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Suzana Barelli

Geadas ameaçam safra na França

Há produtores que perderam todo o seu vinhedo, outros contabilizam 60% ou 85%; já se fala em reajustes de preços

13 de abril de 2021 | 03:00 por Suzana Barelli, O Estado de S.Paulo

Aos desavisados, a cena é linda. Os vinhedos iluminados por velas e pequenas fogueiras marcaram a paisagem da Borgonha, do Rhône, na Alsácia, de Champanhe, entre outras regiões francesas, nessa última semana. Mas a beleza fica apenas na imagem. As velas e as fogueiras com gravetos, somadas aos ventiladores e aos helicópteros, são técnicas utilizadas pelos produtores para aquecer a atmosfera e tentar evitar que as geadas matem os primeiros brotos, que estão nascendo nos vinhedos, nesse começo de safra de 2021 no Hemisfério Norte.

Esse ano, a geada foi bem forte na grande maioria das regiões produtoras francesas. Há produtores que perderam todo o seu vinhedo, outros falam em 60%, em 85%. Sabe-se que Chablis, no norte da Borgonha, foi uma das regiões mais atingidas. Mas outras denominações da Borgonha, assim como Champanhe, Loire; Entre deux Mers, em Bordeaux; o sul do Rhône e até o Languedoc, no sul da França tiveram problemas com a geada.

Fogueiras ajudam a aquecer a atmosfera para tentar evitar que as geadas matem os brotos.

Fogueiras ajudam a aquecer a atmosfera para tentar evitar que as geadas matem os brotos. Foto: Sebastien Salom-Gomis/AFP

“Mas ainda é cedo para precisar o tamanho da perda. O primeiro momento é sempre pior do que a realidade, e há vinhedos que conseguem se recuperar”, afirma Ciro Lilla, fundador da importadora Mistral, com quase 50 produtores franceses no catálogo. A explicação é que às vezes a videira, mesmo atingida, consegue se recuperar e volta a a gerar folhas e frutos.

A geada de primavera é uma das grandes ameaças às vinhas, em um perigo que ronda os vinhedos até o final de maio. Nesse ano, o clima fez a geada ser mais severa. Em meados de fevereiro, o tempo esquentou e as videiras começaram, precocemente, a brotar, seguindo o seu ciclo vegetativo. Na semana passada, no entanto, a massa de ar frio do norte da Europa fez a temperatura cair drasticamente, para algo como 6°C, 8°C negativos.

Resultado, a geada congelou os pequenos brotos, que já haviam surgido, e isso pode matá-los. Para piorar, o nascer do sol faz a temperatura subir e pode queimar os brotos que estão frios nesse início de manhã. Quando esses brotos apenas congelam, não necessariamente eles morrem, e o ciclo da videira consegue prosseguir. O problema é quando eles são queimados pelos raios de sol. Por isso, a fumaça da manhã, resultado das fogueiras, é também importante.

“As primeiras notícias são que as uvas brancas foram mais atingidas do que as tintas”, diz Rodrigo Malizia, sócio da Cellar, importadora focada em rótulos franceses e que está começando a diversificar o seu portfólio com vinhos de outros países europeus. Isso ocorre porque as variedades brancas são as primeiras a brotar e, por isso, foram as mais atingidas. Nas tintas, muitos dos botões ainda não tinham sido abertos, reduzindo o risco da geada.

Os dois importadores contam que o momento é de solidariedade entre os produtores, que têm passado a madrugada no frio no vinhedo, acendendo velas e queimando gravetos. “Percebo que os produtores biodinâmicos estão mais conformados, porque sabem que faz parte da natureza”, diz Malizia. Ciro Lilla diz que muitos lamentam não ter seguros, mas que o valor é muito caro – vale lembrar que não é apenas as vinhas que sofrem com as geadas, mas todas as culturas agrícolas.

No entanto, mesmo com os produtores atordoados com a geada, já surgem comentários de reajustes de tabelas de preços. “O movimento de subida já começou entre os negociantes”, conta Lilla.

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