Quanto: R$ 71,40 (na Ravin)

Os aromas cítricos, de pêssego e pera, envolvidos por textura sedutora e boa intensidade, mostram o enorme potencial para brancos no Douro.

De Martino Gallardía Del Itata Cinsault 2013

Itata, Chile

Quanto: R$ 65,10 (na Decanter)

Exotismo e frescor são as peças-chave deste vinho. A Cinsault varietal mostra aromas de frutas vermelhas frescas, flores e pimenta-rosa.

Gaba do Xil Mencía 2010

Galícia, Espanha

Quanto: R$ 91,37 (na Mistral)

Em certos aspectos a Mencía recorda a Pinot Noir. Sua expressão e identidade não dependem da concentração, como neste vinho repleto de frutas negras frescas.

Le petit vin de avril

Rhône sul, França

Quanto: R$ 111,50 (na Premium)

Um dos maiores nomes de Châteauneuf-du-Pape, Clos de Papes, faz este vinho fora da AOC. Tem força, frutas negras, especiarias e algo terroso, qualidades típicas dos grandes vinhos.

 

VINHOS EXTREMOS

Chablis é uma das principais referências de vinhos sem madeira. A mineralidade, por vezes austera na juventude, dá um caráter único aos vinhos dessa região da Borgonha. Do outro lado está um cabernet de Robert Mondavi, com boa dose de barricas europeias.

SEM MADEIRA

Chablis Domaine Saint Claire 2012 J. M. Brocard

Borgonha, França

Quanto: R$ 160 (na Zahil)

COM MADEIRA

Robert Mondavi Cabernet Sauvignon Reserve Napa Valley 2009

Napa Valley, Estados Unidos Quanto: R$ 928,90 (na Interfood)

Os vinhos eram assim…

FOTOS: Alex Silva/Estadão

Brancos amadeirados. Untuosos, com aroma intenso de nêspera, noz-moscada, avelãs, brioche e frutas tropicais como banana

Tintos amadeirados. Alcoólicos, com aromas marcantes de baunilha, especiarias, frutas negras bem maduras e pão tostado

…ficaram assim

 

Brancos sem madeira. Leves, frescos e minerais, com aromas de frutas brancas, frutas cítricas, flores e ervas aromáticas como hortelã

Tintos sem madeira. Leves, com álcool moderado e cheiro de frutas vermelhas frescas, flores e ervas aromáticas

>>Veja a íntegra da edição do Paladar de 06/11/2014

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