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Bordeaux da esquerda e da direita

A mítica região francesa não produz apenas vinhos para milionários. Há tintos e brancos de lá vendidos aqui na faixa dos R$ 100. Provamos oito tintos, quatro de cada uma das margens do Gironde. E todos foram bem na prova

09 julho 2014 | 20:34 por redacaopaladar

Por Guilherme Velloso e Marcel Miwa

Bordeaux produz anualmente perto de 700 milhões de garrafas de vinho. São milhares de rótulos distribuídos por mais de 50 denominações. Mas, quando se fala nessa região mítica, o que primeiro vem à mente de todo enófilo são nomes como Margaux, Mouton ou Lafite, na margem esquerda do estuário do Gironde, e Ausone, Cheval Blanc e Pétrus na margem direita. São vinhos vendidos a preços estratosféricos para magnatas do petróleo, milionários norte e sul-americanos e, mais recentemente, novos-ricos chineses.

Como nenhum desses vinhos excepcionais está ao alcance do bolso dos mortais comuns e a região faz também ótimos vinhos a preços razoáveis, o Paladar resolveu fazer uma prova com rótulos de bons preços de ambas as margens do Gironde. Comparamos os chamados Bordeaux abordables (acessíveis) no mercado brasileiro.

Selecionamos quatro vinhos de diferentes denominações em cada margem – na esquerda, a Cabernet Sauvignon predomina no corte, papel reservado à Merlot na margem direita. Todos os vinhos escolhidos são das mesmas safras, 2009 e 2010, ambas consideradas de altíssima qualidade.

Além de comparar rótulos dos dois lados do Gironde, a ideia da prova foi avaliar até que ponto vale a pena, de fato, comprar Bordeaux por preços abaixo de R$ 100. Só pelo nome ou pelo que tem na garrafa?

A degustação foi feita às cegas (como é praxe) no restaurante Bravin e teve como convidado o médico Gustavo Andrade de Paulo, diretor e ex-presidente da Associação Brasileira de Sommeliers de São Paulo.

ARTE: Fernando Sciarra/Estadão

Conclusões da prova

1. Todos os vinhos apresentaram bom padrão de qualidade em sua faixa de preço. A não ser por pequenas variações (mais ou menos fruta, taninos mais ou menos rústicos), estavam homogêneos. Em nenhum deles havia, por exemplo, uso excessivo de carvalho.

2. Não notamos diferenças marcantes entre os vinhos das duas margens e foi difícil identificá-los às cegas, até porque, à exceção de um (o Ronan by Clinet, 100% Merlot), os demais eram cortes com presença tanto de Cabernet Sauvignon como de Merlot.

3. Embora possam ser guardados por mais um ou dois anos, estão prontos para beber.

4. O destaque na prova foi o Château Haura 2009 (Graves), confirmando a tese de que o nome de um produtor confiável na garrafa (no caso, o de Denis Dubourdieu) é sempre uma boa indicação.

5. Pelo critério preço/qualidade, a boa surpresa foi o Château Lalande 2010, um cru bourgeois da denominação Listrac-Médoc.

CHÂTEAU LA BRETONNIÈRE 2009 (CÔTES DE BLAYE)

R$ 84,90, na Casa do Porto

- 75% Merlot, 20% Cabernet Sauvignon, 5% Malbec

A tipicidade de Bordeaux estava presente pelos aromas de frutas negras frescas e cedro; apenas pecou por leve Austeridade dos taninos. Há frescor, fruta nítida, estrutura mediana e toque de especiarias no final (canela e baunilha). Melhora com a comida.

FOTOS: Fernando Sciarra/Estadão

RONAN BY CLINET 2009 (POMEROL)

R$ 115, na Vinos y Vinos

- 100% Merlot

O Bordeaux mais selvagem do painel. Boa pedida para quem conhece vinhos e quer ser surpreendido. Os taninos têm algumas arestas e os aromas são menos usuais (cravo, terra, ervas e lavanda). Ainda assim o conjunto é bastante atraente. Dentro do estilo mais potente e com mais notas de frutas negras, a predominância da Merlot é clara.

CHÂTEAU FRANC 2010 ST-ÉMILION GRAND CRU (SAINT-ÉMILION)

R$ 99, na Chez France

70% Merlot, 25% Cabernet Sauvignon, 5% Cabernet Franc

A amostra com menor interferência de madeira apresentou aromas de groselha e amora, com boa intensidade e nitidez. A textura é sedutora, macia, com taninos muito finos acompanhados pelas notas frutadas. No final aparece o aroma de cacau torrado e a potência alcoólica se mostra, mas sem incomodar. Um vinho franco, honesto. Um dos melhores da prova.

MAYNE SANSAC 2010 (SAINT-ÉMILION)

R$ 80, na Casa Santa Luzia

50% Merlot, 25% Cabernet Sauvignon, 25% Cabernet Franc

Eis um tinto bastante coerente. Os aromas são nítidos e dominados por frutas negras (ameixa e amora) bastante maduras, baunilha e madeira tostada. O álcool está bem controlado, no mesmo nível da acidez (mediana). Os taninos são finos com média intensidade e o final com mais tostados e aroma de cravo.

LÉGENDE R MÉDOC DE DOMAINES BARONS DE ROTHSCHILD 2010 (MÉDOC)

R$ 107,18, na Vinci

50% Cabernet Sauvignon, 50% Merlot

É um dos mais potentes do painel. Aromas de frutas negras maduras, baunilha e cacau. Os taninos são finos, levemente secantes no final, suportados por boa acidez e concentração. Bom vinho, mas não chega a empolgar.

CHÂTEAU HAURA 2009 (GRAVES)

R$ 112,17, na Casa Flora

60% Cabernet Sauvignon, 40% Merlot

É um dos mais caros do painel, mas a prova mostrou que o preço é proporcional à qualidade. Os aromas de frutas vermelhas maduras, cedro e leve eucalipto são intensos e nítidos. Os taninos são finos, com intensidade média,acompanhados por boa acidez e estrutura mediana. No final há leve nota terrosa com baunilha. Há intensidade, mas sem excesso de exuberância. É o vinho referência do painel.

CHÂTEAU LALANDE 2010 CRU BOURGEOIS (LISTRAC-MÉDOC)

R$ 88, na Casa Santa Luzia

60% Merlot, 30% Cabernet Sauvignon, 10% Petit Verdot

Predominam aromas de frutas vermelhas, especialmente framboesas. Mas nota-se também toffee e baunilha, nítidos e em equilíbrio. É um vinho fácil de beber, graças à ótima acidez e aos taninos finíssimos. O final é um pouco curto, mas as sutis notas de terra e canela ajudam na complexidade. Ficou muito próximo da classificação máxima.

CHÂTEAU PONTET BARRAIL 2009 (MÉDOC)

R$ 69, na Chez France

60% Cabernet Sauvignon, 40% Merlot

Fruta vermelha sobremadura, madeira antiga e chocolate ao leite dominam o nariz deste vinho. A textura é sedutora, macia e com taninos finos e acidez mediana. Um Bordeaux simples, correto e com final levemente herbal.

AVALIAÇÃO

Ótimo. O exemplo dentro do contexto do painel.

Bom. Muitas virtudes para a categoria.

Ok. Algumas virtudes dentro de sua categoria.

Bom. mas sem entusiasmar.

Regular. Apenas correto e sem defeitos.

Ruim. Vinho com problemas. Não recomendável.

ONDE COMPRAR

Casa Flora - 2842-5199

Casa do Porto - 3061-3003

Casa Santa Luzia - 3897-5000

Chez France - 0300-777-6262

Vinci - 3130-4500

Vinos y Vinos - 3156-8455

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 10/7/2014

Ficou com água na boca?