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Açaí? Tem aqui

No imenso mercado a céu (e rio) aberto de Belém, o dia começa antes de nascer. Quando a freguesia chega, um turbilhão de peixes, frutas, verduras e especiarias da Amazônia já está lá, trazido de barco, paneira... e cocoruto

17 abril 2013 | 23:50 por joseorenstein

De Belém

É 1h16, início da madrugada. Nove pequenas embarcações já estão atracadas na doca perto do Forte do Castelo. Provenientes de algumas das 43 ilhas que cercam a capital paraense, singraram a Baía do Guajaíra, confluência dos Rios Acará e Guamá, que banha a cidade de Belém. Trazem cestas – as paneiras – e caixas – as basquetas – recheadas de açaí para fornir o mercado de 35 mil m². Dizem que os portugueses (era o tempo do rei) fiscalizavam a mercadoria que dali escoava: tinham que “haver o peso do exclusivo colonial”. Caiu a metrópole lusa, ficou o Ver-o-Peso, fundado em 1627.

De mão em mão, as paneiras vão sendo jogadas dos barcos para a praça. O Pará é o maior produtor e fornecedor de açaí do País, mas o fruto negociado ali no mercado abastece apenas o comércio local. O que é vendido a outros Estados sai direto dos produtores. Uma paneira, com 15 quilos do fruto custa R$ 50, no Ver-o-Peso. Agora é entressafra, a época forte é de junho a outubro – aí, o preço diminui.

O relógio marca 2h01. O mercado ainda não esquentou. Vai embora o Esperança II, um popopô – barquinho alongado e de motor ritmado – que já descarregou o açaí. Chega o Comandante Augusto, depois de dois dias de viagem desde Macapá, carregado de 300 paneiras cheias de açaí e gelo. O fruto tem que ser colhido em um dia e vendido no outro, no máximo. Só viaja no gelo.

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Já são 2h44. “Booora, gringo. Bora sair da frente.” Um carregador passa correndo, levando na cabeça uma caixa de madeira cheia de peixe. O desembarque está fervendo. Diariamente, chegam de 80 a 120 toneladas de piramutabas, maparás, tambaquis, gurijubas e douradas, colhidos nas águas do Norte.

É hora do rush. O estreito corredor entre as caixas de peixe é via de tráfego intenso. Os carregadores correm e gritam, como se buzinassem. Recebem R$ 10 por viagem. As caixas cheias chegam a pesar 100 quilos e, para suportar, eles improvisam acolchoados de pano ou isopor no cocoruto. São as rodilhas.

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A divisão do trabalho é clara: carregadores, viradores – que viram o peixe à vista do cliente e levam as caixas à cabeça dos carregadores – e balanceiros, que, sentados à frente das balanças, pesam a mercadoria. Há 30 anos varando madrugadas no Ver-o-Peso, Daniel Bandeira observa o movimento de seu banquinho. Vende tambaquis a R$ 8 o quilo. Ele conta que os balanceiros é que definem o preço do peixe e, ao fim, retêm uma comissão. O principal vai para quem pescou. Próximo à calçada do peixe, pimentas e quiabos já ocupam espaço no chão. As verduras também estão chegando.

São 3h46, centenas de paneiras de açaí se espalham pela praça. Carregadores empilham as cestas na cabeça, até quatro e, de lambuja, uma ou duas no braço. Cada uma pesa 15 quilos, e o transporte do barco ao chão rende R$ 0,40. Bum! Um rojão estoura, os feirantes gritam. É para espantar os morcegos que estavam rondando o açaí.

Paneiras maiores cobertas com folhas de guarumã contêm o açaí fresco tirado das Ilhas das Onças e Arapiranga, melhor e mais caro. Os atravessadores mostram o fruto, iluminando com lanternas. Quanto mais macio, melhor. Os maiores compradores ali são os maquinadores: aqueles que batem o fruto para formar a pasta, que, em Belém, come-se a temperatura ambiente com farinha e peixe frito.

Às 5h01, o som de facas sendo afiadas e um samba de Vanzolini embalam a abertura do mercado de peixe. Chegam os primeiros consumidores e o ritmo acelera no complexo tombado como patrimônio pelo Iphan, que engloba comércio de peixes, verduras, frutas, farinhas, carnes, camarão seco, artesanato, ervas medicinais e pratos feitos. O sol já aponta quando os sacos de farinha são abertos. São 5h56.

O movimento do Ver-o-Peso remete às feiras ancestrais: a chegada da mercadoria pela água, desembarque, negociação na praça, a céu aberto – um caos orgânico e organizado.

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1H16 – Início de jornada. Mal começa a madrugada e os primeiros barcos trazendo açaí já descarregam as ‘paneiras’ e ‘basquetas’ carregadas de frutos que vão suprir a grande feira ao ar livre de 36 mil metros quadrados. FOTOS: Júlia Rettmann/Estadão

2h44 – Logística. Um ‘virador’, profissional que manuseia os peixes para mostrar aos clientes e levanta as caixas para a cabeça dos carregadores, retira o pescado da balança após a pesagem.

3h46 – Mar de açaí. Cestos do fruto espalham-se às centenas pela praça. Carregadores levam até quatro cestas de 15 kg cada na cabeça, mais uma ou duas no braço, a R$ 0,40 por caixa.

5h01 – Aberto o mercado. Vendedor exibe a pescada-amarela, peixe da água salobra que se forma na mistura do mar com o rio.

5h56 – Veterano. O sol aponta e Reinaldo Silva, 74 anos, expõe seus maxixes, quiabos, pepinos e pimentas-verdes.

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