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Da casca da árvore ao gargalo da garrafa

De Portugal

14 outubro 2015 | 16:53 por Míriam Castro

Quem olha um montado – nome que se dá ao terreno onde crescem os sobreiros, de onde é extraída a cortiça – vê uma paisagem bucólica. Porcos pretos, vacas, touros, ovelhas e cabras pastam sob as sombras das grandes árvores. É difícil imaginar que por trás dessa cena existe uma indústria que, só no primeiro semestre deste ano, exportou quase 100 mil toneladas de rolhas para todo o mundo.

Rolinhos. Assim que são tiradas das árvores, as placas de cortiça seguem o formato curvo do tronco. Depois de cozidas, ficam retas. FOTO: Nacho Doce/Reuters

O sobreiro é encontrado em Portugal e em outros países próximos do Estreito de Gibraltar, como Espanha, França, Itália, Marrocos, Argélia e Tunísia. Mas é Portugal que responde por metade da produção mundial de cortiça.

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As árvores vivem entre 150 e 250 anos e são cobiçadas por sua casca, que cresce conforme os anos passam e se regenera depois de removida. Entre maio e agosto, meses quentes, os montados ficam repletos de trabalhadores que se montam sobre os galhos (daí o nome) e, com machadinhas e facões, extraem as placas de cortiça que cobrem o tronco e chegam a mais de 1 m de comprimento.

Além de exaustivo, o trabalho é meticuloso – e não por acaso, cada trabalhador recebe de 80 a 100 euros por dia. Um corte mais profundo que o necessário pode danificar o entrecasco – parte entre a camada de cortiça e o tronco da árvore. No local do ferimento, a cortiça não cresce mais. Isso causa buracos na próxima placa de cortiça, diminuindo seu valor.

Cortar. A extração da camada de cortiça que envolve o sobreiro é meticulosa: um erro na profundidade do corte pode provocar uma falha na próxima placa, que será extraída nove anos depois. FOTOS: Divulgação

O tempo do sobreiro. Cada sobreiro só pode ser perturbado de nove em nove anos. A primeira vez é só quando sua altura for o dobro do perímetro do tronco, que deve ter pelo menos 70 cm. A segunda, quando a altura for duas vezes e meia o perímetro. Para a terceira vez em diante, a altura do sobreiro precisa ser o triplo do perímetro. “E a rolha natural, inteiriça, só pode ser feita a partir de cortiça extraída no terceiro ciclo ou após ele”, afirma Carlota Barata, engenheira florestal da Associação dos Produtores Florestais de Coruche (APFC).

Quando saem do sobreiro, as placas de cortiça são curvas como o tronco que rodeavam. Empilhadas, são deixadas para secar ao sol. O tempo mínimo é seis meses, mas alguns fabricantes preferem deixar um ano. Depois vem o cozimento: as placas passam por água a 100° C, para que fiquem elásticas. Ao fim de uma hora, perdem a curvatura.

Depois do cozimento, vem a primeira inspeção visual, que já detecta boa parte dos defeitos – como a cobrilha, quando formigas fazem galerias pelo casco da árvore ou o bofe, crescimento muito rápido que modifica a textura da cortiça. “Cerca de 70% do que é extraído não pode ser usado para rolha de vinho”, afirma Joana Mesquita, engenheira química da Corticeira Amorim, responsável por um terço da produção mundial de rolhas de cortiça. Das fábricas da Amorim, saem quatro bilhões de rolhas por ano.

Rabanear. Depois de cozida, a folha de cortiça fica plana e é rabaneada – cortada em fatias já da altura da rolha. As rabanadas, como são chamadas as tiras, seguem então para outra máquina

As placas são cortadas em tiras, etapa chamada “rabanear”. As rabanadas, que nada têm a ver com pão adormecido, vão para uma máquina que, repetidamente, perfura a cortiça para retirar as rolhas no formato pretendido.

Depois de feitas as rolhas naturais, as rebarbas que sobram viram granulado para gerar ainda outras rolhas, como a 1+1, inspirada nas rolhas de espumante, que têm corpo de granulado e discos de cortiça natural.

Cilindro. A máquina corta o cilindro de cortiça e retira a rolha de dentro da rabanada. Das fábricas da Amorim, que produz 1/3

das rolhas portuguesas, saem 4 bilhões de rolhas a cada ano

Na Relvas, que produz rolhas de espumante desde 1926 e atende vinícolas como Veuve Clicquot e a brasileira Salton, o preço do produto é definido pela classe do disco natural. Uma máquina recebe um carregamento de discos e, um a um, analisa o melhor e o pior lado. Faz uma marcação a fogo para identificá-lo, além de classificar os discos em seis categorias. “Isso varia conforme existam ranhuras que piorem a qualidade”, afirma José Pinto, gerente da fábrica da Relvas.

Duas máquinas dessas trabalham 15 horas por dia para marcar 400 mil discos. Já identificados, eles vão para outras máquinas, que analisam as peças e as colam nas rolhas.

Uma rolha natural de 24 mm de diâmetro pode ser comprimida para 14 mm de diâmetro. Assim, entra facilmente em uma garrafa cujo gargalo tem 18 mm. Lá dentro, sua estrutura celular, que lembra uma colmeia, se expande, vedando a entrada de ar – e o vinho está fechado.

Qualidade. Depois de duas inspeções automáticas de regularidade de tamanho e superfície, a rolha passa pela inspeção manual antes de ser liberada para sair da fábrica

NO BRASIL

O brasileiro é fiel à cortiça. Estudo recente, da Conecta/Ibope, revelou que o consumidor paga até R$ 15 a mais por uma garrafa fechada por rolha de cortiça. A fidelidade se reflete entre vinícolas. Miolo, Almadén e Dom Pedrito Vinhos até usam screwcap em vinhos mais populares, mas mantêm a cortiça na maioria das linhas.

Tauê Hamm, vice-presidente da Associação de Produtores de Vinhos Finos da Campanha Gaúcha, diz que screwcap poderia trazer uma redução de custo. “Porém, não vejo sucesso no uso em vinhos de maior valor ou de guarda”. Paulo Macedo, enólogo da Guaspari, concorda. “Um equipamento muito vedado pode estancar um vinho com potencial de evolução”, diz. Um bom uso de screwcap, de acordo com Macedo, seria para vinhos brancos e rosés que precisam evitar a oxidação.

Processo da rolha sendo estampada

* A repórter viajou a convite da Associação Portuguesa da Cortiça

>> Veja a íntegra da edição de 15/10/2015

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