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Argentina explora diferença de solos na produção de Malbec

Região de Mendoza está investindo em Malbecs mais delicados e no uso de diferentes uvas

16 março 2016 | 12:32 por Eric Asimov

The New York Times

De Tunuyán, Argentina

A vista do Vinhedo Adrianna, da Bodega Catena Zapata, a quase 1.524 metros de altitude no vale do Uco, ao sul de Mendoza, é absolutamente magnífica.

A Cordilheira dos Andes coberta de neve domina os céus, pairando acima do vinhedo como um Gulliver vestido de branco em frente ao vale dos liliputianos. Uma corrente de vento flui incessantemente das montanhas, agitando as folhas das videiras como um rio borbulhante.

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A Cordilheira dos Andes paira imponente na vista do Vinhedo Adrianna.

A Cordilheira dos Andes paira imponente na vista do Vinhedo Adrianna. Foto: Horacio Paone|NYT

Com dificuldade, voltei meu olhar para uma calicata, um poço de teste cavado na terra entre filas de videiras de Chardonnay. Ele revelou camadas de solo calcário bege pálido, intercaladas por pedras brancas grandes e lisas. Nas proximidades, havia outro poço, mas seu solo era completamente diferente: calcário permeado por pequenos pedregulhos. Do outro lado vi mais um poço, sem pedra calcária, apenas argila.

Os vinhos produzidos em cada um são muito diferentes: o Chardonnay White Bones 2012 (R$ 701,80 na Mistral) do solo calcário é seco e cítrico, com aromas e sabores de ervas e minerais; o Chardonnay White Stones 2012 (R$ 522,29 na Mistral) do solo rochoso tem maior acidez, sabor picante e suculento e uma salinidade mais intensa. E as uvas do solo de argila são usadas no Chardonnay Catena Alta (R$ 237,22 na Mistral), que tem boa acidez, mas é frutado e menos mineral.

Entre os bebedores de vinho, a Argentina é conhecida principalmente por seus Malbecs. Esse tinto amigável, geralmente com um estilo rico dominado por frutas e carvalho, tornou-se quase que uma marca genérica, o equivalente tinto do Pinot Grigio. Em bares e restaurantes por todos os Estados Unidos, os consumidores que procuram um vinho impessoal pedem um copo de Malbec.

Mas um segmento significativo dos bebedores não dá muita importância a esse vinho e, por extensão, à Argentina.

São os consumidores de vanguarda, que agora se interessam por sutileza e harmonia. Eles lideram um reexame das uvas que já foram consideradas muito obscuras e de regiões normalmente ignoradas; valorizam vinhos que expressam o terroir. Para eles, o Malbec argentino pode muito bem ser o Shiraz australiano.

No entanto, assim como a Austrália foi estereotipada – talvez injustamente – como fonte de vinhos pesados e frutados, a Argentina também foi rotulada pelo estilo popular do Malbec. Embora a maioria dos vinhos da região de Mendoza, o centro da produção na Argentina, continue a ser feita nesse estilo frutado, um número cada vez maior de produtores está tentando ir mais além, com produtos que explorem as nuances do terroir de Mendoza.

Alguns tentam fazer Malbecs melhores e mais delicados; outros começam a usar uvas diferentes, como Chenin Blanc, Cabernet Franc, Pinot Noir e Chardonnay. E há aqueles, como a Catena Zapata, fazendo os dois.

Assim, como descobri em uma viagem em dezembro, todos os vinhedos de Mendoza estão pontilhados por calicatas, poços escavados no solo em parte para educar os visitantes, talvez, mas também os próprios produtores, que por tanto tempo se preocuparam mais com a facilidade de cultivo e com a quantidade da produção do que com a qualidade dos vinhos ou a particularidade dos terroirs. É fácil imaginar os monges cistercienses fazendo algo semelhante quando catalogaram os terroirs da Borgonha há 500 anos.

O processo tem sido um desafio porque os solos de Mendoza são incrivelmente complicados. No Vinhedo Adrianna, e em muitos outros lugares, ele muda radicalmente de uma fila de videiras para a próxima, às vezes em questão de metros.

Vinícola Altos Las Hormigas pretende fazer vinhos expressivos.

Vinícola Altos Las Hormigas pretende fazer vinhos expressivos. Foto: Horacio Paone|NYT

A geologia da região se formou há muitas eras, quando um antigo oceano cobriu o território entre a Patagônia e o Peru, deixando para trás ricos depósitos de calcário. Ao longo de vários milênios, os rios dos Andes depositaram rochas e sedimentos, deixando solos argilosos profundos, pedras e cascalho em muitas combinações diferentes.

"Ainda há a pedra calcária pura nos Andes e parte dela chega até Mendoza. Você pode ter a versão integral em um canto, mas nada depois de alguns metros", disse Pedro Parra, geólogo do Chile que se especializou em terroirs e é sócio da Altos Las Hormigas, produtora de Mendoza que pretende fazer vinhos expressivos, como o Malbec Clasico Las Hormigas 2014 (R$ 84 na World Wine) e o Malbec Reserva 2012 (R$ 203,20 na World Wine). 

Para Parra e seus colegas, a rocha calcária é o santo graal, a fonte geradora da melhor salinidade. Ele a busca incansavelmente por Mendoza, cavando poços, analisando amostras de solo, correlacionando suas descobertas com o que descobre nos vinhos.

A Pulenta Estate possui vinhedos com solos de areia, cascalho e argila.

A Pulenta Estate possui vinhedos com solos de areia, cascalho e argila. Foto: Horacio Paone|NYT

As diferenças podem ser surpreendentes. A Pulenta Estate, excelente produtora em Luján de Cuyo, região nos arredores da cidade de Mendoza com boas vinícolas, possui vinhedos basicamente de areia, cascalho e argila e é dona de um vinhedo mais ao sul do vale do Uco, com depósitos de pedra calcária.

O Malbec do vinhedo de Luján de Cuyo é agradavelmente frutado e aveludado (La Flor de Pulenta Malbec 2014R$ 87 na Grand Cru, estagia por seis meses em barricas de carvalho de segundo ou terceiro uso). O do vale do Uco é estruturado e com bastante tanino, com a fruta permeada por aromas e sabores de grafite. Pulenta combina as duas para fazer seu Estate Malbec X Gran (R$ 289 na Grand Cru,  estagia por 18 meses em barricas de carvalho francês), mas prefiro o solo do vale do Uco.

De fato, os Malbecs de Mendoza que provei, originários de solos de argila, especialmente se o solo foi altamente irrigado e fertilizado, eram escuros, doces, frutados e com alto teor alcoólico. Tristemente familiares. Os do solo rochoso, muitas vezes com algum calcário, tendiam a ser mais estruturados, precisos e matizados.

Parra tem uma visão maniqueísta de terroir. "É uma luta entre pedra e argila. A argila é associada a vinhos populares; as pedras, aos vinhos verticais e estruturados. Ou você gosta do vinho de um ou de outro", disse ele, ao lado de um poço em um vinhedo do vale do Uco, entre as cidades de La Consulta e Eugenio Bustos.

Catena Zapata aposta em vinhos produzidos em climas mais frios. Na foto, sua adega em Agrelo.

Catena Zapata aposta em vinhos produzidos em climas mais frios. Na foto, sua adega em Agrelo. Foto: Horacio Paone|NYT

Para a Catena Zapata, as coisas nunca foram tão simples. Nicolás Catena, que assumiu o negócio familiar, na década de 60, foi pioneiro do movimento em direção à maior altitude dos vinhedos nos anos 80 e 90, depois que se convenceu que seus vinhos poderiam alcançar graça e finesse se fossem produzidos em climas mais frios do que o das terras mais baixas da família, próximas da cidade de Mendoza. Foi somente após o plantio do Vinhedo Adrianna, o mais alto da Catena Zapata no vale do Uco, que a vinícola começou a analisar a complexidade de seu solo.

Em 1995, a filha de Nicolás, Laura Catena, criou o Instituto Catena, para pesquisa e desenvolvimento, que dá uma atenção especial ao Adrianna. Laura, que agora é diretora-geral da Catena Zapata, acredita que os solos são apenas uma parte da fórmula para fazer um vinho gracioso e matizado, juntamente com o clima fresco e seco de altitude elevada e a qualidade da luz. "Precisamos dos dois elementos para fazer vinhos como os do Adrianna: clima frio e solos especiais", disse ela.

Laura Catena é a criadora do Instituto Catena, que pesquisa solos e climas da região.

Laura Catena é a criadora do Instituto Catena, que pesquisa solos e climas da região. Foto: Horacio Paone|The New York Times

Ao passar pelo vinhedo, Parra, o geólogo, mostrou que as áreas planas das vinícolas, principalmente de argila e solos aluviais, possuíam muitas vinhas, mas que as encostas íngremes, compostas de calcário rochoso e arenoso, estavam nuas. "A tradição é plantar nos platôs, mas o grand cru está nas belas encostas, onde não há nada plantado", lamentou. "Talvez esse seja o futuro, Argentina 2020."

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