Paladar

Bebida

Bebida

Detalhes dentro da garrafa

Eles não tomam bebidas com gás – preferem as carbonatadas. As duas são a mesma coisa, mas os cervejeiros usam o segundo termo. Exemplo: “Eu prefiro bebidas carbonatadas. Não gosto de vinho, mas bebo espumante. Até na hora de matar a sede, prefiro água com gás, ou seja, carbonatada.” A frase foi dita pelo mestre-cervejeiro Alan Gregor, da Brewing Pride, escola que dá aulas para turmas fechadas.

16 agosto 2012 | 07:00 por heloisalupinacci

Para eles, a cerveja consumida em larga escala no Brasil não é pilsen ou tipo pilsen. É american light lager. E eles não gostam de american light lager, apesar de passar muito tempo falando sobre ela – lamentando como o mercado de cerveja de larga escala é uniformizado.

Já de pilsen, ou bohemian pilsen, para ser mais exato, eles gostam – embora quase sempre prefiram ales (cervejas de alta fermentação) a lagers (de baixa fermentação, sendo a pilsen uma delas). Aliás, para ser mais exato, eles gostam muito de exatidão.

Quando você acha que está entrando no assunto porque leu bastante e aprendeu a diferença entre porter e stout, eles perguntam: mas baltic porter, brown porter ou robust porter? Imperial stout, milk stout ou oatmeal stout? E bate aquela sensação de voltar para o começo do tabuleiro do jogo. Nesse caso, só resta retomar a penosa tarefa de experimentar mais cervejas.

Exatos. Essa exatidão toda pode ter uma explicação. Em um curso de cervejas artesanais realizado em São Paulo em julho, a turma de oito pessoas tinha sete homens e uma mulher.

Dos sete homens, quatro eram bancários ou ex-bancários. E no intervalo para o almoço, esse foi o assunto: como tem bancário que faz cerveja em casa. Engenheiros e administradores de empresas também são frequentes. Homens das exatas, que ficam muito agitados quando, na brassagem, é preciso subir a temperatura do mosto na escala de 1°C por minuto.

Eles usam bastante siglas também. Coisas como EBC (tabela de cores do malte) e IBU (medida de amargor, que eles pronunciam ai-bi-iú). As siglas, aliás, tendem a ser soletradas em inglês. A IPA, apelido da India Pale Ale, é ai-pi-ei. Se você não está familiarizado com nomes dos estilos – como ai-pi-ei –, é fácil resolver: basta intensificar a ida a points de cervejeiros, como a Cervejoteca, o Empório Alto dos Pinheiros ou o Escambo Hostel, albergue que tem um bar com oferta de micrcervejarias, para começar a conhecê-los melhor.

Foi assim que a maior parte deles começou: um dia cansou da american light lager predominante e decidiu provar uma cerveja diferente. “Normalmente, essa primeira é uma cerveja de trigo”, diz Mario Maduro, da Adelaide. A curiosidade coincidiu com o momento em que, com o dólar em baixa, as cervejas importadas passaram a ser mais frequentes no mercado brasileiro. E eles ficam torcendo para mais gente tomar uma cerveja diferente e sofrer esse mesmo efeito. Quando isso acontece, eles estão lá, a postos para receber os novos integrantes da turma.

Em uma ponta, por exemplo, está Leandro Viu, da Viu Beer, que criou uma consultoria para ajudar a conduzir pessoas, grupos e empresas por esse terreno. “A ideia é levar a cultura cervejeira para nichos que ainda não a conhecem”, explica Viu. Na outra ponta, fica Amilcar Parada, da Cameriere. Ele faz cervejas por puro hobby e começou a registrar suas receitas em um blog. “Para minha consulta mesmo.” O registro dos processos e experimentações foi ganhando público e o blog cervejasartesanais,wordpress.com foi se tornando referência. “As pessoas pedem ajuda, perguntam onde compra os insumos, como monta o kit, qual curso fazer”,

De um jeito ou de outro, em algum momento, ou eles chegam a você ou você chega a eles.

Ficou com água na boca?