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Só de birra

Heloisa Lupinacci

Já ganhamos a Copa (da cerveja)

A World Beer Cup, a copa do mundo da cerveja, é realizada a cada dois anos nos EUA.

16 abril 2014 | 23:11 por Heloisa Lupinacci

José Felipe e Tiago Pedras Carneiro estavam filmando o anúncio do prêmio de melhor dubbel na World Beer Cup, a copa do mundo da cerveja, realizada a cada dois anos nos EUA.

Assim que o filme – que tem só 16 segundos – começa, o apresentador anuncia a medalha de prata para a holandesa Gulpener Bierbrouwerij. Dá para ouvir o muxoxo dos irmãos: “Caramba…”. Em seguida Zé Felipe se conforma: “É muito difícil”.

É difícil mesmo. Monges trapistas belgas e holandeses vêm fazendo dubbels há centenas de anos e com concentração monástica. E quase todas as melhores cervejas desse estilo produzidas no mundo estão inscritas na prova.

A competição, para que se entenda o porte, recebeu quase 5 mil inscrições de 1.403 cervejarias de 58 países. Entre brasileiras, eram 21 cervejarias inscritas. As amostras foram julgadas por 219 jurados, entre eles, dez brasileiros. Outra regra importante: cada cervejaria pode inscrever apenas 4 amostras. Ou seja, as melhores cervejarias do mundo escolhem seus melhores rótulos para mandar.

Ficou com água na boca?

FOTO: Jason Kaplan/Craft Brewers Association/Divulgação

Pois bem, voltando ao anúncio, que aconteceu na última sexta-feira, 11. O apresentador diz na lata: o ouro vai para a Wäls Dubbel. Aí é só grito e câmera tremida. Motivo para a comemoração não falta. É a primeira vez que uma cerveja brasileira ganha a medalha de ouro na principal competição cervejeira do mundo. Zoom out: é o primeiro ouro da América do Sul.

A Wäls ainda ganhou a prata na categoria quadrupel, mas esse anúncio eles nem ouviram. “A gente saiu gritando e pulando e abraçando todo mundo. Aí anunciaram a prata na quadruppel e a gente nem ouviu. A Bianca e o Rafael, da Colorado, vieram avisar”, relembra José Felipe, com a voz exausta, depois 62 horas de voos, escalas e conexões de Denver (Colorado, EUA), onde foi o campeonato, até Belo Horizonte, onde fica a cervejaria. “Além disso, depois do prêmio fiquei dois dias sem conseguir dormir”, diz José, que recebeu cumprimentos de alguns de seus ídolos. “O Garrett Oliver, da Brooklyn Brewery, ajoelhou pra mim! Imagine, eu sou muito fã dele…”

Antes de premiação, José encontrou outro ídolo, o cervejeiro da Dogfish Head e apresentador de TV Sam Calagione. O diálogo foi o seguinte:

José: “Sam, eu mandei um tanto de e-mails pra você e você nunca me respondeu.”

Sam: “Desculpa, muita gente escreve, não dá para responder todo mundo.”

José: “Você vai ver depois do prêmio, você vai falar comigo.”

“E ele veio mesmo”, conta, todo orgulhoso.

Os irmãos Pedras Carneiro não param de fazer piada um com outro e com quem passa perto deles. Mas quando o assunto é negócio, eles não brincam. Está no mar o navio cheio de dubbels, quadrupels e Petroleums que vão desembarcar nos EUA. É o primeiro lote para exportação da cervejaria. As cervejas estão sendo enviadas com a marca Belô (trocaram porque Wäls lembra Walls, a marca da Kibon na Ásia). E neste ano eles abrirão uma cervejaria lá.

Dubbel. Criada em 2005, a receita foi sendo aperfeiçoada ao longo dos anos. Hoje, leva uvas passas da Argentina.

Quadrupel. A receita é de José Felipe. Ela é envelhecida com chips de carvalho francês marinados

em cachaça mineira.

Ficou com água na boca?