Paladar

Bebida

Bebida

É de birra. Mas não só

Carolina Oda

Dê mais uma chance àquela cerveja que decepcionou

Variáveis como transporte, armazenamento, validade, produção e ocasião podem alterar o resultado final na degustação de uma cerveja. A dica é: dê uma segunda chance!

16 novembro 2016 | 19:57 por Carolina Oda

Você escolhe uma garrafa, enche o copo, dá um gole e fala que não gostou. Acompanha os resultados de todos os campeonatos de cerveja, prova as campeãs e não acha nada demais. Pega aquele rótulo de tantas vezes, toma e fica achando que a cervejaria piorou. Quase sempre basta um gole e a gente já sai falando o que acha da cerveja que acabou de tomar. Haja opinião! E haja decepção.

Pois bem. Saiba que a cerveja, assim como gente legal, muitas vezes, merece uma segunda chance. Ou até terceira, quarta… Afinal, são tantas as variáveis para mexer rapidamente com o resultado final que não dá pra desistir fácil assim. Quando me perguntam o que eu achei de tal cerveja, sempre respondo que, quando eu tomei, estava assim ou assado, mas, como está hoje ou como estava a que você tomou eu já não sei. Ou seja, nem sempre a cerveja é ruim. Ela pode só estar numa versão mais sofrida ou a gente é que está num mau dia...

Pra começo de conversa, tenha em mente que nem sempre a culpa é da cervejaria. Existem defeitos de produção e existem defeitos que surgem no intervalo entre o tanque e a sua boca, quando a responsabilidade, muitas vezes, já mudou de mão.

A seguir, você vai ter uma ideia do que pode fazer parecer pior a cerveja que está nas suas mãos. São muitas variáveis e motivos pra te encorajar a tentar mais uma vez. Reconsidere, e se for o caso, mude de opinião.

Transporte e armazenamento

Quanto mais fresca, de mais perto e mais tempo refrigerada, melhor é a cerveja. O que a bebida passa até chegar ao seu copo faz muita diferença. Transporte e estocagem sem refrigeração, caminhão chacoalhando, sol, variação de temperatura, aquecimento... Tudo isso atrapalha.

O lúpulo vai embora, o sabor caramelizado do malte intensifica-se e deixa a cerveja cansativa e desequilibrada, notas de solvente podem aparecer, a intensidade aromática como um todo diminui, a cerveja vai ficando xôxa, mortinha.

Tem também a parte da responsabilidade do ponto de venda, pois não adianta o fornecedor fazer tudo bonitinho e o dono do bar estragar tudo: estoque quente, prateleiras pegando sol, copo mal lavado ou enxaguado com água muito clorada e, o pior de todos, uma chopeira suja, que pode deixar aquele chope tão desejado com gosto de vinagre ou de ferrugem. Delícia, hein?!

Qualquer cerveja incrível perde o brilho quando maltratada.

 

  Foto: José Patrício| Estadão

 

Validade

Declarar o prazo de validade, diferentemente de alguns países, é obrigação no Brasil. Por um lado, essa informação não faz muita diferença, já que a cerveja não estraga, ou seja, não vai fazer mal a quem beber fora da data. Porém, com esse dado é possível saber quão fresca a cerveja está. Nos Estados Unidos, por exemplo, não é obrigatório constar a data de validade no rótulo. Lá, é mais usada a chamada “data de frescor”, que costuma ser em torno de somente 3 meses após a produção, principalmente para os estilos mais lupulados como o IPA. Aqui no Brasil, por questões comerciais, relacionadas a estoque e outros fatores, as cervejarias dão até um ano de validade para cervejas que manteriam seu frescor por, no máximo, poucas semanas. Imaginem, então, dependendo do estilo, como estará essa cerveja se tomada prestes a vencer? Esse deve ser um ponto de atenção para quem compra muita cerveja de promoção ou vencida, informalmente. O barato pode sair caro. 

Produção

A variação de lote, principalmente nas nano/micro/super artesanais cervejarias, também está longe de ser uma raridade. Quanto mais tecnologia e controle envolvidos, quanto melhor for o seu equipamento e o seu laboratório, mais fácil manter o padrão e o controle de qualidade. Só que isso custa caro e, infelizmente, não é todo mundo que consegue. Cerveja é uma engenharia que envolve cálculos, controles e processos precisos. Por incrível que pareça, até nas cervejarias gigantes de investimentos milionários, os lotes apresentam discretas variações, mas que só são percebidas por pessoas muito bem treinadas e comparando lado a lado. Se isso acontece nas grandes, que dirá nas pouco profissionalizadas.

Haja controle! Não é só apertar um botão e esperar a cerveja sair pronta do outro lado porque, ao mesmo tempo em que pede precisão, é uma bebida viva, que fermenta, e pode desandar por livre e espontânea vontade. As coisas podem sair do controle e lotes bem problemáticos serem engarrafados. Até porque alguns defeitos, como contaminação ou fermentação inacabada, por exemplo, só aparecem com o tempo. Sai da fábrica com todo mundo achando que está tudo bem e, pouco tempo depois, os problemas aparecem e os clientes começam a reclamar das garrafas explodindo ou espumando feito champanhe no pódio da Fórmula 1.

O contrário também sempre pode acontecer. Do mesmo jeito que pode sair um lote pior, as melhorias são feitas constantemente e o rótulo que estava com um problema hoje pode estar muito bom se comprado dali a poucos dias. Uma mudança no processo, um filtro novo e pronto. Tal defeito desaparece.

Ocasião

Tirando erros grotescos, é impressionante como uma boa ocasião pode deixar tudo lindo. O humor do dia, a companhia, o papo, o lugar... Prove a cerveja na praia, dando risada, cercado de gente querida e diminua bem a chance de não gostar. Provar cerveja dentro da cervejaria, fresquinha na beira do tanque, acompanhada da explicação de um mestre-cervejeiro apaixonado é quase covardia também.

Não é pra menos que medalhas de campeonatos são frequentemente questionadas. A situação de julgamento é muito atípica, pois, além de ser realizada por pessoas altamente especializadas e que caçam defeitos com narizes bem treinados, a situação é séria, cheia de concentração, bem longe do clima de quem está batendo papo numa mesa de bar. Além disso, não existe teste melhor do que provar às cegas, sem a interferência do seu amor ou ódio por determinada marca ou simpatia pelo desenho do rótulo e comparando cervejas do mesmo estilo lado a lado. Tomar uma só cerveja é uma coisa. Comparar marcas diferentes na mesma tacada é outra e deixa bem nítida a diferença entre elas.

E tem outra coisa. Cervejas de campeonato não são compradas em pontos de venda; são as cervejarias que enviam. Ou seja, muitas delas tiram a cerveja do tanque, engarrafam e levam de carro até a câmara fria das amostras do concurso, numa situação bem rara de acontecer na vida real.

 

  Foto: Ana Motta| Divulgação

Paladar

Não é só a cerveja que muda, mas a gente também. O paladar pode ser treinado, acostumado. Coisas que antes desagradaram podem começar a ser adoradas e vice-versa. Olha este caso: a primeira IPA que todo cervejeiro conhecia e adorava no País foi a Colorado Indica. Lembro em 2008, 2009 o quão adorada ela era. Naquela época, não existiam no mercado as super lupuladas americanas e nem a moda das cervejas extremamente amargas tinha aparecido. Depois de um tempo, o mercado mudou, a régua de amargor disponível foi subindo e sabe o que aconteceu? Começaram a falar que a Indica era doce, que tinham mexido na receita... Falei sobre isso numa visita à Colorado e eles garantiram que a receita era exatamente a mesma desde o primeiro lote. O que mudou foi o nível de amargor disponível conhecido pelas pessoas.

Ficou com água na boca?