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Gigante chilena do vinho mira o passado

Para celebrar seu 140º aniversário, Viña Santa Carolina está produzindo vinhos a partir de documentos dos anos 60, com pouca intervenção na adega e uvas criadas em vinhedos de até 90 anos

22 abril 2015 | 17:52 por redacaopaladar

Por Isabelle Moreira Lima

Sabe aquela receita da avó que um dia um neto cheio de coragem decide encarar? É mais ou menos isso que a gigante chilena Viña Santa Carolina diz estar fazendo para celebrar seu aniversário de 140 anos neste ano. Está desenvolvendo um projeto de resgate histórico cuja vedete é um tinto feito com base em documentos dos anos 1960 encontrados depois do terremoto que assolou o Chile em 2010.

Os ingredientes deste vinho, batizado de Luis Pereira, também são “de época”. As uvas, mescla de Cabernet Sauvignon, Malbec, Cabernet Franc e Romano, vêm de vinhedos com mais de 25 anos de idade – alguns com até 90 anos – de diferentes partes do Chile. Eles têm material genético pré-filoxera (a famosa praga que atacou vinícolas no fim do séc. 19) e são tratados como se fazia há mais de 50 anos. Isso significa “pouca intervenção e muito equilíbrio”, disse Andrés Caballero, enólogo chefe da Santa Carolina, ao Paladar. “Na adega, se intervém muito pouco nas frutas. Não subimos a temperatura, deixamos que se partam por si só com leveduras nativas e deixamos que fermentem no seu ritmo. Só baixamos a temperatura se chega a 33°C.”

Resgate. Em projeto comemorativo, Vinã Santa Carolina trata vinhedos como se fazia há 50 anos. FOTO: Divulgação

As uvas são pouco maceradas e, ao separar a uva do mosto, o prensado vai com o vinho para barris antigos, onde fica por um ano. Depois, mais um ano em barris de carvalho francês, feitos para este projeto.

Mas, se os processos de produção se aperfeiçoaram tanto nos últimos anos, por que voltar a fazer vinhos como no passado? Para Caballero, os anos 1950 e 1960 uniam uma “tradição rica, de uma vinicultura que começou no séc. 19, a descobertas tecnológicas que ajudaram a preservar melhor o vinho”. Entre elas, destaca as melhoras nas filtragens. “É como resgatar uma receita antiga de família que requer muito tempo e ingredientes especiais, que talvez nem existam mais. Estamos fazendo essa receita para algumas garrafas apenas”, diz.

Além do Luis Pereira, que será lançado em junho na Vinexpo, uma das maiores feiras de vinho do mundo, em Bordeaux, na França, a Viña Santa Carolina também está produzindo um Semillon sob o mesmo conceito. Será vendido só na Inglaterra.

O projeto intriga: é só jogada de marketing para melhorar a imagem de uma gigante conhecida principalmente por seus vinhos de entrada? Para o crítico chileno Patricio Tapia, autor do Guia Descorchados, pode até ser uma jogada, mas é um “marketing do bem, de conteúdo”.

“Voltar ao natural, usando cada vez menos tecnologia, é uma ideia com força no mundo todo já há algum tempo. Olhar para o passado é apenas seguir essa moda. A Santa Carolina não é a primeira que o faz. Mas é a primeira a fazer um estudo dessa profundidade”, diz Tapia.

Além de produzir os vinhos, a chilena está transplantando vinhas antigas de outras regiões e catalogando uvas. “Encontramos uma variação da Cabernet Sauvignon mais peluda, distinto do clássico”, diz Caballero.

Sexteto chileno de Carolina

A Viña Santa Carolina foi fundada em 1875 por Luis Pereyra Cotapos, que batizou a empresa em homenagem à mulher Carolina Iñiguez. Hoje, mantém vinhedos em seis diferentes regiões do Chile: Casablanca, Leyda, Maipo, Cachapoal, Maule e Colchagua. Está entre as maiores vinícolas do país, com seis diferentes selos para seus vinhos, sendo o mais popular o Reservado e o mais exclusivo o Herencia, um Carmenere bem avaliado pelos principais críticos de vinho. Seus principais mercados são, além do próprio Chile, o Canadá e o Brasil.

>>Veja a íntegra da edição do Paladar de 23/4/2015

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