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Clima extremo reduz safra 2014

Frio de congelar e calor de rachar no Rio Grande do Sul. Resultado: atraso no ciclo das videiras e uma estimativa preliminar de redução de 20% na produção de vinhos nacionais. E ainda falta colher as uvas de longa maturação...

26 fevereiro 2014 | 21:03 por redacaopaladar

Por Marcel Miwa

Especial para o Estado, da Serra gaúcha

A colheita brasileira ainda não terminou, mas a maioria das vinícolas do Rio Grande do Sul – que concentra 90% da produção nacional de vinhos – já está fermentando suas uvas para a produção de espumantes, brancos e alguns tintos, como os de Pinot Noir, Merlot e Gamay. Falta colher as uvas tintas de longa maturação, como a Cabernet e a Tannat, mas já é possível estimar uma redução de 20% na produção de vinhos nacionais.

Foi uma safra atípica por causa do clima: o inverno excessivamente rigoroso e o verão com seguidos recordes de temperatura atrasaram de 15 a 20 dias o ciclo das videiras na Serra Gaúcha. Como explica o enólogo Dirceu Scottá, da Vinícola Dal Pizzol, a videira demorou mais que o habitual para sair de seu estado de dormência e lançar os primeiros brotos. O calor foi tão intenso que provocou nas plantas o mesmo efeito do frio, ou seja, interrompeu o ciclo de maturação.

FOTO: Gilmar Gomes/Divulgação

Com isso, além da ocorrência de granizos e geadas entre novembro e janeiro, o primeiro resultado visível da safra 2014 do vinho brasileiro é a redução da quantidade. As zonas de Pinto Bandeira e Campos de Cima da Serra foram as mais prejudicadas. Em Pinto Bandeira, os produtores estimam perdas que variam entre 30% e 60%.

“Tivemos muito granizo no fim de dezembro, pensei que não teria safra este ano”, disse a enóloga Roberta Benedetti, da Vinícola Lovara. E o tempo deve voltar a atrapalhar a safra. A partir da segunda metade de março, a previsão é de chuvas fortes em todo o Rio Grande do Sul – o que põe em risco a colheita da Cabernet Sauvignon, uma das variedades mais plantadas na região, e também da Tannat.

O presidente da Cooperativa Vinícola Garibaldi, Oscar Ló, diz temer os prejuízos dos produtores que trabalham com essas variedades.

Diferentemente de Argentina e Chile, o Brasil (e o Uruguai) tem clima instável, o que torna os resultados das safras variáveis, como acontece em Bordeaux e na Borgonha. Desta vez, mais do que nunca, os bons resultados na garrafa vão depender do talento dos enólogos para reverter condições adversas.

Em visita à região, a presidente Dilma prometeu instrumentos que facilitem o escoamento dos estoques de uva e vinho e citou o novo preço mínimo de R$ 0,63 por quilo de uva, que vai vigorar na safra 2014/2015, graças à publicação, na semana passada, do decreto que regulamenta a Lei do Vinho.

Retrato | O Rio Grande do Sul tem 730 vinícolas, metade concentradas em Flores da Cunha, Caxias do Sul e Bento Gonçalves.

Classificação | A região tem uma Denominação de Origem (Vale dos Vinhedos), duas Indicações Geográficas (Pinto Bandeira e Altos Montes) e três Indicações Geográficas em desenvolvimento (Campanha, Farroupilha e Monte Belo).

Variedades | Brancas mais plantadas: Moscato, Chardonnay e Riesling Itálico. Tintas mais plantadas: Cabernet Sauvignon, Merlot e Tannat.

Volume | 74 milhões de quilos de uvas viníferas foram vinificadas em 2013.

A SAFRA 2014 NO RIO GRANDE DO SUL

Campos de cima

FOTO: Ibravin/Estadão

A Merlot é a grande aposta da região neste ano, pois está plantada em zonas menos afetadas pelas geadas e vem amadurecendo gradualmente. A expectativa dos produtores é colher a Merlot na próxima semana com potencial de 13% de álcool. “Recebemos a Pinot Noir nesta semana com 13,5% de álcool potencial e bom equilíbrio”, diz Gilberto Simonaggio, da Miolo. A região, de altas altitudes, sofreu fortes geadas e em alguns vinhedos, de variedades brancas, a perda foi total.

Serra gaúcha

Em nenhum outro lugar a safra nacional dependeu tanto dos enólogos como na Serra Gaúcha – os extremos climáticos exigiram leitura antecipada do tempo e decisões rápidas no campo, e de agora em diante o talento terá de ser empregado na vinificação para minimizar o impacto do clima. Bom exemplo é o das brancas para espumantes, colhidas na segunda metade de janeiro em meio a forte onda de calor, o que obrigou os enólogos da Miolo e da Don Giovanni a colocá-las em câmaras frias antes de vinificar. “A extração do mosto com as uvas a 30°C resultaria em vinhos base muito amargos”, diz Simonaggio, enólogo da Miolo. No caso do viticultor Zair Molon, da Luiz Argenta, a solução foi baixar a produtividade. “Na Merlot deixamos só 1,2 quilos de fruta por planta – uma garrafa de vinho por planta”. A previsão na área é de Merlot alcoólica (13,5%), mas não excepcional. O enólogo da Miolo antecipa que não deverá lançar o Lote 43, que só sai nas ótimas safras.

Serra do sudeste

Na região de Encruzilhada da Serra, os granizos foram isolados e não atingiram os vinhedos. As estações do ano foram bem definidas e prometem ótima qualidade, apesar da queda de cerca de 20% na produtividade em função do inverno prolongado. A enóloga da Lidio Carraro, Monica Rossetti, disse que está colhendo a Chardonnay agora, uma semana mais tarde que o normal. “Em compensação, os trabalhos nos vinhedos para proteção dos cachos, redução de rendimentos e colheita em diversas etapas, garantiram vinhos potentes e com bom potencial de guarda”, diz.

Campanha

Os desequilíbrios causados pela floração e amadurecimento irregulares tiveram que ser corrigidos na colheita – gradual e seletiva, como explica o enólogo Miguel Ângelo Almeida, da Miolo. As brancas tiveram baixo rendimento, mas boa qualidade. Tintas estão amadurecendo bem, mas ainda dependem de cinco dias seguidos sem chuvas na colheita. Eduardo Valduga, enólogo da Casa Valduga, aposta em tintos potentes: “A Merlot deve chegar a 15% de álcool potencial na próxima semana”.

TRÊS EM UM

FOTO: Marcel Miwa/Estadão

A floração irregular, seguida dos extremos climáticos resultou em amadurecimento irregular dos cachos de uvas. Em alguns casos, é possível observar bagos verdes, maduros e desidratados em um único cacho. Para contornar o problema, a solução adotada tem sido colher em várias etapas e selecionar bem as frutas para vinificação. Tudo isso dificulta e encarece o processo no campo e na adega.

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 27/2/2014

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