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Estratégia certeira da ‘loca geografia’

ANÁLISE

24 outubro 2013 | 01:19 por luizhorta

O Chile mudou de endereço e eu ainda estou tentando entender sua nova casa. Acho que é caso único na história do vinho ter mudança de demarcação de tamanho impacto feita por consenso, um movimento singular e harmônico, sem paralelo. Nem a inclusão do Mouton na classificação superior de Bordeaux tem tal choque de mudança. Mais uma vez o país da loca geografia sai à frente da vizinhança sul-americana e estabelece seu nome com solidez.

O caso chileno é especial. A produção de vinho não era nem mesmo tradicional e o chileno nem é um mercado interno importante. Foi uma história de qualidade e marketing bem-sucedidos. Quando o vinho chileno apareceu com força, lá pelos anos 1980, chegou como sinônimo de bom. Até hoje essa marca bem construída prevalece. Já testemunhei muito o peso do nome, vivo prestando atenção no comprador de supermercado ou no neófito que só quer um prazer imediato sem complicação. Ele pensa primeiro na França, pois ser francês é ainda sinal de qualidade para o mundo da gastronomia, mesmo com os abalos do surgimento da Espanha no mundo dos restaurantes. Como o produto francês costuma ser mais caro e é mais confuso, o consumidor se volta para sua zona de segurança: vinho chileno.

No imaginário do bebedor eventual de vinhos as palavras Chile e qualidade andam paralelas, e ainda há o preço convidativo. Mas o assunto aqui não é o case de marketing dos chilenos, é a denominação de origem. Quando o Chile vinícola eclodiu e ganhou visibilidade, os vinhedos estavam onde estavam, a nomenclatura era mais geográfica que geológica, fazia sentido dividir o país, que ainda tateava no assunto, por proximidade e vizinhança.

Ficou com água na boca?

Agora, com o aprofundamento das investigações sobre solos, com a descoberta de terroirs, com enólogos mais técnicos e mais exigentes, foi preciso o passo enorme de classificar o território também longitudinalmente, partindo em porções menores o antigo mapa baseado em linhas na direção Pacífico-Andes, para admitir outras influências, outras composições demarcatórias menos simplistas que a simples posição no mapa.

O novo mapa do Chile admitirá mais complexidade de terroir que a pensada anteriormente. É também, por casualidade, outra bela maneira de mostrar o vinho chileno ao mundo. A mudança vai tornar a compreensão dos microclimas mais fácil. A relação entre os vinhos e sua origem será mais determinante que é hoje. Saberemos mais diretamente onde estão os vinhos mais frescos, os melhores Pinots, os convincentes Rieslings e a surpreendente Carignan. Também entenderemos os porquês disso tudo. Quem sabe em uma década não estarei vendo compradores procurando por um “Vale de Elqui Entre Cordilheiras”? Não precisa, claro, mas quanto mais prateleiras tem sua estante, mais fácil fica achar uma coisa. Os vinhos mais bem classificados serão mais bem entendidos. O Chile garante de novo a vanguarda no Cone Sul, inteligente e certeira estratégia.

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>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 24/10/2013

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