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Com a Copa do Mundo da Rússia, vodca entra em alta temporada

Às margens das tendências de coquetelaria, vodca ainda é uma campeã de volume. Destilado russo conhecido por sua neutralidade e polivalência é base para uma grande gama de coquetéis

13 junho 2018 | 18:44 por Gilberto Amêndola

“Entortar o adversário” é uma expressão muito comum no futebol. Ela é usada, principalmente, quando um craque aplica aquele drible desconcertante no jogador do outro time – muitas vezes deixando-o no chão. Na Copa do Mundo da Rússia, que começa nesta quinta (14), a expectativa é que Neymar, Messi e, claro, a vodca proporcionem as maiores “entortadas” do evento. 

Sim, a vodca! O orgulho russo engarrafado estará onipresente em cada reportagem, transmissão de jogo, citação ou conversa de botequim relacionada à Copa. Entre uma partida e outra, vamos aprender do que ela é feita, como se bebe, seu teor alcoólico (40%, em média), história e significado. Como sempre acontece, essa superexposição pode ser divertida ou... um porre.

 

  Foto: Alex Silva|Estadão

A tabelinha entre destilados e Copa não é novidade. Nos mundiais de 1970 e 1986, realizados no México, a tequila foi amplamente divulgada – conseguindo atingir novos mercados pelo mundo. Em 2014, com a Copa sendo realizada no nosso quintal, imaginava-se que o mesmo poderia acontecer com a cachaça. “Perdemos a oportunidade. O País estava atravessando tantos problemas, teve tantas polêmicas, o 7 a 1... Não tivemos como trabalhar a imagem da cachaça”, diz a bartender Jéssica Sanches, do Vizinho Gastrobar, que fica no Rio de Janeiro. 

Mas, agora, em se tratando da mão de ferro do presidente russo Vladimir Putin, que, pasmem, só molha o bico em ocasiões em que beber é parte do protocolo, é de se supor que essa bela oportunidade comercial não passe em branco. Além disso, se a vodca tiver um bom desempenho no Mundial, todo mercado ganha. Embora seja um produto originário da Rússia (ok, a Polônia ainda briga pela paternidade da bebida, mas estudiosos no assunto costumam afirmar que todos os indícios apontam mesmo para o país sede da Copa), as marcas mais difundidas têm diversas nacionalidades: Ketel One (Holanda), Absolut (Suécia), Belvedere (Polônia), Cîroc e Grey Goose (França), Stolichnaya (Rússia), Smirnoff (marca russa com produção no Brasil) e por aí vai.

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No Brasil, o copo da vodca anda, ao mesmo tempo, meio cheio e meio vazio. O copo está cheio, desde o fim dos anos 1980, se for levado em consideração o volume do que é consumido por aqui. A vodca está presente em bares, shows e baladas – onde costuma ser misturada com energético, água de coco e música ruim. Ela também é bastante popular como substituta da cachaça, transformando caipirinhas em caipiroskas (caipivodcas em algumas regiões do País). “Se levarmos em conta o Brasil todo, é a vodca que paga as contas da maioria dos bares. O volume vendido de vodca pode representar quase o dobro dos demais destilados”, afirma o mixologista e editor do portal Mixology News, Marco de La Roche.

O copo também está meio vazio se a avaliação levar em conta a produção artesanal e o terreno fértil da alta coquetelaria. Não é novidade que os produtores artesanais brasileiros optaram pelo gim – que ficou cult, charmoso, hipsterizado e caro. Hoje, já são mais de 10 rótulos produzidos no País. Uma rara exceção é a Tiiv, marca brasileira de vodca orgânica e artesanal. 

“Apesar da competitividade, no mundo do gim existiu mais espaço para pequenos produtores. Já na vodca, temos basicamente três grandes empresas que dominam o mercado mundial – e com isso dificultam o aparecimento de pequenos produtores”, comenta Victor Mattos, sócio da Tiiv. 

Outra dificuldade enfrentada pela vodca é que coquetéis como gim tônica e aperol spritz permanecem em alta – e, além disso, headbartenders têm dedicado criatividade e paixão na exploração de sabores amargos (vermutes, amaros e outros). “Estamos vivendo um momento em que os bartenders querem expressar os sabores das bebidas que estão sendo utilizadas em seus drinques. Assim, a vodca vive esse dilema. Por ser neutra, isenta, não impõe sua presença”, conta de La Roche. “É importante lembrar que os movimentos na coquetelaria são cíclicos. Um dia, iremos nos cansar do amargor e voltar para a neutralidade da vodca”, diz.

 

  Foto: REUTERS|David W Cerny

Neutralidade. Até quem não joga no time da vodca reconhece que é, justamente, a neutralidade que faz desse destilado o condutor ideal para os sabores frutados e mais delicados. Paulo Leite, proprietário do Empório Sagarana e pós-graduado em Tecnologia da Cachaça pela Universidade Federal de Lavras, diz que a vodca é como uma “lousa em branco”. “Se eu quero que o meu coquetel capte a personalidade do jasmim, que é algo delicado e sutil, eu posso usar a vodca, que não vai interferir no jasmim.” Na mesma linha, vai o bartender do Riviera Bar, Cristiano Moura, que considera o destilado “a melhor opção para infusionar sabores”.

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A tal neutralidade da vodca é consequência do processo de destilação. Ou seja, quanto mais ela for destilada, menos características da matéria-prima estarão presentes em seu sabor. Muitas das vodcas “de combate” (mais baratas e fáceis de encontrar no supermercado) são muitas vezes filtradas e fazem da sua “pureza” o seu melhor marketing. Nas categorias super premium, a tendência tem sido a de destilar menos. “A vodca Grey Goose é destilada apenas uma vez e preza por preservar as características de sua matéria-prima. Ela é produzida com trigos de inverno, cultivados na região de Picardia, norte da França. Depois, o destilado é enviado para a região de Cognac, onde é misturado com água da nascente e engarrafada”, diz Tony Harion, especialista em bebidas e embaixador do portfólio Bacardi no Brasil.

Com menos destilação é possível que um bebedor treinado identifique de que produto é feita a vodca que está consumindo: centeio, trigo, cevada, sorgo, soja, batata, arroz, milho, cana-de-açúcar e mesmo uvas. Atualmente, a busca por sabor também está na variedade de vodcas saborizadas disponíveis no mercado (baunilha, mirtilo, manga e outros). “Acho que cada um tem o direto de consumir como se sentir mais à vontade ou gostar mais. Não podemos impor muitas regras”, afirma Harion. Ou seja, vale tudo – menos se deixar “entortar” por ela. 

 

Para os russos, vodca é 'aguinha' 

Nem adianta destilar a vodca mil vezes, o sabor da história russa estará sempre impregnado nessa bebida. Desde o século 15, com o desenvolvimento da destilação, o czar Ivã III transformou sua produção em monopólio estatal. Em 1765, a rainha Catarina, a grande, fã do destilado, deixou que a nobreza entrasse no negócio. 

 

  Foto: JF Diorio|Estadão

Filósofos como Voltaire, Kant e o poeta alemão Goethe também tornaram-se fãs da bebida. Assim como os soldados russos, que espalharam o produto por todo o continente europeu. Bem mais tarde, com a revolução comunista, Lenin proibiu o consumo da vodca dizendo que ela tirava o ímpeto revolucionário dos trabalhadores. 

Mas qual o quê? Não demorou e Stalin, que sucedeu Lenin, liberou e incentivou o consumo – aumentando o teor alcoólico para 50%. Não à toa, o poeta russo Vladimir Maiakovski sentenciou: “Melhor morrer de vodca do que de tédio.” Agora, se você não for tão dramático e, definitivamente, não tiver nenhuma intenção de morrer de vodca, cuidado com a sua sede. Se algum russo brincalhão arriscar o português e te oferecer uma “aguinha”, saiba pelo menos o básico do idioma russo – e o básico é saber que “aguinha” é a tradução de vodca.

Atualmente, depois de diversas campanhas do Ministério da Saúde da Rússia, o consumo anual de vodca no país se estabilizou em 13,9 litros por pessoa. Na época da União Soviética, esse consumo batia nos impressionantes 30 litros anuais por pessoa. Nos dias de jogos da Copa, pelo menos em Moscou, a venda de vodca será proibida num raio de dois quilômetros dos estádios. 

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