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Bebida

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É dona da quinta, e pega no pesado

Conheci a produtora de vinhos Sophia Bergqvist na Expovinis. Ela se apresentou com perfeito português lusitano, mas com um muito britânico senso autodepreciativo de ironia: “Sou inglesa, claro, você percebe pelo meu sotaque”. Quando o IVDP (Instituto do Vinho do Douro e do Porto) me convidou para ir à região, me hospedei na sua Quinta de la Rosa

07 novembro 2012 | 22:52 por luizhorta

O palacete é praticamente um centro cultural. Sophia retomou a vocação da avó, que amava a casa e lutou para não perdê-la nos momentos mais complicados de crises econômicas. Gostava de ter sempre gente hospedada, expatriados ingleses, escritores, ativistas gays, pintores.

Anglo-lusa. A Quinta de la Rosa e Sophia Bergqvist pilotando a lancha: anfitriã não quer só mostrar seus vinhos, quer que se entenda por que eles são como são. FOTOS: Luiz Horta/Estadão

Fiz visitas assim duas vezes antes, ao Uruguai na companhia do produtor de vinhos Daniel Pisano e ao País Basco com o chef Andoni Luis Aduriz, do Mugaritz. Gente que se esforça para ensinar o entorno e a cultura, professores generosos de terroir no sentido amplo da expressão.

De la grua. As conversas foram noite adentro, apesar da reforma de ampliação que Bergqvist dirigia na cantina, com enorme guindaste carregando tanques inox para dentro, e da ampliação da pousada que gere em prédio anexo. Parece trivial, mas a posição da quinta lambendo o rio, à qual se chega apenas por uma estradinha bem estreita, tornava toda a operação perigosa e complicada. Apelidei o lugar de “quinta de la grua” e ela se divertiu com sonora gargalhada, repetindo a brincadeira. “Passo uma parte do ano em Londres, mas minha vida está aqui e aqui minhas cinzas serão jogadas.”

Chamei-a de Ottoline Morell, a famosa anfitriã do grupo Bloomsbury (de Virginia Woolf, Maynard Keynes, Duncan Grant e outros). Ela não pareceu satisfeita. Ottoline era socialite demais, e Sophia, faz questão de pegar no pesado, colhe uvas, participa do plantio, trabalha duro.

Mesmo em vésperas de colheita, com ameaça de granizo e três adolescentes na casa, amigos do filho, organizou com cuidado para a coluna uma prova de todos os seus vinhos; depois outra, com vinhos de mesa de 12 produtores da região; e ainda agendou uma visita à Wine and Soul – vinícola de Sandra Tavares da Silva e Jorge Serôdio Borges -, e me levou às profundezas de seu depósito, de onde resgatou uma garrafa de um vintage 1960 em homenagem ao meu companheiro de viagem. O vinho, decantado num dos inúmeros decantadores da coleção que começou com a sua avó, estava soberbo com queijos portugueses.

Apego ao Tawny. Ao fim da degustação dos De la Rosas, carreguei seu Tawny 10 anos e ficamos conversando no pátio. O vinho é delicioso, a noite estava abafada e não parecia animador encerrar o dia. Eu hesitava em terminar a jornada e largar o Porto na mesa, ainda pela metade e ir dormir. Ela percebeu: “Leve para seu quarto, você pode escovar os dentes com ele”. Levei, mas usei de modo melhor: bebi.

(importados pela Ravin, tel.: 5574-5789)

Vale da Clara - Muito Bom

Um vinho excelente pelo preço, bem floral no nariz, muito frutado, boa acidez, taninos presentes, fácil de beber, corpo médio, agradável, para ter em casa e tomar no almoço de domingo (R$ 54).

Dou Rosa Branco – Muito Bom

Os brancos de Sophia são notáveis. Os Quintas de la Rosa brancos, esgotados no Brasil, estão entre os top 50 brancos portugueses de Jancis Robinson. Este, mais simples, sem madeira, mostra a estirpe. Mineral, é perfeito com frutos do mar (R$ 76).

Um ótimo tinto intermediário, mais longo que o Vale da Clara, não perde o frescor e a delicadeza dos taninos. Um corte bem do Douro, elegante, frutado mas consistente, promete evolução na garrafa. Belo vinho (R$ 76).

La Rosa DOC 2008 - Excelente

Mesmas castas do Dou (Touriga Nacional, Touriga Francesa, Tinta Barroca e Tinta Roriz), mas com tratamento mais solene. Eis um Douro para guarda. Provei o 2008, 2009 e o 2010; o 2008 foi o que mais agradou: bela evolução, taninos finos, ainda tem bastante fruta no nariz; toque tostado, é opulento na boca, sem exagero, longo e muito mineral. Na minha caderneta decifrei a palavra: sensacional (R$ 108).

Quinta de la Rosa Reserva 2007 – Excelente 

O vinho superior da vinícola. Provei uma minivertical, de 2007 a 2010, todos muito equilibrados e com mineralidade marcante. Fez lembrar os Graves. O 2007, disponível no mercado brasileiro, está com a madeira perfeitamente integrada, taninos polidos e boa acidez. Foi o mais sutil deles. Belo, aguenta guarda, embora não vá modificar muito. Pronto para beber (R$ 296).

Tawny Port 10 years - Excelente – Favorito!

Eu sei, fui ao Douro para provar os vinhos de mesa, que revolucionaram a região e a tiraram do declínio que o injusto esquecimento que os fortificados – madeiras, portos, moscatéis e jerezes – vêm vivendo. Ainda assim, se eu tiver de escolher um único vinho para terminar minha noite, será um Tawny. Foi o que fiz com este Quinta de la Rosa, que tem duas características encantadoras nesse tipo de vinho: complexidade aromática, com frutos secos e amêndoas e, na boca, a mistura ideal de doce e ácido. Este tesouro acompanha queijos potentes, doces elaborados de ovos e chocolate e até complicados pensamentos filosóficos. Definitivamente, meu vinho para o final de ano (R$ 150).

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