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Heloisa Lupinacci

Entre megas e micros, um vazio que chama

A antiga disputa entre as cervejeiras grandes e pequenas

12 novembro 2014 | 17:47 por Heloisa Lupinacci

O mundo cervejeiro é polarizado: de um lado, as megas; do outro, as micros. Mas, com o amadurecimento do mercado – e o intenso crescimento das micros –, a polarização começa a perder o sentido. Enquanto as grandes querem absorver características das pequenas, as pequenas procuram crescer e ocupar o meio desse campo.

Nas últimas semanas, a AB-Inbev (dona da Ambev) protagonizou dois lances que ilustram essa mudança: 1. Anunciou a compra da 10Barrel, uma cervejaria artesanal americana; 2. lançou, no Brasil, a Bohemia Reserva, english barley wine.

Amadurecimento. Grandes cervejarias querem absorver características das pequenas e as pequenas crescem para ocupar o meio de campo. Foto: Denis Ferreira Netto/Estadão

A 10Barrel, que fica no Oregon, é a terceira cervejaria artesanal americana comprada pela AB-Inbev. A primeira foi a Goose Island, de Chicago, em 2011. E, no começo deste ano, a Blue Point, de Nova York. É claro o movimento da gigante de absorver cervejarias artesanais. E, ao menos por enquanto, as cervejarias compradas têm se mantido fiéis a suas origens – com a vantagem de ter dinheiro para investir em matéria-prima e equipamento.

No segundo lance, aqui no Brasil, já faz algum tempo que a Bohemia vem sendo remodelada para se tornar uma marca de cerveja especial. Com toda a produção concentrada em uma fábrica só, a de Petrópolis, e uma gama de rótulos bem maior que a das cervejas comerciais – são oito ao todo –, é, digamos, a cerveja especial da Ambev. E isso pode dar coisa boa: pense, de novo, no acesso às boas matérias-primas, equipamentos de ponta e no controle de qualidade que uma cervejaria do Grupo AB-Inbev tende a ter; e calcule o que pode acontecer se for tomada a decisão de fazer uma cerveja superboa. A pena é que a Bohemia Reserva, uma english barley wine, custe R$ 120 (600 ml). O principal motivo de queixa do consumidor de cerveja especial é o preço. Daí, entre pagar R$ 120 para tomar a tentativa da Bohemia ou tomar uma Harviestoun Olah Dub 16 (330 ml), uma Struise Black Albert (330 ml) e uma Duvel (750 ml) – que, somadas dão pouco mais de R$ 120 –, eu fico com a última seleção…

De um jeito ou de outro, o espaço entre micros e megas está aí para ser ocupado. Nos EUA, a Brew Hub – criada no ano passado por um punhado de ex-executivos da AB-Inbev – faz o seguinte: entra com matéria-prima, fábrica e distribuição e os cervejeiros artesanais entram com a receita e o trabalho de consolidação de marca. É um desdobramento da lógica da cervejaria cigana – que tem muitos exemplos aqui no Brasil. E mais um passo para a ocupação desse grande meio de campo entre micros e megas.

Ficou com água na boca?