Paladar

Bebida

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Bordeaux de prateleira

Vinho e supermercado eram palavras que se repeliam como água e álcool. Razões havia: tratamento desleixado, prateleiras superiluminadas cozinhando garrafas, más experiências (tive diversas) com vinhos totalmente perdidos – Beaujolais Nouveaux de 2005 vendidos em oferta 5 anos depois da safra, festivais de vinhos oxidados (bom, importadoras também fazem ofertões muy amigos…) e as seleções repetitivas, sem imaginação. Além do preconceito: o medo de aparecer com um vinho desconhecido e barato e ser motivo de ridículo nos meios enochatos.

12 dezembro 2012 | 22:00 por luizhorta

Em 17/2/2011, o Paladar fez uma capa sobre o assunto, que até hoje repercute. Encontro gente que ainda se guia por ela para fazer compras de vinhos, e cita a matéria. Era sobre comprar vinho para o dia a dia, com a carne, as frutas e uma barra de chocolate, pagar no caixa e ir para casa, beber sem muita firula. Lembro como foi divertido, instrutivo e surpreendente rodar vários lugares e escanear prateleiras em busca de vinhos bebíveis sem susto. Não eram tão poucos quanto eu julgara, também cheio de predisposições negativas. Saiu uma listinha de clássicos naquela edição. Alguns continuam seguros para qualquer contingência, como o Periquita, os Concha y Toros mais simples, a linha Volpi da Salton. Um dos supermercados visitados foi o Saint Marché da Praça Panamericana, de onde destaquei um bom espanhol, o Pinuaga.

De lá para hoje, a rede Saint Marché, com o elétrico Bernardo Ouro Preto no comando, virou colecionadora de rótulos com importação exclusiva. Bernardo viaja para todas as feiras – Vinitaly, Prowein, Vinexpo… –, prova, escolhe e azucrina os produtores (a palavra é dele). Gruda no sujeito até conseguir o vinho por bom preço. Como compra em escala (contêineres) para distribuir na sua rede de16 lojas e Empório Santa Maria, geralmente vence. E aqui, quando os vinhos chegam, pratica o que motiva esta coluna: repassa o preço bom ao consumidor. Não parece estar perdendo dinheiro.

Venceu duas resistências de uma só vez: vende mais barato e tem qualidade, e faz isso em supermercados. Os inseguros que têm vergonha de chegar em um jantar levando uma garrafa comprada ali na esquina, mesmo que o vinho seja ótimo, não se acanham em apresentar um produto de supermercado nobre. Finalmente, pois ingleses, americanos, franceses, fazem isto sem constrangimento. Pense bem, a Grand Épicerie do Bon Marché, em Paris, com esse nome pomposo e de fazer biquinho, é sortida, incrível, meu lugar favorito para comprar comida, mas é um supermercado. Vinho é o que está na taça, não o pacote da loja que envolve a garrafa.

Um detalhe sobre os vinhos do Saint Marché. Há Bordeaux mais classudo no meio, mais ligeiro, mais complexo. E um dos que mais agradaram ao grupo, como vinho para ter em casa e beber sem grandes rituais, o Le Bordeaux de Maucaillou, um básico, custa R$ 57. Eis uma boa lista para acompanhar assados festivos de final de ano.

Ficou com água na boca?

Nariz complexo com toque de alcaçuz. Boa boca, ótima acidez, taninos marcados. É um vinho longo. Está pronto para beber, mas aguenta esperar um bom tempo. Muito bom (R$ 98).

Nariz de fruta escura, bem profundo. Na boca é elegante, equilibrado, longuinho e satisfatório (R$ 76).

Toque verdoso no nariz, dá para sentir um pouco da madeira. Na boca, taninos delicados e boa acidez. Equilibrado e fino (R$ 119).

Toque rústico no nariz que agrada. Taninos levemente secantes, bem bordelês. Pronto para agora. Bom vinho com comida (R$ 135).

Le Bordeaux de Macauillou | BOM

Nariz sedutor. Na boca é muito bom, taninos delicados, acidez no lugar; uma surpresa (R$ 57).

VIAGEM ENGARRAFADA

Parada 55/100

Bordeaux, França

Corte bordalês

Boas garrafas, a bom preço, em supermercado em São Paulo

>> Veja todos os textos publicados na edição de 13/12/12 do ‘Paladar’

Ficou com água na boca?