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Mais brasileira que a cachaça

Alice Granato

15 julho 2015 | 22:35 por redacaopaladar

Reza a lenda que após beber a tiquira não se pode tomar banho, sob o risco de um efeito fatal. Não se sabe como surgiu essa história, mas, com ou sem banho, a aguardente de mandioca, de alto teor alcoólico (40%), é bastante popular no Maranhão, onde é encontrada por todos os cantos. É quase sempre feita de forma caseira, com tonalidades que variam do rosa ao roxo e rótulos improvisados e vendida no mercado informal.

A tiquira foi inventada pelos indígenas maranhenses, como bebida para ser consumida nas festas. Originalmente era apenas fermentada e só mais tarde passou a ser também destilada. O nome, em tupi, quer dizer a bebida que goteja. Com tanta história, a tiquira atraiu a atenção da carioca Margot Stinglwagner, que se preparava para abrir uma pousada em Santo Amaro do Maranhão, perto dos Lençóis Maranhenses.

Filha e neta de mestres cervejeiros – seu pai foi um dos fundadores da Brahma do Brasil –, ela diz ter o gosto pelo álcool no sangue e se encantou com a bebida. “Acho que limpavam minha chupeta na cerveja”, brinca. Resultado: resolveu produzir uma tiquira de qualidade.

O primeiro passo foi estudar. Formou-se mestre alambiqueira no Centro de Tecnologia da cachaça, em Itaverava (MG), fez curso de blend, leu, pesquisou e depois de três anos está lançando a bebida, batizada com o nome de uma tribo indígena maranhense, Gaaja. E produzida com qualidade.

FOTO: Sérgio Pagano/Divulgação

A escolha do rótulo foi outra homenagem à terra de Gonçalves Dias: os pássaros vermelhos guarás, desenhados pelo artista Carlos Artêncio. “Assistir à revoada dos guarás é uma das mais belas imagens do Maranhão”, diz a produtora.

Os testes para a elaboração da bebida começaram na cozinha de seu apartamento em Ipanema, mas hoje a pequena fábrica em Santo Amaro já produz 60 mil litros por ano da tiquira. E este é só o começo. Contrariando uma antiga lenda maranhense segundo a qual só homens podem produzir a bebida, na fábrica de Margot as mulheres são maioria.

O processo de fabricação da aguardente de mandioca é complicado, pois, diferente da cana, a mandioca não tem o açúcar natural. A produção começa com a limpeza da mandioca brava, para retirada da toxicidade. Depois de limpa, a mandioca é ralada, prensada, cozida e passa por processos enzimáticos que transformam o amido da raiz em açúcar. Só então ela está pronta para a fermentação e posteriormente para ser destilada em alambique de cobre. Depois de pronta, repousa nos tanques até ser engarrafada. “Nem a cachaça é tão brasileira como a tiquira, pois a cana de açúcar não é originária daqui e a mandioca, sim”, diz a produtora com orgulho.

 

Onde comprar. Deve chegar ao mercado em meados de julho, ao preço de R$ 50 a garrafa de 500 ml. Venda online www.tiquirabrasil.com.

Veja a íntegra da edição do Paladar de 16/7/2015

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