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Maior crítico de vinhos agora toma cerveja. Motivo: o preço

Isabelle Moreira Lima

18 agosto 2015 | 16:18 por redacaopaladar

Os preços cada vez mais astronômicos de certos vinhos estão afastando as gerações mais jovens e beneficiando o consumo de outras bebidas como cervejas artesanais e destilados. “Eu gosto de degustar essas cervejas porque elas são muito boas e bem feitas e você consegue comprar quatro bebidas excepcionais por US$ 20, o que ainda é um valor de bom custo-benefício quando se trata de vinho”, afirma Robert Parker, possivelmente o nome mais conhecido quando se trata de crítica da bebida.

O crítico norte-americano lamentou a atual política de preços de vinhos franceses, principalmente, em entrevista dada ao site da revista inglesa The Drinks Business, em que comenta suas quase quatro décadas de carreira. “Este é um problema legítimo e uma preocupação. E lembro quando meus amigos e eu tínhamos uma confraria e compramos um Lafite-Rothschild por US$ 25. Aquilo, para nós, era uma quantidade absurda de dinheiro. Mas hoje, até para vinhos não-safrados de Lafite-Rothschild, gastaríamos US$ 300”, afirmou na entrevista.

Parker disse ainda que vê restaurantes como parte do problema, por cobrarem caro e fazerem com que o vinho pareça ser uma bebida elitista. “E ele não deve ser. O vinho é algo para ser consumido, não para ser admirado ou guardado em adegas que parecem museus”, disse.

O crítico afirmou que tem consciência que quando dá notas altas inflaciona os preços dos vinhos. “Eu sou parte do problema. Mas espero que ao elogiar os melhores vinhos eu encoraje outros produtores a fazer melhores vinhos e, quem sabe, não dar preços extravagantes.”

Ao comentar sua relação com os produtores, contou que foi alvo de tentativa de suborno apenas o início da carreira, mas que foi vítima de ameaças de morte nos anos 1990. Acabou descobrindo que o autor era um comerciante que o culpava por ter vendido a safra 1982, famosa por sua qualidade, a preços abaixo do mercado.

Embora tenha aberto mão de coberturas como a en primeur de Bordeaux, quando as safras são apresentadas pela primeira vez à crítica especializada, e do Rhône, uma de suas regiões favoritas, Parker afirmou que não tem planos de se aposentar. “Aposentadoria é a fórmula da morte. Não posso imaginar sair do mundo do vinho por completo. O segredo, na minha idade, é escolher e fazer apenas o que você realmente quer fazer. Então, eu vou continuar criticando Bordeaux engarrafados, vou continuar com o norte da Califórnia, as degustações verticais e o que mais me interessar”, disse.

FOTO: Nilton Fukuda

Na entrevista, Parker questiona o uso de degustações às cegas como prática geral. “Não acho que degustações às cegas levam a críticas mais precisas, nem a críticas piores. Minha maior dúvida é como proceder em caso de vinho que ainda está na barrica. Os melhores vinhos pedem que você vá à vinícola. E como fazer isso às cegas? De certa forma, esse tipo de degustação cria um sistema que trata de forma diferente aqueles que deixam que você deguste às cegas”, afirma.

Em avaliação de sua carreira, Parker diz que seu “paladar consistente” é seu ponto mais forte. “Não acho que meu gosto tenha mudado. Eu sempre busquei o equilíbrio, que eu acho que é muito importante, e sempre quis que o vinho tivesse personalidade, uma espécie de poder de imã que me leve à taça. As pessoas dizem que o Parker só gosta de vinhos intensos e bombásticos, o que não é verdade. Sim, alguns desses eu realmente gosto. Mas eu dou muitas notas altas para vinhos elegantes — e não recebo crédito. Mas, sim, eu sempre tive um paladar consistente, o que considero um dos pontos fortes da minha carreira. Eu sei o que estou buscando e fui fiel a isso nesses 37 anos.”

Entre os vinhos elegantes que foram bem pontuados pelo crítico, ele cita vinhos de Bordeaux e de Borgonha — onde diz ter “derramado sangue” pelas brigas com produtores da região, seu maior arrependimento da carreira –, do Loire, Rieslings alemães e vinhos austríacos. “Amo todos esses”, disse.

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