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Garagista de primeira

Por Guilherme Velloso

21 maio 2014 | 23:36 por redacaopaladar

Thune, em francês, é uma gíria equivalente a “grana”; e vin obviamente é vinho. Ao pé da letra, Thunevin seria a combinação de grana com vinho. A bem-humorada explicação é de Jean-Luc Thunevin. O produtor, que esteve recentemente no Brasil, foi o responsável por criar uma nova categoria de vinhos em Bordeaux, a região mais tradicional e reputada do mundo: a dos vinhos “de garagem”. Mas, no seu caso, talvez fosse mais correto inverter a ordem das palavras no seu nome, porque o vinho veio antes da grana.

Em 1986, aos 33 anos, Thunevin largou um emprego estável, mas pouco atraente, no Crédit Agricole (antes, já trabalhara como lenhador e como DJ, sem grande sucesso). Com a indenização equivalente a R$ 45 mil comprou um modesto sobrado em Saint-Émilion e um minúsculo pedaço de terra (0,6 hectare) nas vizinhanças da pequena cidade medieval, onde sua mulher, Murielle, trabalhava como enfermeira. Para sobreviver, abriu um restaurante chinês. Primeiro, como explica, porque não havia nenhum na cidade; segundo, porque, dessa forma, “pelo menos teria o que comer”. O restaurante durou pouco e foi substituído por uma loja de vinhos, que ele mantém até hoje, à qual, ao longo do tempo, se somaram mais quatro.

A irreverência marcou a recente visita de Jean-Luc Thunevin ao Brasil. FOTO: Divulgação

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Com a loja, Thunevin tornou-se também negociante de vinhos. Fazer o próprio vinho foi um passo natural. Para isso, buscou inspiração no Le Pin, um de seus vinhos preferidos, e recorreu às uvas da pequena propriedade que comprara. Como não tinham dinheiro, ele e Murielle cuidavam de tudo (até hoje ela supervisiona pessoalmente todas as atividades relacionadas ao vinhedo). E o único lugar com espaço suficiente para colocar os tanques de vinificação foi a garagem da casa onde moravam. Foi assim que nasceu o Château Valandraud (junção do nome do lugar do vinhedo com o sobrenome da mulher).

A primeira safra (1991) foi de apenas 1.500 garrafas, mas, por acaso, uma delas chegou às mãos de Michel Bettane, o mais respeitado crítico de vinhos francês, que escreveu sobre um sujeito que fazia um vinho muito bom na garagem de sua casa em St-Émilion. A safra seguinte foi um pouco maior e, dessa vez, quem provou o vinho foi Robert Parker, já na época o mais influente crítico do mundo. Parker o classificou entre os três melhores da denominação (St-Émilion), à frente de vinhos bem mais conhecidos e muito mais caros. Foi Parker quem popularizou as expressões “vinho de garagem” e “garagista”. A consagração, do nome e do vinho, veio em 1993, quando o jovem Valandraud chegou ao topo da lista do crítico americano.

Enólogo e marqueteiro. A partir daí, na definição do próprio Thunevin, “a garagem virou concessionária”. Apesar de comentários pouco favoráveis de críticos como o inglês Hugh Johnson (“os ingleses são os nossos argentinos”, brinca), ou talvez por causa deles, o Valandraud virou um vinho cult, vendido a preços estratosféricos (no Brasil, em torno de R$ 1.500). A tal ponto que, hoje, é servido aos privilegiados passageiros da primeira classe da companhia aérea Emirates. E o nome Thunevin foi para o Olimpo, ao lado do amigo e consultor de sua vinícola, Michel Rolland. Isso permitiu que Thunevin ampliasse suas posses e o escopo de suas atividades.

Hoje, o vinhedo do Valandraud ocupa exatos 8,88 hectares e a produção do vinho, dependendo da safra, oscila entre 20 e 25 mil garrafas. Ele também comprou um vinhedo de 20 hectares, transformado no Domaine Virginie Thunevin, para a filha única, que, ironia do destino, não bebe. E extrapolou as fronteiras de Bordeaux ao comprar terras em Languedoc-Roussillon, com um sócio.

Os negócios de Thunevin atualmente abrangem três atividades: vinhos produzidos sob seu próprio nome; vinhos de terceiros, em geral de amigos, aos quais presta consultoria enológica (o mais conhecido à venda no Brasil é o Fleur Cardinale, um grand cru de St-Émilion); e vinhos que simplesmente vende como negociante.

O sucesso de Thunevin pode ser creditado, em parte, ao talento inato como enólogo, já que não teve educação formal; e, em parte, a uma vocação para o marketing. A união dos dois talentos deu origem a um vinho, cuja história é a seguinte: Robert Parker frequentemente se referia a Thunevin como o “bad boy” de St-Emilion. Ele aproveitou o apelido para batizar um novo rótulo. O Bad Boy (nos Estados Unidos, por questões legais, é vendido com o nome em francês, Mauvais Garçon) foi lançado em 2005. O rótulo mostra uma ovelha negra de olhar malandro, apoiada numa placa indicando: “garage”. O vinho é um enorme sucesso e, recentemente, inspirou o Bad Girl, um espumante (crémant) rosé, criado por Murielle, de rótulo igualmente criativo.

Outra grande tirada de marqueteiro foi em 2000. Preocupado com o efeito de pesadas chuvas sobre os vinhedos do Valandraud, Thunevin cobriu com plástico dois hectares dos vinhedos do Valandraud, para protegê-los. Logo a notícia chegou ao conhecimento do Inao, órgão responsável pelas denominações de origem controlada na França que proibiu que vinhos produzidos com uvas provenientes dessas parcelas do vinhedo coberto fossem comercializados sob a denominação “Saint Émilion Grand Cru” ou mesmo com seus nomes originais, uma vez que a prática era proibida. Os vinhos só poderiam ser colocados no mercado como “vin de table”, a categoria mais baixa. Thunevin não teve dúvidas, engarrafou o vinho e deu-lhe o nome de “L’Interdit de V……..d” (algo como “O proibido de V……..d”). Resultado: a demanda foi tão grande que o vinho foi vendido por preço superior ao do Valandraud e se esgotou logo.

O reconhecimento definitivo, porém, só veio em 2012, quando a reclassificação dos vinhos de St-Émilion, feita a cada dez anos, promoveu o Valandraud à mais alta categoria, a de “premier grand cru classé”. Nada mal para um “pied-noir” (expressão usada para identificar os franceses nascidos na Argélia) sem fortuna familiar ou tradição no mundo do vinho. “Não me chamo Rothschild”, costuma dizer Thunevin. “Meu nome é minha própria história.”

RAIO-X

Quem é: O garagista número um da França, o primeiro produtor a fazer vinhos na garagem.

O porquê da fama: Faz grandes vinhos em quantidades minúsculas, com foco na qualidade, vendidos a preços estratosféricos. Tem como consultor o amigo enólogo Michel Rolland.

Onde faz vinhos: Em St.-Émilion comuna de Bordeaux situada na margem direita do Rio Dordogne, onde a uva Merlot alcança sua expressão máxima, seguida da Cabernet Franc.

Por que o apelido de Bad Boy: A forte personalidade de Thunevin e sua inconformidade com algumas regras para a classificação dos châteaux de St-Émilion deram origem a muitas polêmicas e disputas com o sindicato dos produtores locais. O crítico Robert Parker acabou apelidando-o de “o bad boy dos garagistas”.

OS RÓTULOS DO BAD BOY

Produtor de vinhos próprios e para terceiros em Bordeaux e no Roussillon (de diferentes estilos e faixas de preço), Thunevin apresentou seus rótulos numa prova na sede da Associação Brasileira de Sommeliers, em São Paulo. A estrela foi o Château Valandraud 2012 (que ainda está em barricas e ele engarrafou seis e trouxe na mala).

FOTOS: Reprodução

Cuvée Constance 2008 (Domaine Thunevin-Calvet)

De Côtes du Roussillon Village, é um corte de Grenache, Syrah e Carignan. Vinho de entrada de gama, com muita fruta, madeira e álcool no nariz. Na boca, boa acidez, fruta e taninos rústicos.

Nº 2 Blanc de Valandraud 2008 (a de safra 2010 virou “Virginie de Valandraud Blanc”)

Corte bordalês branco. Nariz frutado. Na boca, tem ótima acidez, macio, encorpado e untuoso. “É um vinho para a mesa”, diz o produtor.

Bad Boy 2009

Desmentindo o nome, o Bad Boy 2009 é um vinho exemplar tanto no nariz quanto na boca. Corte de Merlot (80%) e Cabernet Franc (20%), este rótulo é uma ótima opção em sua faixa de preço, em grande safra.

Château Fleur Cardinale 2009 (St-Emilion Grand Cru)

Thunevin é só o enólogo desse ótimo vinho, de uma das melhores safras recentes em Bordeaux. Na boca é pura elegância, com taninos finíssimos, embora ainda jovem.

Château Valandraud 2012 (St-Emilion 1er Grand Cru Classe)

Casa do Porto (R$ 1.500)

Na primeira infância, será um ótimo vinho de safra mediana. Mas já esgotou. “‘Roubamos’ essas garrafas de algum cliente que já pagou por elas”, brincou Thunevin.

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 15/5/2014

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