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Icônicos vinhos dos Hospices de Beaune chegam ao Brasil em setembro

Primeira mulher a comandar a produção da vinícola da Borgonha, a enóloga francesa Ludivine Griveau esteve em São Paulo para degustação com rótulos ainda vinificados por seu antecessor

27 julho 2016 | 21:17 por Isabelle Moreira Lima

Classificar um vinho como feminino é uma ofensa para a enóloga francesa Ludivine Griveau, responsável pela produção do Domaine des Hospices de Beaune, uma instituição icônica da Borgonha com mais de cinco séculos de história. Desde 2015 no comando da grife, ela considera a expressão irritante e sem sentido. “Os homens podem gostar de vinhos elegantes e fazer vinhos elegantes, a delicadeza não é algo de mulher apenas”, disse em entrevista ao Paladar durante visita a São Paulo. 

Carismática e sem agressividade de ativismo, Griveau quer ser reconhecida como profissional independentemente do gênero. Mas, no mundo do vinho, não é fácil. Primeira mulher a comandar a vinícola dos Hospices de Beaune, ela chefia praticamente homens no campo e na cantina. “E 90% são mais velhos que eu”, diz ela, de 38 anos.

No começo, sofreu para impor respeito. O fato de ter vencido 79 candidatos homens para ocupar a vaga de enóloga-chefe na seleção que elegeu o substituto de Roland Masse não foi suficiente. A vitória e a paz só chegaram com o primeiro leilão em que sua produção foi negociada: seu vinho chegou a ¤ 10 milhões, um recorde histórico desde 1851, quando começou o leilão das 41 cuvées da região.

A enóloga francesa Ludivine Griveau

A enóloga francesa Ludivine Griveau Foto: Divulgação

“Eu parecia mãe de primeiro filho. Ao mesmo tempo que queria gritar de alegria, estava estressada, pronta para sorrir e chorar.” 

Os primeiros vinhos produzidos por Ludivine Griveau devem chegar em setembro ao País, trazidos pela Anima Vinum Brasil, que comprou uma barrica de 220 litros (ou 288 garrafas) no leilão no ano passado. 

Em São Paulo, ela comandou uma prova com quatro safras do Volnay 1er Cru Santenots Cuvée, 1999, 2003, 2009, 2012, vinificadas por Roland Masse. A ideia era mostrar como o solo elegante e mineral de Volnay muda a cada ano. “Por mais que cada terroir tenha suas características, precisamos lembrar: a Borgonha é feita de poréns.”

Barris da vinícola dos Hospices de Beaune, na Borgonha

Barris da vinícola dos Hospices de Beaune, na Borgonha Foto: Divulgação

O que a senhora mudou ao assumir o Domaine des Hospices de Beaune?

Nada radicalmente. Espero continuar na direção de Roland Masse. Claro, eu não sou ele, mas temos algo em comum: a preocupação com o vinhedo. 

Que marca você quer deixar?

Quero fazer uma gestão focada nos vinhedos. Espero que em 35 anos as pessoas possam dizer que fiz um ótimo trabalho com as vinhas. Tudo o que eu estou cuidando agora e as vinhas que estou replantando serão extremamente valiosos em 40 anos. 

Qual o maior desafio de se trabalhar nos vinhedos de Beaune?

Nunca esquecer que uns e outros não são iguais e, portanto, precisam ser considerados separadamente. Espero nunca colocá-los na mesma receita. A precisão é que faz os grandes vinhos.

TRADIÇÃO

Hospices Civil de Beaune foi fundado em 1443 como um hospital para atender a população carente de Beaune, na Borgonha. O prédio original é hoje um museu e a sede do célebre leilão de vinhos realizado todos os anos desde 1851 no terceiro domingo de novembro. No pregão, é ofertada a produção dos vinhedos da instituição, doados por benfeitores ao hospital. São 41 cuvées vendidas em barris no mesmo ano em que as uvas são colhidas e vinificadas. Quem compra tem que decidir como vai “terminar o vinho”. 

 

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