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Como foi o Festival Brasileiro da Cerveja

Veja o que aconteceu pelos corredores do Festival Brasileiro da Cerveja e quais foram os assuntos do momento. Eu e os sommeliers Luis Celso Jr. (Bar do Celso) e Raphael Rodrigues (AllBeers) demos a volta no festival para escolher os assuntos da vez e descrever cervejas que os simbolizem. São cinco temas do momento: acidez, berliner weisse, blend de cervejas, mais barril e cervejas temperadas com ervas.

18 março 2015 | 17:19 por heloisalupinacci

 Um copo para cada assunto. FOTOS: FERNANDO SCIARRA

ONDA ÁCIDA

Esta edição do Festival Brasileiro da Cerveja foi ácida. O amargo continua sendo uma força na cerveja, mas cede cada vez mais espaço para o azedo. Além das sour ales, que trazem a acidez já no nome, outros estilos – como saisons e IPAs – aparecem cada vez mais azedinhos. Mas, para ficar só nas sours, há belas novidades. A incisiva Invicta Transatlântica Sour (foto), de Ribeirão, leva cajá-manga. A Tupiniquim Tirana Sour Ale é fermentada duas vezes – primeiro com brett e depois com levedura de champanhe. Numa prova às cegas, pode até passar por espumante. A curitibana Morada Gasoline Sour, sotch ale envelhecida em barril de vinho do Porto, faz quem bebe pensar: preciso ampliar aquilo que entendo por cerveja.

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BERLINENSE À BRASILEIRA

Berliner weisse é uma cerveja ácida tradicional de Berlim. No festival, três cervejarias apresentaram bons exemplares brasileiros desse estilo. A Morada Cia Etílica mostrou a Liquid Rio (foto), com pêssego, feita com a norte-americana Stillwater e a Berliner Weisse com Cupuaçu – que tem uma interessante sobreposição da acidez com o dulçor quase mastigável do cupuaçu. A Tupiniquim apresentou a Ich bin ein Berliner, pura ou com maracujá, feita com a Evil Twin. A Lagom Berliner Weisse, da gaúcha Lagom, tem acidez lática destacada e um certo cítrico no aroma. As versões brasileiras não se parecem em nada com a acidez plana da berliner weisse alemã que pode ser encontrada aqui, a Kindl Weisse. Se provou essa e detestou, o que aconteceu comigo, dê nova chance a esse estilo com os rótulos nacionais.

CORTE DE CERVEJA

A tendência mais interessante que ganhou força neste festival foi a de fazer blends, misturar cervejas para chegar a um resultado diferente. No ano passado, havia só uma (Morada Wheat Wine). Neste ano, eram três, uma delas chega às lojas na próxima semana. Trata-se da Dama Reserva 5, feita para comemorar os cinco anos da cervejaria piracicabana. A base de strong dark ale passou por barris de carvalho francês usado para guardar vinho fortificado, uísque e cachaça e barril de madeira amburana virgem. Foram feitas 2.400 garrafas. As outras duas são a Bodebrown Blend of Ales (foto), 45% wee heavy, 45% rye IPA e 10% imperial stout, e a Way Wood Blended (leia descrição abaixo, no quadro ‘Mais barril’).

MAIS BARRIL

Muita cerveja passou por madeira e ganhou complexidade. A curitibana Way Wooden Barrel Fruit (foto), é um blend de uma fruit bier (com mirtilo, framboesa e morango) com uma stout com atemoia maturada em carvalho e ainda uma barley wine envelhecida em barril de cachaça Porto Morretes. O resultado impressiona. É azeda, frutada, salgada, complexa e leve. A Petroleum apareceu em versões envelhecidas tanto pela DUM, que levou a cerveja maturada em barris de amburana, castanheira e carvalho, quanto pela Wäls (11 meses em barril de carvalho). A Bodebrown continua com prolíficas experiências com todas as suas cervejas em diferentes madeiras. A Tupiniquim também fez seus testes, que chegam até o final do ano às garrafas, caso da Saison de Caju au Vin (barril de vinho) e da Monjolo Floresta Negra (carvalho com adição de framboesa).

TEMPERO DA HORTA

Ervas que costumam estar em receitas de comida apareceram em descrições de cerveja com alguma frequência. A começar pela melhor cerveja do ano, a Seasons Basilicow, uma witbier com manjericão. É o tempero que domina o primeiro plano da cerveja, refrescante e cítrica. A Saison d’Alliance (foto), colaboração entre a Wäls e Bohemia que marca a entrada da mineira no grupo Ambev, leva sálvia, hortelã e gengibre, ela é refrescante, tem uma espuma bonita e duradoura e é fácil de beber. E a paulista Karavelle Summer Wit, witbier com manjericão, pimenta sichuan e limão kaffir, é a melhor cerveja que a marca já lançou. Ela começa a conversa com o manjericão, que é logo amparado pelo cítrico bem verde.

Abracerva: Procura-se um presidente

Na sexta, uma aguardada reunião da Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva) deveria eleger a nova diretoria. Não houve, porém, nenhuma chapa candidata. A solução foi uma diretoria interina. Jorge Gitztler, que era tesoureiro, é o presidente pelos próximos seis meses, quando haverá outra eleição – em julho, na BrasilBrau. Marcelo Carneiro (Colorado), que era presidente, continua como conselheiro. Gitzler é contador e tributarista e dirige a Associação Gaúcha de Microcervejeiros.

A mineira Wäls, recém-comprada pela Ambev, mostrou a Session Hirataki, uma session IPA com cogumelo, que está ali para trazer umami à cerveja. A cerveja, com rótulo psicodélico, chega às lojas em duas semanas

A paulistana Júpiter, que ganhou ouro com a Meia-Noite na categoria robust porter, mostrou a primeira versão de sua hop saison, com brett. A previsão é lançar a versão final neste ano.

Morada Cia Etílica: Tudo bem ‘estragadinho’

Sempre um dos estandes com as cervejas mais inventivas, a curitibana Morada Cia Etílica transformou em piada o intenso uso de refermentações variadas que está testando. É brett para lá, pediococcus para cá, tudo muito ácido e complexo. Fernanda Lazzari, mulher do cervejeiro André Junqueira, recebia os conhecidos fazendo graça: “Vai uma cerveja podrinha aí? Tá tudo estragadinho! Essa que ela está tomando? Está estragada”, dizia aos risos. Tudo deliciosamente estragadinho.

O lederhosen, bermudão de couro bávaro, é o traje de gala do festival

Kessbier: Mato Grosso entra no mapa

A Kessbier, em Nova Mutum (MT), ganhou duas medalhas no festival: bronze para a Belgian Mango e prata para a Marzen. “Fomos a primeira cervejaria aqui a investir em estilos diferentes e queremos que as nossas cervejas tenham uma cara da região. Aqui tem uma mangueira a cada esquina, por isso colocamos manga na belgian strong”, diz Guilherme Giorgi, um dos três sócios da cervejaria, que está em ampliação e começa a engarrafar até o fim de abril. As garrafas devem chegar a São Paulo em maio.

A mineira Backer lançou linha nova, com a cervejeira Alex Nowell, da Three Weavers Brewing. São três rótulos: Corleone (imperial red ale), Diabolique (american IPA) e Tommy Gun (double IPA)

Weird Barrel: só em Ribeirão Preto

A Weird Barrel abre na primeira quinzena de abril seu bar em Ribeirão Preto. Uma vez inaugurada a casa, as cervejas Weird Barrel só poderão ser bebidas ali. Hoje são três rótulos. A Bad Luck, fruit beer com amora, framboesa, morango e pitanga; a Naughty Grog, black IPA envelhecida em barril; e a Flip, session IPA com gengibre. Até o final do ano, a cervejaria lança seus rótulos em garrafa – e então decide se vai distribuir em lojas. Onde. Weird Barrel Brewpub. R. Altino Arantes, 1.854, Ribeirão Preto

>>Veja a íntegra da edição do Paladar de 19/3/2015

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