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Suzana Barelli

Documentário "FreeRange" é um manifesto do vinho natural brasileiro

Recém-lançada na plataforma Vimeo, obra fala sobre legislação, o poder da indústria de fertilizantes, produtos orgânicos, entre outros temas

18 de novembro de 2020 | 03:00 por Suzana Barelli, O Estado de S.Paulo

Lançado neste último sábado, o documentário FreeRange (disponível na plataforma Vimeo) pode ser visto como o manifesto do vinho natural brasileiro. Ele começou a ser gravado três anos atrás, ainda sem pauta ou roteiro, quando a intrépida Lis Cereja, dona da Enoteca Saint VinSaint, em São Paulo, e o cineasta Fabio Knoll desceram até a Serra Gaúcha para entrevistar o vinhateiro Eduardo Zenker.

Zenker acabara de ter a sua vinícola lacrada por técnicos do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Uma denúncia anônima alertava que ele não cumpria vários dos protocolos de higiene para elaborar seus vinhos, que começavam a ter grande aceitação entre os fãs de vinhos naturais. De origem alemã, Zenker foi um dos primeiros a fazer sucesso com os seus espumantes ancestrais e demais experimentos de fermentação natural, sem adição de qualquer substância aas uvas, nem mesmo as leveduras.

O vinhateiro Eduardo Zenker, em cena do documentário "FreeRange".

O vinhateiro Eduardo Zenker, em cena do documentário "FreeRange". Foto: Reprodução

Na época, a polêmica foi grande. Primeiro porque Zenker não era o único produtor “ilegal”. A legislação brasileira – e esta é a grande crítica – não facilita o trabalho dos produtores artesanais, não apenas de vinhos. Muitas das exigências, principalmente sanitárias e fiscais, são muito difíceis de serem cumpridas por estes vinhateiros e, não raro, conduzem os produtores para a ilegalidade. “Tenho reconhecimento em Londres, na França, na Suécia, todo mundo atestando a qualidade do nosso vinho. Mas o Mapa diz que o meu vinho não tem qualidade, que tem de ser destruído”, afirma Zenke no documentário.

Não tardou para a dupla Lis e Fabio decidir filmar outros vinhateiros gaúchos. Acabaram entrevistando diversos produtores que seguem a cartilha da vinificação natural e perceberam que tinham um rico material em mãos. O documentário discute desde o que é vinho, a legislação, o poder da indústria de fertilizantes, a origem das sementes, os produtos orgânicos, entre outros temas. Vale ser visto para quem quer entender do assunto.

FreeRange chega ao mercado quando o tema dos naturais está em alta, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. Um exemplo é que a França definiu apenas neste ano o que é um vinho natural, lá chamado de “vin méthode nature”. Até então nem o país que é berço da vitivinicultura moderna tinha regras claras para estes vinhos. Para os franceses, os naturais devem ser produzidos a partir de uvas colhidas à mão, certificadas como orgânicas e fermentadas com leveduras indígenas. Procedimentos físicos intervencionistas, como osmose reversa e filtragens, são proibidos. Só é possível adicionar sulfitos no momento do engarrafamento, na quantidade máxima de 30 mg por litro.

E Zenker continua produzindo seus vinhos. Neste ano, ele inaugurou sua nova vinícola ao lado de casa, e tem o projeto de começar a plantar vinhedos. “Estou legalizado no Mapa, com vinhos com registros e toda a burocracia feita”, conta. Ele continua fiel depositário dos seus vinhos da safra de 2017, que estão estragando, enquanto o seu processo não chega ao final. Ele passou por São Paulo nesta semana para participar da Feira Naturebas, evento com provas online e presenciais, que acontece durante todo este mês de novembro (confira a programação em www.feiranaturebas.com.br, com três vinhos da safra de 2020, um espumante de Chardonnay; um laranja, com Sauvignon Blanc; e um tinto Cabernet Franc.

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