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Saca essa rolha

Isabelle Moreira Lima

As minas do vinho português

Conheça o D'Uva, grupo de oito mulheres envolvidas na produção de vinhos em Portugal que quer mostrar a diversidade vinícola do país

01 fevereiro 2017 | 17:47 por Isabelle Moreira Lima

Elas dizem que não há qualquer motivação feminista por trás de sua união, mas é difícil acreditar na afirmação quando se conhece as integrantes do grupo português D’Uva, que reúne oito mulheres envolvidas na produção de vinho em Portugal. Suas inquietações e personalidades fortes e distintas – como também a de seus vinhos – evocam um universo de mulheres independentes e empoderadas. 

Essas portuguesas encontraram-se pela primeira vez há pouco mais de um ano graças ao acaso: figuras emblemáticas de suas vinícolas, elas deveriam estar juntas na capa de uma revista. Ali, muitas se conheceram e descobriram afinidades – a maioria tentou fugir do mundo do vinho e ingressou em outras graduações, como história, jornalismo, design, para anos depois voltar ao vinho.

Quem faz o D’Uva. Catarina Vieira, Maria Manuel Maia, Luisa Amorim, Rita Nabeiro, Rita Fino, Mafalda Guedes, Francisca Van Zeller e Rita Pinto

Quem faz o D’Uva. Catarina Vieira, Maria Manuel Maia, Luisa Amorim, Rita Nabeiro, Rita Fino, Mafalda Guedes, Francisca Van Zeller e Rita Pinto Foto: Divulgação

Acabaram por marcar um jantar, passaram a se encontrar mais frequentemente e a trocar experiências até finalmente concluir que juntas ficam mais fortes. Nascia o D’Uva, uma espécie de Douro Boys 2.0, que em vez de englobar apenas uma região reúne mulheres de todo o país (Alentejo, Lisboa e Douro) que atuam em diferentes partes do processo vitivinícola, da engenharia agrícola à enologia, passando pela gestão. 

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A ideia do grupo é usar suas porta-vozes para chamar a atenção para a diversidade, promover o vinho português no exterior e cortar custos. Assim, têm uma agenda comum de eventos e degustações. Uma entrevista com algumas das integrantes no Porto, no ano passado, mostrou que a estratégia é eficaz. Apaixonadas, são mais que hábeis em atrair fãs para os vinhos; são hipnotizantes. (Quem fala melhor de um filho que a mãe?) Conseguem vender seus vinhos como ninguém, contar a história de gerações por trás de suas casas e levar energia e perspicácia para uma indústria vista por muitos como masculina e antiquada. E, de quebra, ainda usam da consultoria umas das outras. Um exemplo foi a conversa entre Francisca Van Zeller, da Quinta Vale D. Maria, que tentava escolher as novas etiquetas de uma linha de vinhos e pediu ajuda a Rita Nabeiro, da Adega Mayor, designer de formação e assertiva em sua opinião. Não sobraram dúvidas.

Abaixo, você conhece um pouco mais sobre as D’Uva e seus vinhos.

CATARINA, A GRANDE

 

  Foto: Divulgação

Embora carregue certa calma no olhar, Catarina Vieira traduz a expressão “ligada no 220”: é energia pura. Agrônoma e enóloga, assumiu a Herdade do Rocim, no Alentejo, em 2002. Ajudou a erguer a adega da casa e hoje é a responsável também por sua gestão. Interessada em resgatar práticas antigas, como a pisa a pé e as ânforas, empresta sua vivacidade a seus vinhos. É o caso do Mariana Branco (R$ 75,90 na World Wine), um corte de Antão Vaz, Alvarinho e Arinto, rico em aromas florais (flor de laranjeira), que homenageia a freira autora das Cartas Portuguesas; e o Herdade do Rocim (R$ 123,20 na World Wine), corte tradicional de Touriga Nacional, Aragonez e Alicante Bouchez, com aromas mentolados, bom corpo e elegância.

FRANCISCA, DA 15ª GERAÇÃO

 

  Foto: Divulgação

Faz sentido que Francisca Van Zeller tenha se interessado por história, sua primeira graduação, afinal a narrativa de sua família confunde-se com a do Douro e a do Porto, região onde lidam com vinho desde 1620, há 15 gerações. Venderam a Quinta do Noval em 1993 e fundaram a Quinta Vale D. Maria em 1996, uma espécie de representante da Borgonha duriense: “Pensamos em castas únicas, sítio e contexto”, explica, com a eloquência que lhe é peculiar. Concluídos os estudos, ela voltou-se às raízes e mergulhou no negócio familiar, onde hoje é responsável por promoção e vendas, além de ter participação na enologia. Dois bons exemplos do que é feito lá são o Rufo Branco (R$ 106,70 na World Wine), que une o aroma da Arinto, a mineralidade da Codego e a acidez da Rabigato em um vinho ideal para o verão, e o Quinta Vale D. Maria 2013 (R$ 294,46 na World Wine), um vinho feito ao estilo do Douro com 41 castas, alta acidez e elegância pura. 

LUÍSA, VINHO E HOSPITALIDADE

 

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A família de Luísa Amorim talvez seja mais conhecida pelas rolhas da Corticeria Amorim, fornecedora de grandes vinícolas. Mas é a Quinta Nova Nossa Senhora do Carmo, que ela dirige com graça e esmero, que merece atenção aqui. Se tiver a chance de dormir uma única noite no Douro, que seja lá, um hotel-de-charme-vinícola como há poucos (e um café da manhã próximo ao celestial). No jantar, é possível provar rótulos como o Quinta Nova Reserva 2015 (R$ 253 na Super Adega), uma explosão de fruta madura e especiarias bem estruturado, elegante e macio. 

MAFALDA, MESTRE DA MULTITAREFA 

 

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O encontro com Mafalda Guedes, quarta geração da família que comanda a gigante Sogrape (detentora de marcas célebres como Casa Ferreirinha), é um resumo do que é ser mulher hoje: ainda na licença-maternidade, deixou o bebê de três meses com a mãe para visitar a empresa e conceder a entrevista, numa operação multitarefas que diz muito sobre o grupo de mulheres do qual faz parte. Na Sogrape, é responsável pela gestão de mercados, mas com as D’Uva representa a Herdade do Peso, que produz o Herdade do Peso Colheita (R$ 159 na Zahil), um corte que foge do comum e remete ao novo ao unir Syrah ao duo português de Aragonês e Alicante Bouschet.

MARIA MANUEL, 40ºC

 

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No trajeto entre o Porto e o Douro, ao dirigir, Maria Manuel planejava os detalhes da vindima que iniciaria na manhã seguinte, preocupada com a previsão de máxima de 40°C durante a tarde. Engenheira agrônoma, ela sabia que seria difícil, mas não impossível. Armou-se de galões de água e se programou para iniciar a colheita às 6h, o capítulo mais importante de seu ano já há uma década, quando entrou para o time de gestão da Poças Júnior com os primos, o pai e o tio. Mais célebre pelos Porto, como o Tawny 10 anos  (R$ 199 na Cantu), ótimo custo-benefício do estilo mais caramelado, faz belos tintos como o Vale de Cavalos 2012 (R$ 110 na Cantu), um Douro mais leve que o esperado, fresco e com taninos finos.

RITA NABEIRO, VINHO E DESENHO

 

  Foto: Divulgação

Nascida em uma família em que o café sempre foi o principal negócio (são donos do Delta Cafés), Rita Nabeiro chegou a atuar como designer em agências de publicidade. Entrou para o mundo do vinho quando a família expandiu seus negócios e criou a Adega Mayor, em 2007: nada mais natural que a designer da família desenhasse os rótulos. Hoje, faz bem mais que isso, está encarregada da direção-geral da vinícola que tem promovido ousadias como um Pinot Noir do Alentejo. “Meu avô é minha maior referência, tem 

disponibilidade enorme, escuta a todos. Pensando nele, passei a acordar mais cedo”, conta. No Brasil, a importação (feita pela própria Delta Cafés) ainda é incipiente. Por enquanto, é possível encontrar apenas o vinho de entrada Caiado (R$ 88 na Taberna da 

Esquina), jovem e frutado e excelente como aperitivo. Está prometida para este ano a chegada dos vinhos mais complexos, como o Pai Chão.

RITA PINTO, DAS GIGANTES À VILA 

 

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Rita Cardoso Pinto já tinha rodado por multinacionais como Unilever e Panrico antes de se dedicar ao mundo dos vinhos. Foi em 2006 que seus olhos se voltaram para a propriedade da família em Alenquer, vila portuguesa no distrito de Lisboa, e ela decidiu ingressar no mestrado em viticultura e enologia. Hoje, dirige a Quinta do Pinto, de onde sai o festejado branco Quinta do Pinto Estate Collection 2015 (R$ 90 na Asa Gourmet), frescor puro, com agradáveis toques verdeais, excelente para acompanhar pratos levíssimos de verão, saladas e peixes. 

RITA FINO E A AVENTURA ALENTEJANA 

 

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Há 17 anos, Rita Fino iniciou sua aventura vitivinícola, quando, saída do colégio interno na Inglaterra, foi a Portalegre, no Alentejo, para a propriedade da família, o Monte da Penha. Trabalhou por seis meses no campo e na vinícola, limpando pipas e pregando etiquetas nas garrafas à mão. Ao fim do período, o pai a desafiou a vender a produção no Algarve. A missão foi cumprida em um dia. A anedota é a tradução da paixão que nasceu ali e a move até hoje. Responsável pelo marketing e pelas vendas do Monte da Penha, Rita tem no seu portfólio vinhos alentejanos comme il faut, como o Monte da Penha Reserva 2007 (R$ 208 na Vinea), um tinto cheio de fruta, redondo e de taninos macios.

 

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