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Angelo Gaja: "Vão provando enquanto eu falo!"

Por Guilherme Velloso

27 março 2014 | 02:05 por redacaopaladar

O menu, cuidadosamente planejado para o almoço, previa três pratos para acompanhar os quatro vinhos que seriam servidos: salada, risoto e carne. Mas Angelo Gaja (pronuncia-se “gaia”) dispensou os detalhes. “Posso comer o que quero?”, perguntou o italiano que produz grandes vinhos em Barbaresco, Bolgheri e Montalcino. Obviamente, podia. E, assim, comeu manga do começo ao fim do almoço com a equipe de vinhos do Paladar, no Emiliano, na segunda da semana passada.

Ao longo da refeição, Marcel Miwa e eu ficamos sabendo que ele não aprecia champanhe, espumantes, nem vinhos doces, embora represente marcas dos três. E que só bebe, pouco, às refeições, em geral vinho tinto, pois não gosta de destilados ou cerveja. “Quem sabe beber, sabe viver”, aprendeu com o pai.

Angelo Gaja. FOTO: Daniela Souza/Estadão

Nas palavras de Gaia, sua filha mais velha e provável sucessora, Angelo “parece estar o tempo todo no palco”. E é ele quem comanda o espetáculo, como deixou claro logo na chegada. O porte firme, quase marcial, acentuado pelo elegante terno preto com camisa esporte de manga longa da mesma cor, não entrega seus 74 anos. Aceitou posar com uma taça de vinho na mão (não gosta desse tipo de foto), mas só depois de deixar claro que o vinho na taça não poderia ser um dos que produz, pois esses “são para a mesa e não para fotos”.

Como descobrimos rapidamente, não se entrevista Angelo Gaja. Na verdade, é ele que vai colocando os temas que julga importante abordar. “Provem! Provem enquanto eu falo.” E, frequentemente, passa de entrevistado a entrevistador. Da manga, por exemplo, quis saber onde é cultivada e como é a árvore. E mostrou grande interesse pela Amazônia.

Hoje, divide as viagens internacionais com Gaia, responsável pelas exportações (80% das vendas). Mas já houve tempo em que quase não parava em casa. Por isso, com o habitual humor, contou que, quando sua mulher ficou grávida do primeiro filho homem (depois de Gaia veio Rossana), muita gente em Barbaresco perguntou se Giovanni havia sido gerado “por fax”.

Como bom italiano, Angelo tem certo pendor para o drama, como quando descreve as diferenças entre filhos e filhas. Na Itália, diz ele, o filho homem é sempre o continuador do pai, mas quer fazer as coisas a sua maneira, “quer matar o pai”. Já as filhas, ao contrário, pedem conselhos. “Mas depois fazem o que querem.” Em que pese a descrição, que lembra o enredo de uma ópera de Puccini, ele acredita que a transição geracional na Gaja já foi superada.

ANGELO GAJA

Não por acaso, ele foi nomeado “Rei do Barbaresco” pela imprensa internacional. A história desse vinho do Piemonte pode ser dividida em a.A. e d.A. Antes de Angelo, o Barbaresco era apenas o irmão mais moço do nobre Barolo (ambos são feitos com a uva Nebbiolo). Depois que Angelo assumiu o comando da vinícola da família, introduziu inovações que, à época (décadas de 1960 e 70), se chocaram com as práticas seculares da região. Como a poda em verde dos vinhedos, a fermentação malolática com controle de temperatura ou o uso das caras barricas novas de carvalho francês. Resultado: hoje, os Barbarescos (pelo menos os da Gaja) têm preços no mínimo equivalentes aos dos Barolos mais renomados.

Quer repetir a prova em casa?

O menu vai ser fácil de fazer em casa: é só descascar e cortar a manga. Quanto aos vinhos, você terá de desembolsar R$ 2.898,95 para tomar todos de uma vez. Estão à venda na Mistral (tel. 3372-3400).

Ca’Marcanda Camarcanda 2008 (R$ 651,50). Toscano com receita de Bordeaux. Intenso no aroma, taninos finos, acidez e estrutura.

Pieve Santa Restituta Brunello di Montalcino Sugarille 2000 (R$ 754,55). Expressão austera de um vinhedo, entrando na maturidade. A acidez vai garantir evolução.

Rossj-Bass 2010 (R$ 395,94). Fácil, preciso. Tem a acidez da Sauvignon Blanc; mel e pera da Chardonnay e baunilha da barrica.

Barbaresco 2008 (R$ 1.096,90). Força e elegância. Referência do portfólio de Gaja. Combina estrutura e taninos fino e intensos.

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 27/3/2014

Ficou com água na boca?