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É hora de dar uma chance ao vinho laranja

O resgate da maneira antiga de elaborar vinhos explica o sucesso que esses brancos de cor âmbar estão fazendo pelo mundo; confira 5 rótulos nacionais

16 de outubro de 2019 | 19:03 por Suzana Barelli , Especial para o Estado 

Impossível saber quais eram os aromas e os sabores do vinho quando ele começou a ser elaborado cerca de 8 mil anos atrás na região do Cáucaso, hoje divisa da Europa com a Ásia. Uma das poucas certezas é sobre a sua cor: os vinhos brancos tinham uma tonalidade alaranjada e os tintos, mais avermelhada. E é esta cor âmbar que batiza o estilo de vinho que vem fazendo sucesso atualmente entre sommeliers, geeks e bebedores antenados em geral: o chamado vinho laranja.

Vinhos brancos de cor âmbar estão fazendo sucesso pelo mundo todo

Vinhos brancos de cor âmbar estão fazendo sucesso pelo mundo todo Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Cartas de restaurantes como o D.O.M. e o Evvai, em São Paulo, ou o Oteque e o Aprazível, no Rio, têm alguns vinhos laranjas em destaque. No paulistano Tuju há uma ala inteira da carta dedicada a eles, com 10 rótulos divididos entre “leves e florais” e “intensos e minerais”.

Bares de vinho também têm sempre um laranja. “Na última semana, tínhamos cinco laranjas em destaque, todos de países diferentes: Itália, Chile, Argentina, França e Espanha”, conta a sommelière Daniela Bravin, sócia do Sede261. Um deles era o Loxarel Penedès a Pèl, feito com a uva espanhola Xarel.lo, e fermentado e envelhecido em ânforas, de terracota. 

 

Como é feito o vinho laranja

O que torna o vinho laranja é o processo de elaboração. Ao contrário da fermentação de um branco, quando a casca é rapidamente separada da polpa da uva, nos laranjas, a casca fica em contato com o mosto (suco) por mais tempo. Neste contato, chamado de maceração, a casca passa a sua cor ao mosto, criando uma coloração que pode variar de âmbar aos tons acobreados, conforme a uva e o tempo desse contato. A casca passa ao vinho também os taninos, tornando a bebida mais estruturada.

Muitos laranjas são feitos em ânforas de barro, seguindo a tradição. Mas o vinho pode ser fermentado em qualquer recipiente, do tanque de inox ao de cimento ou até de plástico. 

O italiano Josko Gravner, considerado o pai dos laranjas do século 21, segue a maneira como os vinhos eram elaborados na Georgia de 8 mil anos atrás e enterra suas ânforas no solo. Esta técnica permite controlar a temperatura de fermentação.

A casca, aliás, é um importante aliado dos enólogos. “Ela é uma proteção natural que impede que o vinho oxide ou sofra a infestação de outros microorganismos”, diz a enóloga gaúcha Marina Santos, sócia da Vinha Unna, que macera seus brancos por um mês, no mínimo, ou seja, só faz laranjas.

Com a demanda crescente, os produtores vêm testando diversas uvas, brancas (claro), e tempos de maceração. Gravner só cultiva variedades autóctones da região, como a Ribolla Gialla. No Chile, Villard aposta na Pinot Grigio de vinhedos antigos. As uvas da família da Moscato já mostraram aptidão para estes vinhos.

O Viejas Tinajas, um dos primeiros vinhos sul-americanos elaborados com esta técnica, é feito com a Muscat, de um vinhedo plantado em 1975. No Brasil, a variedade de origem italiana Peverella tem sido usada. A maioria dos laranjas são naturais, elaborados sem nenhuma intervenção na vinícola, e com leveduras nativas. Mas isso não é uma regra. 

 

Laranja, âmbar ou 'skin contact'?

O termo “orange wines” (vinhos laranjas) foi cunhado nos Estados Unidos para denominar os vinhos brancos de longa maceração. Refere-se, assim, apenas à cor do vinho. Apesar de didático, muitos produtores não gostam da denominação. Alegam que o termo confunde a cor do vinho com o método de vinificação e preferem usar o termo vinho branco de longa maceração, skin contact ou âmbar, que é a cor mais associada à bebida.

“Não é correto achar que todo o vinho laranja terá coloração laranja”, frisa Lis Cereja, dona da Enoteca Saint VinSaint, lembrando que a coloração muda conforme o tempo de contato com as cascas, o recipiente usado e a variedade.

Na falta de uma legislação oficial, os produtores (e os sommeliers) divergem sobre o período de maceração, o tempo em que as cascas ficam em contato com o mosto. 

Polêmicas à parte, o interesse pelos laranjas tem levado vários importadores a trazer este estilo de vinho para o Brasil. A pioneira Decanter tem em seu portfólio, entre outros, o badalado Gravner (R$ 954, o Ribolla Gialla). “São vinhos de nicho, mas que tem o seu espaço no mercado”, afirma Adolar Hermann, fundador da Decanter.

Guilherme Mendes, da Vinho Mix, diz que o consumidor gosta de novidades e conta que tem dez laranjas no seu catálogo, incluindo o Via Revolucionária Torrontés Brutal (R$ 148), argentino elaborado por Mathias Michelini segundo a filosofia biodinâmica.

Na importadora De la Croix, Geoffroy de la Croix diz que vem ampliando a sua linha, hoje com três laranjas, como o Si Rose, da Domaine Christian Binner, da Alsacia (R$ 249). “Provei meu primeiro laranja 14 anos atrás e desde então aprecio muito. São vinhos mais gastronômicos e muitos consumidores estão descobrindo o seu valor”, afirma o francês. 

 

Os rótulos nacionais 

O Brasil está na rota dos bons produtores de vinhos laranjas. O primeiro rótulo nacional começou a nascer em 2001, no Caminho de Pedras, interior de Bento Gonçalves (RS), quando os então estudantes de enologia Luís Henrique Zanini e Álvaro Escher maceraram uvas brancas com casca.

“Nossa ideia era fazer testes opostos ao que aprendíamos na faculdade”, conta Zanini. Se a proposta escolar era separar rapidamente a casca da polpa (como são elaborados os vinhos brancos mais modernos), eles deixaram a uva em contato com a pele por vários dias.

Optaram por vinificar a Peverella, variedade trazida pelos imigrantes italianos no fim do século 19 e que estava desaparecendo dos vinhedos gaúchos. A primeira safra do Era dos Ventos foi a de 2008. A maceração é de três semanas em velhas tinas abertas de carvalho e depois, dois anos em barricas de Ipê.

Outros destaques nacionais são o Âmbar, Sauvignon Blanc de Marco Danielle, do Atelier Tormentas, e os brancos da Vinha Unna, como o Brutal, corte de Malvasia e Peverella. O laranja mais recente é o Vivente, projeto dos fundadores da cervejaria gaúcha Coruja, nos vinhos naturais. Em 2018, eles fizeram um Sauvignon Blanc e agora vinificaram a Chardonnay e a Moscato de Alexandria. Confira abaixo.

 

● Era dos Ventos Peverella

Preço: R$ 249,70, na Vinhos Mundi 

O pioneiro dos laranjas nacionais é feito com a Peverella. No nariz, tem complexidade aromática. Na boca, notas cítricas, algo de abacaxi e um toque oxidativo. Os taninos estão bastante presentes nesse vinho.

Era dos Ventos Peverella

Era dos Ventos Peverella Foto: Vinhos Mundi

 

● Lunações Vinha Unna

Preço: R$ 120, no site da Vinha Unna  

Primeiro branco feito pela enóloga Marina Santos, na região de Pinto Bandeira, segue a receita de ser elaborado com uma porcentagem (em geral 70%) das uvas da safra e o restante de safras mais antigas. “É uma vinificação perpetua”, diz a enóloga Marina Santos. O vinho macera por 30 dias com a casca. Traz aromas intensos de notas cítricas, corpo de média intensidade, com sensação de taninos. 

Lunações Vinha Unna

Lunações Vinha Unna Foto: Vinha Unna

 

● Ambar – Atelier Tormentas 

Preço: R$ 360, garrafas Magnum (de 1,5 litro) no Atelier Tormentas

O polêmico enólogo Marco Danielle, do Atelier Tormentas, elabora este vinho laranja com as cepas Sauvignon Blanc, Gewurztraminer e Viognier, cultivadas em Monte Alegre dos Campos (RS). De cor dourada, é um vinho complexo nos aromas e no paladar. Tem notas florais e frutadas, com um toque delicado de especiarias. É encorpado, lembrando um tinto pelos taninos presentes.

Ambar – Atelier Tormentas 

Ambar – Atelier Tormentas  Foto: Ambar – Atelier Tormentas 

 

● Vivente - Sauvignon Blanc 

Preço: R$ 129, na Enoteca Saint VinSaint (R. Prof. Atílio Innocenti, 811, Vila Nova Conceição. 3846-0384). 

Uvas do vinhedo São Paulino, em Campos de Cima da Serra (RS), são a base deste branco fermentado em lagares e de produção limitada (apenas 350 garrafas). Não é excessivamente aromático, como os Sauvignons Blanc e tem boa complexidade.

 

● Ribolla Gialla – Domínio Vicari

Preço: R$ 95 na Domínio Vicari (pedido mínimo de seis garrafas)

Maceração de sete dias da casca com a polpa da italiana Ribolla Gialla, cultivada em Urubici (SC). Lizete Vicari trabalha com a filosofia de menor intervenção possível. Notas cítricas e de frutos secos, bom frescor e potência.

Ribolla Gialla – Domínio Vicari

Ribolla Gialla – Domínio Vicari Foto: Domínio Vicari

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