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As principais tendências dos vinhos sul-americanos

Grandes e pequenas vinícolas buscam diferentes perfis das castas mais célebres nos países do Cone Sul. É o que mostra o guia 'Descorchados', lançado nesta semana em São Paulo, principal termômetro de tendências da região

12 abril 2017 | 21:56 por Isabelle Moreira Lima

O brasileiro está se libertando da doçura. Pelo menos quando o assunto são os vinhos. Os espumantes Nature – feitos sem adição de açúcar na segunda fermentação – são os melhores espumantes que o Brasil faz no momento. E os Brut, a “classe média” dos vinhos nacionais, estão cada dia melhores.

A Argentina está deixando de lado os Malbecs sobremaduros, adocicados e potentes. Muitos produtores estão colhendo a uva mais cedo e alcançando um nível de acidez impensado, inclusive nas terras mais quentes e desérticas do norte do país. 

As vinícolas gigantes do Chile, espertas, estão tirando lições de pequenos produtores e seus vinhos autorais e o resultado é que desencanaram de produzir apenas o “comercialzão” e já ousam fazer Cabernet Sauvignon de terroir, sem traço de madeira, quase leve. 

E o Uruguai aprendeu a fazer “Tannat de verão”, por meio da maceração carbônica, para se beber à piscina. E ele convive em plena harmonia com os vinhos de caráter rústico.

 

  Foto: Guia Descorchados|Divulgação

Essas são as principais tendências do vinho na Argentina, Brasil, Chile e Uruguai, reunidas – entre outras – pelo guia Descorchados 2017 (Inner Editora, 1085 páginas, R$ 139 ), que foi lançado em português na última terça-feira (11) em São Paulo. A publicação é o maior termômetro de tendências do que está acontecendo no vinho do Cone Sul – ou “uma fotografia em grande angular” da produção dos quatro países, como observou seu organizador, Patricio Tapia. O crítico chileno é um dos maiores especialistas em vinho na região e seu guia, que está na 19ª edição, tem bastante prestígio.

A nova edição mostra ainda que o Cone Sul oferece uma enorme variedade de vinhos brancos (dos super leves, frescos e frutados aos estruturados e redondos, passando pelos quase salinos). E que a Cabernet Franc é a uva amiga do terroir, que se mostra complexa, com seus toques herbáceos e alto potencial gastronômico, seja em Gualtallary na Argentina, seja na Costa Atlântica do Uruguai.

Para a edição corrente, foram degustados quatro mil vinhos, nos quatro países em dois meses e duas semanas. No evento que marcou o lançamento da publicação, uma prova fechada reuniu 17 deles (alguns tiveram que viajar na mala de seus criadores). Foram três “flights”, como são chamadas as pequenas degustações, formando diversos panoramas que apresentavam, invariavelmente, uma vinícola pequena, como é tradição do guia, que sempre privilegiou os miúdos e os “enfant terribles”. Mas, desta vez, as provas incluíram também vinhos de gigantes em cada flight. Questionado sobre a mudança de perfil, Tapia respondeu que se fizer sempre igual “fica chato”, algo que quase soa como um conselho para os produtores. 

Vista da Cave Geisse, em Pinto Bandeira (RS)

Vista da Cave Geisse, em Pinto Bandeira (RS) Foto: Vinícola Cave Geisse|Divulgação

 

Um Brasil de borbulhas

Da vinícola na foto acima sai o melhor vinho brasileiro, de acordo com o guia Descorchados 2017: o espumante Cave Geisse Terroir Nature 2011, de Pinto Bandeira. É feito com partes iguais de Chardonnay e Pinot Noir, que ficam por três anos em contato com as leveduras. No nariz, tem aromas mais intensos de fruta e mais suaves de panificação; na boca, é fresco e redondo com perlage (as bolhas) finíssimo. Alcançou 93 pontos.

A escolha, embora não tenha sido uma grande surpresa – Cave Geisse é uma das queridinhas dos especialistas –, marca a moda dos espumantes Nature, que o guia considera a melhor porta de entrada do vinho brasileiro por ser onde os enólogos mais capricham e uma bela “amostra do potencial” do País. Por outro lado, de 233 espumantes provados neste ano, apenas 29 eram Nature e apenas nove foram recomendados no livro.

O universo dos Brut é mais vasto: são 84 rótulos incluídos na edição com preços que vão de R$ 23 a R$ 275. No Brasil, o guia só avalia espumantes.

Os melhores espumantes brasileiros

93 pontos: Cave Geisse Terroir Nature 2011 (R$ 165 na loja vinícola) 

92: La Belle Blanche Brut Rosé (R$ 129,90 na loja da vinícola)

92: Estrelas do Brasil Brut Rosé (R$ 60 na loja vinícola)

92: Valduga 130 Brut Blanc de Noir 2013 (R$ 150,66 na loja vinícola)

92: Casa Valduga Gran Nature 60 Meses 2011 (R$ 151,04 na vinícola)

92: Estrelas do Brasil Nature ISV12010

92: Cave Geisse Blanc de Blancs 2013 (R$ 105 na loja vinícola)

92: Hermann Lírica Crua (R$ 76,40 na Decanter)

92: Pizzato Vertigo Nature 2014 (R$ 165 na Cave Nacional)

92: Pizzato Nature 2013

92: Vallontano LH Zanini Extra Brut 2012 (R$ 99,50 na Mistral)

92: X Decima .Yoo Brut Nature Edição Especial 2013

92: X Decima Nature Tradicional 2012

92: X Decima .Yoo Brut Rosé Ed. Especial 2014

92: Domno do Brasil Ponto Nero Moscatel Espumante (R$ 49,50 na Vinhos e Vinhos)

 

  Foto: Guia Descorchados|Divulgação

Mil caras da Malbec

A introdução da seção sobre Argentina do guia Descorchados versa sobre a incrível capacidade dos argentinos de, em questão de minutos, montar um churrasco delicioso e farto. A mesma lógica pode explicar como, no espaço de dez anos, transformaram a Malbec em uma marca mundial. Acontece que, com o passar dos anos, esta marca se desgastou e virou sinônimo de vinhos sobremaduros, doces, pesados, cansativos. O que alguns projetos pontuais estão mostrando é que está na hora de esquecer tudo isso porque a Malbec quer se reinventar, ser mais elegante, limpa e, principalmente, diversa, apostando na amplificação do que o terroir tem a oferecer. Um exemplo é o Gen del Alma Seminare Malbec 2015, cheio de acidez, muito distante do veludo doce. Outra tendência importante do país é o início de uma valorização daquela que seria sua cepa mais antiga, a Criolla, gêmea da chilena País, que já faz a cabeça da hipsterlândia enófila de lá há alguns anos. Na Argentina, ela acaba de entrar no radar em projetos autorais.

Os melhores tintos argentinos

99 pontos: Gen del Alma Seminare Malbec 2015 

98: Trapiche Terroir Series Ambrosia Malbec 2013 

98: Zorzal Wines Piantao Cabernet Franc 2013

98: Catena Zapata Adrianna Vineyard Mundus Bacillus Terrae Malbec 2013 

98: Carmelo Patti Malbec 2013

97: Grand Enemigo S. Vineyard Gualtallary Cabernet Franc 2013

97: Cadus Wines Appellation Gualtallary Malbec 2014

97: Superuco Calcáreo Río de los Chacayes Malbec 2015

97: Zuccardi Finca Piedra Infinita Malbec 2013

97: Achával Ferrer Finca Altamira Malbec 2014

97: Carmelo Patti Cabernet Franc 2013

97: Noemia j. Alberto Malbec 2015 (R$ 237,59 na Vinci)

97: Bodega Teho Corte Malbec C. Sauvignon P. Verdot Tempranillo Syrah 2014

97: Matervini Piedras Viejas Malbec 2014

 

Chile em busca de frescor

Na imagem da capa, usamos uma garrafa ao estilo da Borgonha para falar de Cabernet Sauvignon. Se você é dos mais rigorosos e já estava marcando o erro, porque a uva lá é a Pinot Noir, saiba que foi proposital e que a degustação de lançamento do Descorchados incluiu o Santa Carolina Domen Cabernet Sauvignon 2015, que é redondo e macio como nenhum Cabernet, vem na tal garrafa e, segundo seu próprio criador, o enólogo Andrés Caballero, “propõe uma cara distinta da cepa e nos ajuda a aprofundar nas suas fronteiras”. A inclusão do vinho entre os destaques é sintomática de um movimento corrente de recusa à madeira e colheita antecipada, tudo em busca de frescor. Sobre a tendência, Patricio Tapia diz que se antes se fazia chocolate recheado com doce de amoras, o que se quer hoje são as ervas, o verde. Esta atitude, abraçada por pequenos produtores desde o início, foi adotada por enormes vinícolas, como a própria Santa Carolina. Nota-se também, pela seleção do guia, que a Pinot Noir passa por um tratamento diferente no país que tenta tirar os aromas de fruta dos holofotes para trabalhar sua estrutura. Por fim, entre as regiões que brilham está Itata – grave bem este nome –, no sul do Chile, que mostra-se como um diamante bruto que começa a ser lapidado por enólogos de outras áreas.

Os melhores brancos chilenos

97 pontos: Cono Sur 20 Barrels El Centinela Estate S. Blanc 2016 (R$ 189 na La Pastina)

96: Bodegas RE En Re Do 2016 

96: Casa Marín Cipreses S. Blanc 2016 (R$ 249 na Zahil)

96: Concha Y Toro Terrunyo S. Blanc 2016 (R$ 198 na Bacco’s)

96: Cono Sur 20 Barrels El Centinela Estate Chardonnay 2015

96: De Martino Single Vineyard Quebrada Seca Chardonnay 2014

96: Errázuriz Las Pizarras Chardonnay 2015 (R$ 254 na Vinci)

96: Cenizas de Laberinto S. Blanc 2016

96: Matetic EQ S. Blanc 2016 (R$ 99 na Grand Cru)

96: Tabalí Talinay S. Blanc 2016 

96: Undurraga TH Lo Abarca S. Blanc 2015 (R$ 149 na Boccati)

 

  Foto: Guia Descorchados|Divulgação

 

Vinho da costa e de piscina

Para entender o Uruguai hoje há de se ter em mente duas palavras-chave: Tannat e mar. A primeira, a uva primordial do país, sempre tida como bruta e indomável, parece que está sendo finalmente desmistificada: hoje há Tannat bruto, adstringente, grudento e mastigável; há Tannat trabalhado, lapidado e polido; e até Tannat leve, suquinho, refrescante, para se tomar à piscina. A “mágica” ocorreu graças à experimentação que levou à técnica de maceração carbônica (fermentação de uvas inteiras em ambiente anaeróbio, ou seja, sem ar). O resultado, assim como ocorreu nos países vizinhos, é mostrar que uma casta não é prisioneira de um estilo. Melhor para o bom bebedor, que pode variar de acordo com a ocasião.

A segunda palavra, mar, é uma das maiores revelações do país. Explicando: a influência do Atlântico tem feito maravilhas para grandes e pequenos projetos na costa uruguaia. Entre os destaques, há vinícolas pequenas como Alto de la Ballena e a Viñedos de los Vientos (que apresentou um Tannat feito “apenas com uvas, como se faz em casa” na prova de lançamento), e grandes como as vinícolas Bodega Garzón, Família Deicas e Bouza. Cepas brancas, entre elas a Albariño e a Sauvignon Blanc e as tintas como Pinot Noir e a Cabernet Franc cultivadas na região costeira mostram altíssimo potencial para fazer grandes vinhos.

Os melhores tintos uruguaios

95 pontos: Bodegas Carrau Amat Tannat 2011 (R$ 233 na Zahil)

94: Bodega Alto de la Ballena Cetus Syrah 2013 (R$ 523,66 na Vinhos Mundi)

94: Bodega Bouza B6 parcela Única Tannat 2015 (R$ 334,40 na Decanter)

94: Familia Deicas Domaine Castelar Tannat 2015

94: Familia Deicas Cru D’Exception Malbec 2013

94: Familia Deicas Tannat 2015

94: Familia Deicas Massimo Deicas Tannat 2013

94: Pizzorno Family Estates Exclusive Tannat 2015

94: Pizzorno Family Estates Primo 94:Tannat Malbec Merlot Petit Verdot 2013

94: Viñedo de los Vientos Eolo Tannat Ruby Cabernet 2012

 

Nascido para ser subjetivo 

 

  Foto: Guia Descorchados|Divulgação

Em 1995, o jovem jornalista Patrício Tapia, com 20 e poucos anos, escrevia sobre bares e vida noturna no jornal chileno El Mercurio quando se deparou com a oportunidade de ter uma promoção: a crítica de vinhos. Não sabia nada sobre o assunto, mas o dinheiro era bom. Aceitou o desafio e deu início a uma aventura que o transformaria em um estudioso (cursou enologia na Universidade de Bordeaux) e em um dos críticos mais respeitados da América do Sul. Em 1998, ao avaliar que o único guia de vinhos do Chile era feito pelas próprias vinícolas com informações muito técnicas e nada isentas, Tapia idealizou o Descorchados, que já nasceu com o objetivo de ser o contrário de objetivo. Quase 20 anos depois, o guia hoje trata de quatro países e conta com uma equipe de degustadores alocados em cada um deles. No Brasil, Eduardo Milan coordena as provas.

SERVIÇO

Descorchados 2017

Autor: Patricio Tapia

Editora: Inner (lojainner.com.br)

Preço: R$ 139 (1.088 págs.)

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